Infância roubada

A 6km da Praça dos Três Poderes, há crianças sem documentos, escola e saúde 

Fotos Alice Dias (6)

Luiz Fernando Fernandes

Na região central de Brasília concentram-se as decisões mais importantes do país. A pouco mais de 6 quilômetros da Praça dos Três Poderes onde estão o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal (STF) está a rodoviária do Plano Piloto, local onde vivem famílias com crianças em situação de rua, sem o glamour que cerca o poder. 

Os irmãos Pedro*, de 12 anos, e Mateus*, de 9, fazem parte desse grupo de pessoas que vive em situação precária no espaço central da capital federal. Caminhando da rodoviária à Esplanada dos Ministérios e mais um pouco na Praça dos Três Poderes, os irmãos sobrevivem vendendo balas e doces. 

Com o que obtêm, Pedro e Mateus  conseguem se alimentar e o que sobra vai para os pais. Segundo as crianças, o pai e a mãe usam o dinheiro para o consumo de drogas e álcool. Mas os irmãos não são uma situação isolada. 

Rodoviária

Na rodoviária do Plano Piloto vivem em torno de outras 15 crianças, com idades entre 4 até os 13 anos, que enfrentam o ambiente perigoso, falta de ensino e a responsabilidade de viverem por conta própria ou com pouco apoio dos pais. O número varia conforme a época do ano e os dias da semana.

Muitos adolescentes e crianças não tem certidão de nascimento ou qualquer outro documento que comprove sua identificação e parentesco, como é o caso dos irmãos Pedro e Mateus. Eles informaram à reportagem que os documentos se perderam durante a vivência nas ruas.

    Pedro, o mais velho dos irmãos, frequentou até o 2° ano do ensino fundamental e disse ter abandonado a escola quando os pais ficaram desempregados e foram morar na rua. Mateus, o mais novo, só viu uma escola pelo lado de fora. Apesar do pouco tempo em sala de aula, ambos sabem ler algumas palavras e escrever o próprio nome, fruto do esforço de Mateus em ensinar o que sabia para o seu irmão.

    “Sei ler um pouco e escrever o começo do meu nome. Sei que é Pedro* Silva, mas o resto minha mãe nunca me falou. Um homem já me disse que criança em situação de rua não tem nome.” (Usar como destaque)

Vida

    Mateus e Pedro, como as demais crianças que vivem ao lado deles,   desconhecem o significado da palavra “vacina”, quando perguntados sobre a carteirinha de vacinação, Pedro respondeu.  “Nunca ouvi falar disso”, disse o mais velho dos irmãos. Assim sem vacina, os irmãos tiveram, só no último ano, caxumba e catapora.

    Mesmo caminhando diariamente entre a rodoviária do Plano Piloto, a Esplanada dos Ministérios e a Praça dos Três Poderes, Pedro e Mateus não sabem responder qual a função dos políticos para o país, “Só sabem roubar e nunca ligam pra gente, às vezes consigo vender balinhas para eles [deputados federais e senadores], mas nunca olham pra mim”, respondeu Pedro. 

Questionado sobre o nome do presidente da República, Mateus não titubeou: “Acho que é Bossonoro”. Ao serem perguntados quem seria o governador de Brasília, ambos foram categóricos: “Não sei”.

Sonhos

Independentemente das dificuldades, os irmãos têm grandes sonhos para o futuro. Pedro disse que quer ser jogador de futebol enquanto apontava para o símbolo do Real Madrid em sua camisa, que mesmo rasgada e manchada, “é a minha favorita”, expressou o garoto com um sorriso no rosto. Mateus pensou mais na resposta. 

Após alguns segundos, Mateus disse que:  “Sempre quis ser policial ou bombeiro, mas acho que posso ser jornalista. Vocês se preocupam mais com a gente.”

Os meninos estão a dias sem contato do pai, a mãe, localizada pela reportagem do Artefato, aparentava estar sob efeito de drogas. Ao ser questionada sobre como a família encarava a situação de rua, levantou-se e foi embora fazendo sinais obscenos.

*Nomes alterados para preservação dos personagens

Pelo menos 3.000 pessoas vivem em situação de rua no DF

Os últimos dados sobre pessoas em situação de rua no Distrito Federal são de 2017, de acordo com Secretaria de Estado de Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedestmidh). Há cerca de 3.000 pessoas vivendo em situação de rua, em sua maioria na região central de Brasília. Não há informações oficiais sobre a quantidade de crianças na mesma situação, porém segundo dados extraoficiais, estima-se que em torno de 350 crianças estejam vivendo nas ruas da capital.

Ailta de Souza, professora do departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília (UnB),  Brasília é um dos principais pontos para concentração de crianças em situação de rua em busca por uma melhoria de vida.  “Muitas crianças acabam vindo com suas famílias para Brasília para buscar sair da situação de extrema pobreza, por causa da grande renda per capita da capital.”

Porém, a professora alertou que a frustração vence a expectativa. “Infelizmente é nítido que isso não funciona muito bem e a cidade acaba abrigando muitas famílias nessa situação em sua região central.”

Por meio de nota, a Sedestmidh informou que é dever da secretária auxiliar grupos sociais historicamente invisíveis na capital federal. “Cabe à Secretaria de Estado de Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos a elaboração e promoção de políticas públicas com o intuito de proteger a população em situação de vulnerabilidade e risco social. Visamos criar uma Brasília que saiba conviver, respeitar e incluir. ”