Afroeducação, disciplina para a vida

Professores no Gama se tornam referência no ensino, adotando artes e jogos   

Mariana Alves

Negro, morador da periferia e com orgulho de sua história, aos 16 anos, Hebert Dantas da Silva (foto abaixo) se coloca no mundo como mais um estudante que cresceu com a imagem estereotipada de que a África se resumia à escravidão. O estudo da memória afro-brasileira e africana é conteúdo obrigatório no currículo escolar brasileiro, mas na prática nem sempre está presente nas instituições escolares.

Porém, no Gama, cidade a 30 quilômetros do Plano Piloto, há professores que se esforçaram e conseguiram incluir com elementos lúdicos, como pesquisa histórica e artes, a disciplina como tema obrigatório no colégio público CEF 03 e colhem os resultados da dedicação. No entanto, a maioria dos estudantes ainda se queixa do esquecimento do tema.

Para Herbert, a ausência da disciplina em sala de aula leva ao agravamento de situações de racismo e preconceito. Segundo ele, a escola falha por conivência com um “passado opressor”. “Nossos antepassados não são escravos, há reis, sabe? Guerreiros”, reagiu.

Foto: Arquivo Pessoal
Hebert Dantas, estudante, beneficiou-se dos estudos da memória afro-brasileira e africana no Gama. (Foto: Arquivo Pessoal)

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 53% da população brasileira se considera preta ou parda. Em um ano sobe para 6%, o número de brasileiros que se declaram pretos. Essa amostra representa cerca de 17,8 milhões de pessoas, segundo o instituto.

Exemplo

Em uma escola tradicional da rede pública do Gama, os professores João Camargo e Valdeci Moreira usam os instrumentos das artes cênicas e do Teatro Negro como forma de resgate e valorização da memória afro brasileira nas escolas públicas do Gama.

Camargo, 38, professor e arte educador disse abrir diálogo em qualquer sala de aula é um desafio. “A nossa escola [no sistema atual] é racista. O crime é praticado praticamente todos os dias, mas existe um acordo nas escolas em que preferem abafar os casos, para evitar exposição. É aí que entra o professor de arte para levantar essa bandeira”, relatou.

Por meio de jogos e criação de cenas, João ajuda os alunos a buscarem suas próprias identidades. A prática lúdica parte muitas vezes das próprias vivências pessoais do estudantes.

O ensino da arte ainda disputa atenção com outras matérias consideradas de “maior” importância, para Camargo. “Os estigmas passam por nós desde a década de 1970, onde a arte começou ser caracterizada como matéria menor. Estudantes do Ensino Fundamental, em muitas escolas, não têm referência do que é arte, não tem referência do que é teatro, mesmo estando no Gama.”

Dados

Pelos dados da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) coletados entre 2011 e 2015, negras e negros correspondem a 57% para a população do Distrito Federal.

Herbert foi aluno de João Camargo,  em 2016 no CEF 03 do Gama. Segundo ele, as aulas eram dinâmicas, com variados movimentos que levaram ao desenvolvimento de cenas de teatro. De acordo com os professores, o método didático é baseado na exploração do conteúdo de história e cultura africana por meio de pesquisa, fotos, vídeos, espiritualidade, ancestralidade somado às experiências dos alunos, principalmente negras e negros.

“O João Camargo [professor] foi fundamental para que eu me descobrisse através da arte. O teatro é uma ferramenta pra eu contar minha história, é uma ferramenta pra eu me expressar como negro na sociedade”, relatou Herbert.

Foto: Ribamar Martins
O arte educador Valdeci Moreira defende a cultura como método pedagógico e filosófico. (foto: Ribamar Martins)

Resistência

Valdeci Moreira, 45, mestre em Teatro Comunitário e arte educador se diz desanimado com o ambiente hostil que a escola proporciona para falar sobre temáticas negras. “Ninguém quer falar, a verdade é essa. Ninguém quer levar um negro, levar um pai de santo vestido a caráter pra dentro da escola”, comenta.

Para Caio César, 35, professor de geografia e Pesquisador no campo das Masculinidades Negras, é importante colocar a afroeducação como protagonista da própria pedagogia.

“Acredito que trazendo ao centro do debate nossas vivências, nossas contribuições e nossos valores dentro de uma sociedade que, historicamente, nos nega isso. Mostrar que nós sempre tivemos papel ativo e positivo na construção deste país”, afirmou.