A dura vida dos estagiários

Excesso de atividades x perspectivas de futuro

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Carol Castro

Acordar já segurando o celular, passar o dia correndo para conseguir realizar várias atividades ao mesmo tempo e, quando chega a hora de se deitar, a cabeça ainda está a mil com as preocupações do dia. Estudar visando conseguir um bom emprego é a rotina de muitos jovens que visam iniciar suas carreiras nos programas de estágio.

Um levantamento feito pela agência paulista de pesquisa TNS Serviços de Mercado Limitada mostrou que os jovens veem como uma “obrigação de crescimento” somar experiências para compor o currículo profissional. No entanto, entrar para o mercado de trabalho não é uma tarefa fácil. 

A reportagem do Artefato verificou que apesar de a maioria assinar contrato para no máximo 30 horas semanais, algumas empresas praticamente dobram a jornada do estagiário, assim como as atividades propostas. 

Recordações

Luís Henrique Costa de Abreu, de 22 anos, formado em Publicidade e Propaganda, relembrou os dias de estagiário em que tinha que cumprir uma jornada superior a acordada. 

“Quando eu estava no 3º semestre da faculdade, consegui uma vaga para trabalhar com Marketing Digital, de segunda a sexta-feira, seis horas por dia”, afirmou Luís Henrique. 

O publicitário contou que se surpreendeu pouco depois. “Logo no início disseram que eu teria que começar todo o trabalho de identidade visual do zero. Também teria que trabalhar aos sábados e cobrir horas extras que não seriam remuneradas. Isso afetou minha saúde mental devido a toda a pressão acumulada. ”

Frustração

Luana Pinto Garcia Jacuru, de 22 anos, formada em Enfermagem, disse que sua experiência na área não foi animadora. “Alguns funcionários chegavam a passar a demanda de trabalho que eles tinham que cumprir para os estagiários e ganhavam o crédito pelo trabalho feito depois.”

A profissional desabafou: “Quando não íamos devido a algum feriado ou compromisso acadêmico, ultrapassavam nosso limite de horas semanais nos dias em que algum paciente precisava de cuidados constantes ou demandava mais tempo de observação”.

Nova cartilha sobre a lei do estágio

Pelos dados da “Nova cartilha esclarecedora sobre a lei do estágio, lei 11.788/08, de 25 de setembro de 2008 do Ministério do Trabalho e Emprego:

  • As atividades do estágio devem ser compatíveis com o projeto pedagógico do seu curso (§ 1º do art. 1º da Lei 11.788/2008).
  • Em dias de provas ou trabalhos específicos, a carga horária do estágio será reduzida à metade. A instituição de ensino deverá comunicar as datas de realização de avaliações escolares ou acadêmicas a empresa concedente do estágio com antecedência (§2º do art. 10 da Lei nº 11.788/2008).
  • Pela lei 11.788/08, o limite de carga horária é de 4 horas diárias (20 semanais) ou 6 horas diárias (30 semanais). 
  • Há hipótese de 40 horas semanais para cursos que envolvam teoria e prática, porém, somente nos períodos em que não houverem aulas presenciais. 

Quando o trabalho afeta a saúde 

Jovens que conciliam o trabalho com os estudos sofrem frequentemente com alterações de humor graças ao metabolismo afetado pela correria do dia a dia, o que pode levar a doenças neurológicas como enxaqueca, insônia e síndrome do pânico.

Um artigo publicado pela rede Unimed em abril de 2018 apontou que as chamadas “doenças ocupacionais” podem ser ocasionadas por diversos motivos, dependendo da função que o profissional exerce.

As mais frequentes são a Lesão por esforço Repetitivo (LER), causada pela repetição de uma mesma ação durante o dia, e os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT), comuns em trabalhadores que passam o dia em posturas inadequadas.

Também são verificados surdez definitiva ou temporária e sofrimentos psíquicos relacionados ao trabalho, como a depressão, ansiedade e o estresse excessivos. É frequente, ainda, a dermatite alérgica de contato, caracterizada por alterações na mucosa e pele da pessoa afetada devido a exposição a agentes nocivos quando a mesma está executando suas atribuições.

Em busca do aperfeiçoamento, vale o sacrifício

Concentrada nos estudos de pós-graduação, Luana destacou que durante o período de estágio se sentiu obrigada a aceitar as pressões e o clima pesado de certos locais onde trabalhou para que compusesse o currículo.

“A experiência que tive me incentivou a não querer me tornar o tipo de profissional que trabalha apenas pelo dinheiro, sem paixão. Por isso continuo me preparando para crescer cada vez mais.”

Lucas Laet da Cruz, de 24 anos, estudante do curso de Gestão de RH, se encontrou na profissão estagiando em um escritório na Ceilândia.

“Mesmo com todo o estresse que a gente passa, é muito gratificante chegar em casa e saber que fez a diferença na vida de alguém. Você começa a se sentir realmente profissional, o que é o que nós, universitários, queremos de verdade.”