Crime da 113 Sul

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A arquiteta Adriana Villela, acusada de ser a mandante do assassinato de seus pais e da empregada da família, e seu advogado, Antônio Carlos de Almeida Castro, chegam ao Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Fotografia: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Brenda Abreu

Caso foi há 10 anos, mas ainda divide opiniões e mexe com emoções, como numa novela

Brasília parou para acompanhar o julgamento mais longo da capital federal, conhecido como Crime da 113 Sul. O processo foi seguido como uma novela: capítulo por capítulo, os noticiários locais e nacionais informando a cada decisão. Foram dez dias e mais de 100 horas de duração. A cidade se dividiu: os que acreditavam que a arquiteta, filha do casal morto, era culpada e os que defendiam sua inocência. 

A arquiteta Adriana Villela, de 55 anos, foi considerada culpada de ser a mandante do assassinato dos pais, o ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), José Guilherme Villela, a advogada Maria Villela e a empregada do casal, Francisca Nascimento Silva, mortos em 2009.

As vítimas foram esfaqueadas 73 vezes. Os corpos foram encontrados no apartamento do casal Villela, na quadra 113 Sul, em estado de decomposição. Segundo o Ministério Público, o crime foi uma forma de Adriana se vingar dos pais por desentendimentos financeiros. A empregada teria sido morta para evitar testemunhas.

Curiosos

O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) lotou de curiosos interessados em acompanhar de perto o julgamento. No dia do interrogatório de Adriana, 400 pessoas pegaram senha para tentar entrar no plenário, que já estava com suas 224 cadeiras lotadas.

Nas redes sociais, a interação envolveu discussões acalorados entre os defensores de Adriana e os que acreditavam que era culpada. No Facebook internautas pediam justiça e criticavam a demora para se dar a sentença, que veio dez anos após o crime.

Muitos optaram por seguir o desdobramento da Justiça pela imprensa, como o estudante Pedro Henrique Pietrobon, 22 anos, que ouviu cada etapa pelas rádios. “Estava dirigindo quando ouvi a notícia da sentença. O caso teve repercussão nacional e querendo ou não atrai a atenção de todos.” Para ele, a grande repercussão do julgamento se deu pelos escândalos envolvendo a primeira delegada do caso e uma das vítimas ser um ex-ministro do TSE. 

Ao vivo

Estudante de Direito, Elis Paulino Brito, 32 anos, preferiu acompanhar de perto o julgamento. Ele chegava antes mesmo do plenário do TJDFT ser aberto. “Foi muito emocionante, uma aula indescritível. Tive a oportunidade de conversar com advogados com muita experiência, que disseram que nunca vivenciaram um julgamento tão complexo.”

Para outro futuro advogado, Ricardo Aires, 24 anos, assistir a um Tribunal do Júri foi emocionante. “O júri é assim mesmo, um jogo, e vence quem convence melhor. Muitas contradições no depoimento influenciaram bastante a condenação.”

Decisão

A decisão foi do Tribunal do Júri, composto por sete jurados – quatro mulheres e três homens – sorteados para o caso. Adriana foi condenada a 67 anos e 6 meses de prisão pelo triplo homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, com crueldade e impossibilidade de defesa) e furto qualificado (em razão do concurso de pessoas), pois as vítimas já estavam mortas, senão seria latrocínio.

Dez anos após o crime, houve o julgamento. Adriana não foi presa, pois tem o direito de recorrer à sentença em liberdade. Mais um drama no julgamento que causou reações: a defesa da arquiteta alegou que o Tribunal decidiu pela condenação da ré “sem um fiapo de prova” e que houve erro do Judiciário. Para o Ministério Público, o resultado foi celebrado.

Julgamento

Durante dez dias foram ouvidas 24 testemunhas, das quais oito de acusação e 16 de defesa. Foi seguida uma ordem no julgamento: leitura das peças; depoimentos das testemunhas de acusação e, em seguida, da defesa; interrogatório da ré; debates entre promotoria e defesa; votação pelos jurados; leitura da sentença.

Os depoimentos foram extensos, como por exemplo, o de Adriana, que aconteceu no nono dia e durou cerca de oito horas. A ré foi interrogada pelo juiz que conduziu a audiência, pela defesa e jurados. Por orientação dos advogados, ela se recusou a responder perguntas do Ministério Público. 

Repercussão

O caso ganhou muita repercussão no início das investigações, conduzidas pela delegada Martha Vargas. Ela foi afastada por irregularidades na apuração, e ainda, por usar os conselhos de uma vidente para guiar o inquérito.

Em 2013, três homens foram condenados pelo triplo homicídio. Leonardo Campos Alves, ex-porteiro do prédio onde o casal morava, Paulo Cardoso Santana, sobrinho de Leonardo, e Francisco Mairlon Barros Aguiar. Juntas, as penas somam mais de 177 anos de prisão.

Emoção

Alguns momentos durante o julgamento desencadearam emoções, como a carta apresentada pela acusação, que causou tensão no julgamento. Escrita pela mãe de Adriana, Maria Villela, em setembro de 2006, expôs uma insatisfação com as atitudes da filha. 

“Estamos cansados dos seus destemperos. Se você sofre de agressividade compulsiva, procure um tratamento adequado, porque isso está lhe fazendo muito mal”, escreveu.

“Há alguma coisa errada com você. Quem se dirige dessa maneira aos pais, não merece ser tido como um filho”, afirmou.

A defesa da ré apresentou uma série e-mails trocados entre mãe e filha para rebater o entendimento de que Adriana tinha uma relação conturbada com os pais. “Que a alegria faça do seu coração a moradia, te amo querida”, disse Maria em um deles. “Comprei um presente lindo para meu pai. Espero que ele vá gostar”, escreveu a arquiteta em outro, citando seu pai, José Guilherme.

“A emoção é inexplicável”

“Foi fascinante acompanhar um acontecimento com tanta repercussão como foi o crime da 113 sul. Acompanhar um julgamento é muito difícil e cansativo, principalmente a nós jornalistas, que precisamos estar atentos a cada detalhe para compor a notícia. A experiência que tive nos bastidores fazendo a cobertura, com a tensão e emoção, é inexplicável, só vivendo mesmo”, disse Brenda Abreu, 21, estudante de jornalismo, estagiária na TV Record.