Arte drag queen: magia, cores e fantasia

5Hedy Tenório

Brasília é referência em nomes com estilo próprio e marca registrada

A arte drag desperta olhares, sobretudo, após a estreia norte-americana do reality show RuPaul’s Drag Race – que conta 10 anos de transmissão voltado para achar novas drags -, o universo cresceu ainda mais. Homens e mulheres artistas performáticos de diversas etnias e idades dão vida uma personagem feminina cômica com detalhes de exagero, glamour e muito profissionalismo.

Brasília é referência no país em diferentes estilos de drags, como Lee Brandão que representa pessoas com deficiência, Allice Bombom, que mistura a arte drag queen com clown (palhaçaria elaboradora) e a drag cantora Aretuza Lovi, que fechou parcerias com Pabllo Vittar, Gloria Groove, IZA e Solange Almeida. Porém, ingressar nessa arte até alcançar o profissionalismo envolve um longo percurso.

Dificuldades

Brasília já tem um grande celeiro de drags e muitas já estão conhecidas nacionalmente nessa arte, como Aretuza Lovi (já dito acima) e Pikinéia Minaj que é um forte nome na capital por ser hostess da Victoria Haus, uma das mais conhecidas casas noturnas LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, transgêneros, outros), tanto que já tem músicas e clipes bem populares na internet.

Em comum as drags cuja carreira está consolidada relatam as dificuldades pelas quais passaram. Como exemplo tem Brandon Lee de 25 anos que dá vida a Lee Brandão há 3 anos. Primeira drag queen PNE (Portador de Necessidades Especiais) do Brasil, a brasiliense é famosa pela extensa comunidade LGBT+ e eventos destinados somente para esse público. Lee já até pensou em desistir de ser drag, pois a arte pede muito e as dificuldades para manter são grandes.

Lee disse seus maiores obstáculos para chegar onde está a sua carreira: “Enfrentei primeiramente a mim mesmo, por ter me aceito como sou e tirar de mim a própria força para seguir com meus sonhos e planos. Depois tive que enfrentar o resto do mundo, com um certo tempo a opinião alheia não me influenciava mais.”

Ainda na infância, Lee foi diagnosticado com disostose cleidocraniana e esclerose lateral amiotrófica (ELA): “Eu encaro o fato de ser PNE e drag numa boa, hoje sei que posso ser um exemplo para muitos que tem vontade, mas não possuem coragem de enfrentar o preconceito. Sempre visando ser o melhor em todas as áreas da vida além do palco, e podemos nos fortalecer mais ainda quando somos notados pela moda, pelos estilistas e marcas”, completou a artista.

Precursora

Uma das primeiras drags de Brasília, Allice Bombom tem 25 anos na ativa. O ator que dá vida a ela, Alexandre Loiola não revela a idade, mas conta que a drag nasceu de uma construção que une a arte drag com o clown. Tanto é que Allice usa cores fortes, mas com retoques de exageros milimetricamente cuidados como os dos clown. O sobrenome veio da venda de bombons pela cidade, marca registrada de quem já conquistou um espaço na capital federal.

Alexandre disse que faz os desenhos das produções e paga caro para que alguém a confeccione. “Em alguns casos, customizo as peças prontas, deixando-as mais sofisticadas”, relatou. Uma das maiores dificuldades vistas pela veterana têm relação com a desinformação por parte das drags de que a arte tem um valor alto. “Algumas cobram cachês simbólicos e na maioria das vezes são a entrada do evento e um open água.”

Realização

João Victor de Oliveira, 26 anos, que há dois meses dá vida a IZIZ, escrito com todas as letras maiúsculas, disse que é apaixonado por teatro e performances, tanto que se formou em artes cênicas. “Sempre encarei a ideia que drag é um personagem que eu precisava ter como ator, porque é um ser que vive independente do roteiro, lida muito com o improviso e desafia a criatividade.”

Em seguida, o ator acrescenta que essa realização surge de sentimentos e pensamentos. “A IZIZ tem como qualidade todas as partes de mim que acho que preciso melhorar, sinto ela mais segura, sem medo do ridículo. E todas as mulheres fortes que admiro desde minha mãe até a personalidades pop como Madonna, Nina Simone.”

O processo de criação da IZIZ foi longo, João Victor não queria influência de outras drags, queria algo que fosse ele, que viesse de seus trejeitos. O nome IZIZ veio da deusa Ísis, da mitologia egípcia, onde o artista se identificou pelo fato da Ísis ter sido independente e não ter precisado de um outro rei ou deus para ser quem foi.

“Pensando nela sempre vem a ideia de olimpo ou de algo celestial”, acrescentou João Victor ao descrever a personalidade de sua drag. Durante o processo de se montar, João finalizou dizendo que as dores e eventuais incômodos desaparecem, pois ao se ver, algo mágico e libertador toma conta dele e do ambiente. “Materializo aquela frase: ‘você pode ser o que quiser’.”