Esporte como futuro

No DF, projeto criado, sem fins lucrativos, tira crianças e adolescentes das ruas

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Isabella Carvalho

Os Jogos Pan-Americanos, os mundiais e os pré-olímpicos funcionam também como preparação para as Olimpíadas. No Pan deste ano, no Peru, muitos dos atletas brasileiros que lá estavam participaram de projetos sociais e começaram no esporte graças ao apoio que obtiveram apesar das dificuldades financeiras e limitações de toda espécie. Vários desses desportistas trouxeram na bagagem medalhas e as melhores colocações de suas vidas em uma competição internacional.

Neste ano, a delegação brasileira ficou na segunda colocação no quadro de medalhas. Foram 55 de ouro, 45 de prata e 71 de bronze. Com um total de 171 medalhas, o time  brasileiro contou com 485 atletas em 22 modalidades.

Rafaela Silva, campeã mundial, olímpica e agora pan-americana, na categoria até 57kg para mulheres, integra o projeto Reação, coordenado pelo judoca Flávio Canto.  Também na seleção feminina de judô, Maria Portela participou de um projeto social, chamado Mãos Dadas no interior do Rio Grande do Sul, em sua bagagem, ela conquistou sua terceira classificação para os jogos olímpicos.

Isaquias Queiroz, canoísta, primeiro medalhista olímpico da história da canoagem, tricampeão desembarcou no Pan-Americanos e conquistou a medalha de ouro.  Sua carreira começou por meio de um projeto Segundo Tempo do ministério dos Esportes em Ubaitaba (BA).

Heróis

O Distrito Federal tem o que comemorar também, pois da capital federal saíram campeões, que vieram de projetos sociais no esporte. Kawan Figueiredo trouxe a medalha de bronze nos saltos ornamentais ao lado de Isaac Nascimento. Eles conquistaram a medalha na categoria plataforma de 10m.

Nascido no Piauí, Kawan chegou a Brasília ainda criança.  Morador do Gama, a 34 quilômetros do Plano Piloto, ele deu seus primeiros saltos no Centro Olímpico e paraolímpico (COP) da cidade. Ali mesmo, passou por outras modalidades antes de iniciar os saltos ornamentais.

Em 2013, aos 11 anos de idade, Kawan descobriu por meio do projeto Futuro Campeão, da Secretaria de Esporte e Lazer o amor pelo esporte. “Para ser um bom atleta tem um preço a se pagar ou algo para abrir mão, sou um exemplo disso, o esporte me tirou desse mundo das drogas.  A modalidade que mudou a minha vida foi o salto ornamental, que me tornou um atleta profissional”, disse.

Jornadas

Elianay Pereira nasceu em Tocantins, mas aos quatro meses de vida chegou a Brasília.  O pai Adair Pereira, gari aposentado, treinou sua filha dos 3 aos 11 anos. Atualmente ela treina com a equipe Caso-DF em Sobradinho. “Eu vivo do esporte, tudo que tenho hoje é através dele, ganhei bolsas acadêmicas e finalizei duas graduações e uma pós. Também conheci mais de 28 países, é o que eu realmente eu gosto, é o meu trabalho.”

Para a atleta, o projeto social foi fundamental na sua vida. “Temos casos na equipe de crianças que sustentam a família, através do bolsa atleta. Percebo que a realidade social delas, é bem difícil, a maioria chega aos treinos com fome, elas acabam indo para se alimentar também. ”

Elianay ressaltou a responsabilidade de ser referência no clube e elogia a equipe. “As crianças criam uma admiração e acabam se espelhando, eu vejo como uma coisa bem positiva, com o esporte, se não vira um atleta profissional, ela vira um cidadão de bem, com disciplina e respeito.”

A atleta não trouxe medalhas, mas conseguiu atingir a quinta colocação que permitiu a classificação para o Campeonato Mundial em Doha, no catar, que será realizado no próximo mês, de 27 setembro a 6 de outubro.

Projeto Comunidade Esportiva Shalke- XII

A Comunidade Esportiva Shalke-XII,  é uma instituição sem fins lucrativos do setor  esportivo, foi fundada pelo educador social Farion Souza, em abril de 2008. O projeto se propõe a retirar crianças e jovens das ruas, oferecendo uma oportunidade por meio do esporte.

“São 11 anos de dedicação para crianças e jovens em estado de vulnerabilidade social. Nesse tempo os desafios são constantes, tais como: construção da confiabilidade junto à comunidade, consolidação do emprego com o trabalho social e apoio familiar”, disse Farion.

O idealizador do projeto sintetiza com emoção o trabalho. “Demonstramos que o pouco de coração, se transforma em muitas ações, o projeto se dá, primeiro pela disponibilidade dos envolvidos, vontade em fazer acontecer e o amor ao próximo.”