Pátria Amada, Brasil

Do hino nacional à realidade, atletas aguardam apoio e efeitos da MP 846

Nathália Teles

O percurso para que um atleta alcance o alto rendimento começa na infância e passa por desafios e muito esforço, além da busca permanente por investimentos. Neste ano, houve ainda uma surpresa a mais: os recursos que eram destinados ao esporte, por ordem do presidente Michel Temer, passariam para a segurança pública.

A iniciativa estava na Medida Provisória (MP) 841 que define a retirada de recursos da Loteria Federal destinados à saúde, cultura, educação, assistência social e ao esporte, para redirecionar ao Fundo Nacional de Segurança Pública. Após a repercussão negativa, a regra que valeria a partir de 2019, foi revogada pelo Presidente, onde ele lançou a MP 846 que determina voltar com o valor arrecadado das Loterias para o Ministério do Esporte.

A decisão foi desaprovada pelos setores esportivos e amedronta os que defendem mais investimentos. O presidente da Federação Metropolitana de Judô (Femeju), Luiz Gonzaga Filho, a situação do esporte é muito crítica e os atletas sobre com o abandono do governo.

“Estamos passando por uma situação crítica no Brasil. O governo não quer manter, não dá apoio ao jovem e ao esporte que é o caminho de um grande país”, afirmou Luiz Gonzaga. “O presidente lança a MP841 querendo tirar investimento do esporte para poder investir em segurança pública, então, falar de apoio do governo, eles dão, mas é muito pouco.”

Em discurso no plenário do Senado, o senador e ex-jogador de futebol, Romário (PSB-RJ), condenou a gestão do esporte e a crise, além de alertar que a desordem compromete o futuro profissional dos jovens. “Tanta omissão levou o país a patinar na mesmice esportiva, no desperdício da verba pública e no comprometimento da carreira de nossos atletas.” Romário é candidato ao governo do Rio de Janeiro e o apoio ao esporte está entre suas plataformas políticas.

Apesar de o governo ter feito muitos investimentos no esporte devido às grandes competições que o país recebeu nos últimos anos, como a Copa do Mundo de Futebol e as Olimpíadas, o plano do governo não gerou lucro e nem beneficiou a população com o legado deixado por esses eventos, a infraestrutura esportiva.

“Quando estamos em épocas de grandes eventos há um investimento maior por parte do governo. Um exemplo são as Olimpíadas do Rio até um mês antes das estavam injetando [dinheiro] para ver se conseguimos formar campeões, mas depois das Olimpíadas o que aconteceu? Tiraram tudo. Está tudo sucateado. Os centros olímpicos, o Mané Garrincha, e acabou também o investimento. Como vai ser nossa olimpíada lá em Tóquio?”, desabafou o árbitro internacional e coordenador técnico da Femeju, Oswaldo.

Dura realidade

O árbitro internacional e coordenador técnico da Federação Metropolitana de Judô (Femeju), Oswaldo Navarro, disse que Brasília é um “grande celeiro de atletas”, mas o motivo da capital não ser referência no esporte é um dilema. De acordo com ele, muitos atletas deixam o DF em busca de condições melhores para se desenvolverem no esporte.

“Existe muito ‘patrocínio’, pais que patrocinam o filho, a gente não tem atletas com grandes patrocínios aqui em Brasília. Então, a gente faz os atletas nas categorias de base e eles vão embora, ou seja, a gente está exportando os nossos atletas para os outros clubes mais fortes, na qual consegue investir pra mandar esses garotos pra importantes competições ou até mesmo para seleção”, relatou o árbitro que acompanha atletas.

A judoca bicampeã sul-americana Isadora de Sousa Pereira, de 23 anos, é um exemplo do que ocorre em Brasília. Ela começou no esporte ainda criança por influência de sua família, ao longo dos anos começou a competir e tomou gosto pela coisa. Após bons resultados aqui em Brasília, a atleta recebeu um convite do clube mineiro, Minas Tênis Clube, e sem hesitar deixou a capital.

“O principal motivo que me fez sair de Brasília foi a questão financeira. Quando o atleta chega à um alto rendimento ele precisa de todo um preparo, com psicólogos, nutricionistas, academias, materiais, e é muito difícil esse tipo de investimento em Brasília. Lá [no Minas Tênis Clube] eu conseguia isso, de certa forma, tanto que cheguei a ser campeã pan-americana, sul-americana e quase fui disputar o mundial”, disse a judoca.

Questionada sobre o apoio do governo e as dificuldades enfrentadas, Isadora de Sousa Pereira acrescentou que:  “[Os programas do governo] são eficazes, eles não atendem uma demanda muito grande de atletas, mas os poucos que ele atende é uma dor de cabeça a menos para os atletas”, observou.

Destaque  

Nascida no Distrito Federal e de origem simples, Leila do Vôlei cujo nome de batismo é Leila Gomes de Barros, ex-jogadora da seleção brasileira de voleibol, atribui suas conquistas a esporte embora tenha sido obrigada a deixar a família muito cedo para se dedicar ao voleibol.

“Sou filha de um mecânico que cursou até a terceira série. Todas as oportunidades que tive na vida foram por meio do esporte. Na infância, eu praticava esporte nas escolas públicas onde estudei, em Taguatinga. Deixei minha casa em Brasília, aos 17 anos, atrás do sonho de me tornar atleta de ponta. Anos depois, entrei para a seleção brasileira, e ganhei duas medalhas olímpicas”, contou a ex-atleta olímpica que obteve o título de “Melhor Jogadora Brasileira de Voleibol de 2000”.

Durante sua carreira, Leila acumulou prêmios nacionais, internacionais e individuais. Em 2015, ela assumiu a Secretaria de Esporte e Lazer, onde ficou até abril de 2018. Segundo ela, enquanto exerceu função pública, defendeu a importância do esporte na sociedade.

“O esporte é muito maior que o alto rendimento. É formação do cidadão consciente dos seus direitos e deveres, sabendo respeitar as regras, a hierarquia, aprendendo a ganhar e a perder. Sem contar que contribui de forma direta com a educação, saúde e segurança. ”

Aspas da Atleta

O esporte na minha vida representa superação, principalmente. É uma coisa que eu amo o judô e realmente é uma coisa que tem que superar todos os dias. – Isadora de Sousa Pereira, judoca bicampeã sul-americana.