Mal que adoece

IMG_0732Nathália Vargas e Isabella Carvalho

Dengue e sarampo, enfermidades que estavam sob controle, voltam a ameaçar o país

Em 2019, doenças como dengue e sarampo voltaram a ameaçar a vida de crianças, jovens e adultos no Brasil e no Distrito Federal. Controladas por algum tempo, retornaram em forma de surtos e epidemias. Para especialistas, a desinformação pode ser um dos principais motivos da baixa cobertura vacinal de sarampo e a pouca divulgação de campanhas contra a dengue pode contribuir para o aumento de casos da doença.

Pelos dados do Ministério da Saúde, até o fechamento desta edição houve 7.972 casos confirmados de sarampo em todo o país e cerca de 273.193 casos de dengue, onde a região Sudeste apresentou o maior número em relação a todo o Brasil, cerca de 179.714 e 7.649 casos de sarampo.

Verena Liz, 22 anos e Douglas Araújo de 26 anos, foram vítimas de ambas doenças. Ela, apesar de ter tomado três doses da vacina: duas quando era bebê e outra criança,  contraiu o vírus do sarampo. Ele foi picado pelo Aedes Aegypti enquanto jogava bola. Os dois não desconfiaram das doenças, pois os sintomas aparentavam ser um resfriado.

Dengue

Em Brasília, foram registrados cerca de 47.745 casos da doença em três meses, segundo a Secretaria de Estado de Saúde (SES). De acordo com o Ministério da Saúde, o maior índice se dá em períodos chuvosos. Em nota, o órgão reitera a necessidade de evitar água parada porque os ovos do mosquito sobrevivem por um ano até encontrar as melhores condições para se desenvolver.

Juliana Silva Castro Diniz, 35 anos, contraiu dengue duas vezes. Na primeira, no condomínio onde morava em Vicente Pires e na segunda, estava no trabalho, no Setor de Oficinas do Guará 2. Segundo ela, em ambos os locais havia diversos focos do mosquito e teve bastante dor no corpo. 

“Houve um surto no condomínio. Tinham muitos focos dentro das obras. Tive muita dor no corpo e febre, fiquei internada por três dias”, disse a empresária.“As pessoas não levam a sério as notificações, enquanto não forem duras e doer o bolso, eles nada farão a respeito.”

Transmitida pela picada de um mosquito Aedes Aegypti infectado, a dengue é uma doença que causa dores pelo corpo e febre. O diagnóstico é confirmado com exames laboratoriais de sorologia, de biologia molecular e de isolamento viral ou confirmado com teste rápido.

A especialista

Danielle Grisolia, médica infectologista, afirma que não existe um tratamento específico para a dengue, mas pode evitar que a doença se agrave ainda mais. 

“Fazemos isso mantendo uma hidratação adequada e evitando medicamentos como os anti-inflamatórios e a aspirina, que podem favorecer sangramentos, já que a dengue é uma doença hemorrágica aguda. Esse é o ponto mais importante e capaz de evitar quadros graves e até o óbito”.

Quanto uma possível vacina contra a dengue, a médica afirma ter uma aprovada, mas ainda não obteve sucesso.

“A vacina não é capaz de evitar o adoecimento, mas sim diminuir a incidência de casos graves. Porém, em quem nunca tinha sido exposto a dengue, ela poderia induzir doença mais severa em vez de proteger. Por isso, só é indicada após realizarmos exames para saber se aquela pessoa já teve dengue alguma vez na vida.”

Sarampo

O Ministério da Saúde, segundo sua assessoria, confirma que nos últimos anos diminuiu o número de coberturas vacinais tanto na faixa etária de crianças, como de adultos, gerando surtos em vários locais. A concentração está em São Paulo, além da densidade populacional, é ponto de entrada no país, colaborando com a circulação do vírus e sua disseminação.

Com o surto no Brasil, Danielle Grisolia disse que, por ser uma doença esporádica, as pessoas não se conscientizaram do risco. “Devido a um eficaz programa de vacinação, houve uma expressiva redução dos casos.Por ter se tornado uma doença muito esporádica, a população perdeu a noção do risco de adoecer pelo sarampo e as coberturas vacinais foram caindo ao longo dos anos.”

A transmissão do sarampo se dá de forma direta por meio da fala, tosse e espirro. É uma doença viral, contagiosa e potencialmente grave com risco de sequelas permanentes: surdez, cegueira, além de pneumonia, infecções e a desnutrição. Os sintomas começam com febre acompanhada de tosse persistente, irritação nos olhos e corrimento no nariz, além das manchas avermelhadas na pele. 

Meire Cristina Lima, 35 anos, contraiu sarampo quando criança por volta dos 8 anos. Mas ela se lembra dos sintomas e diz que a manifestação da doença foi muito forte, uma mistura de febre alta, muita fadiga e manchas vermelhas por todo o corpo.

“Cheguei a pensar que fosse morrer, fiquei de cama durante uns 15 dias e para uma criança ficar assim é complicado, tive desnutrição e não conseguia me levantar da cama, além disso aquelas bolinhas vermelhas coçam e incomodavam o corpo todo. 

Meire acredita que não tomou a vacina tríplice viral porque foi criada no interior de Goiânia, o que dificultava o acesso.

Dificuldades

A chefe do Núcleo de Vigilância Imunológica do Núcleo Bandeirante-DF, Rosimeire Brandão, disse que se não há como comprovar que tomou a vacina ou não se lembra, vale passar pelo processo novamente. Ela afirmou que a situação da vacina atualmente no DF, está amplamente com estoque.  

“Há casos que, pela resposta imunológica, acabam não respondendo a vacina. Mas são situações difíceis de acontecer. A vacina está disponível o ano inteiro em qualquer posto de saúde, e a melhor forma de combatê-la é através da vacina.”

Para alertar a importância da vacinação contra o sarampo, o Ministério da Saúde lançou o Vacina Brasil, uma campanha para melhorar a cobertura vacinal principalmente de crianças. A 1ª etapa vai até 25 de outubro para crianças entre 6 meses e 4 anos e 29 dias. A 2ª etapa será de 18 a 30 de novembro, para pessoas entre 20 e 29 anos.