Olha a Marmita!

 Com a crise econômica, aposentado se reinventa; clientes querem comer bem e barato

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Brenda Abreu

Em tempos de crise econômica, moradores do Distrito Federal buscam fórmulas para ganhar dinheiro enquanto os trabalhadores formais tentam economizar como podem. Mas há uma mercadoria que o trabalhador não pode abrir mão: a comida. No centro de Brasília, funcionários da região buscam alternativas “boas e baratas”.

Os vendedores de marmita ocupam lugares privilegiados aos olhos de quem transita pelo local: ficam nos arredores dos comércios para garantir o almoço de quem está em serviço por ali. As opções vão desde um cardápio variado com arroz, feijão, salada e um tipo de carne – bovina, frango ou de porco.

Os valores das marmitas são bem semelhantes, custam, em média de R$ 10 a R$ 15, a mais cara é a maior. O cardápio muda pouco e varia de acordo com os comerciantes, podendo incluir massa e legumes.

Pelos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 41,3% dos trabalhadores no país atuam “por conta própria”, o que representa 24,2 milhões de brasileiros. Neste grupo estão, entre outros, aposentados, pessoas que perderam o emprego e não conseguiram se recolocar, e ainda, quem viu na venda de comida como única oportunidade.

Marmiteiros

O aposentado José Pereira Vasconcelos, de 70 anos, sai todos os dias de Sobradinho para o Setor de Rádio e TV Sul vender suas marmitas. Ele recebe um salário mínimo de aposentadoria e usa esse dinheiro para pagar as prestações de seu carro, que usa para trabalho.

“Mesmo aposentado, não posso parar de trabalhar”. Apesar do aperto, José está satisfeito com o que faz. “Amo cozinhar, principalmente churrasco. Já até dei um curso sobre isso”, salientou.

A comerciante informal Fátima Costa, de 49 anos, vende marmitas há 10 e considera um ótimo negócio. “Não tem crise quando se trata de alimentação, mas só dá certo se tiver qualidade”, destacou. Ela disse vender cerca de 120 refeições por dia.

O ambulante Júnio de Carvalho, de 42 anos, chega às 7 horas,  no centro de Brasília  e estaciona seu trailer para ter as primeiras vendas do dia. Além de marmitas na hora do almoço, ele vende lanches no café da manhã e da tarde. “Tem que se adaptar a tudo.”

 

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Vantagens e desvantagens

 

Para o comerciante informal Júnio de Carvalho, de 42 anos, há vantagens em trabalhar por conta própria, como ter o horário flexível, satisfação pessoal e possibilidade de ganhar mais dinheiro. “Tem meses que eu consigo uma renda que não teria se trabalhasse formalmente vendendo refeições.”

 

Mas o comerciante disse que há, também, medos e incertezas. “Não tenho direitos trabalhistas como décimo terceiro ou férias, e também o lucro é variável, por isso preciso lidar muito bem com finanças.”

 

Sabendo dos riscos em abrir o próprio negócio, o ambulante disse que a melhor maneira de lidar com os problemas é analisá-los com cuidado. “É preciso assumir de forma calculada, para evitar apuros financeiros”, afirmou.

Preços

Aumentar os preços é sempre cogitado por Júnio de Carvalho, mas ele não leva a ideia adiante por conta dos clientes, que não aprovam. “Sempre fazemos uma pesquisa prévia.”

Na mesma situação, José Vasconcelos não sobe os preços pois pode prejudicar suas vendas, mas admite que o que tem recebido não é suficiente para sustentar sua família. “É um sacrifício. Sempre atrasando conta, esse mês parcelei meu cartão de crédito, e ainda tenho umas duas contas de luz atrasadas”, desabafou.

Para garantir as marmitas a um preço acessível, os comerciantes buscam promoções nos mercados. Fátima, por exemplo, disse que faz seus cardápios utilizando produtos de safra.

Mesmo em busca de mercadorias com valores mais baixos, a situação para “Seu Zé” ainda é complicada. “Às vezes o que pago de gasolina no deslocamento, quase não está compensando”, disse.

Clientes

O jornalista Flávio Moraes, de 40 anos, prefere a marmita pela comodidade e preço acessível. “Se for comprar comida no mercado para fazer em casa sai bem mais caro, apesar de que, seria bem mais saudável.”

A recepcionista Perla Modesto, de 42 anos, disse que a comida tem qualidade e preço. “A comida tem de estar nova, por isso compro marmita quase todos os dias.”

Como vigilante, Leonardo Costa, de 34 anos, não pode ausentar-se do serviço, daí a opção de comer bem e rápido. “Eu compro a marmita e almoço por aqui mesmo, sem precisar sair”.

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Crise econômica

 

A recessão que o país sofreu nos últimos anos tem como reflexo no aumento da informalidade, segundo o economista Alexandre Arci.  “Ainda não conseguimos sair da crise”, apontou. Ele disse que outra causa para a diminuição das contratações é a possibilidade das empresas utilizarem tecnologias, substituindo muitos postos de trabalho. “O mercado está desaquecido.”

 

Muitas vezes o empresário opta por não realocar a quantidade de funcionários que foram retirados de seu negócio durante um corte. “Daí surge uma grande lacuna e poucas vagas de emprego. Por isso, os desempregados acabam buscando o empreendedorismo e a informalidade.”