Acesso restrito

Deficientes esbarram em dificuldades para frequentar espaços culturais

Gustavo Elisson

Apesar de a Lei Brasileira de Inclusão (LBI) ter sido sancionada em 2015, a falta de acessibilidade ainda dificulta o acesso de pessoas com deficiência em vários espaços, inclusive culturais. Segundo o último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 45,6 milhões de Pessoas com Deficiência (PCDs). Só o Distrito Federal, reúne cerca 574 mil pessoas.

Tão alardeada como educação e integração, a cultura não pode ser desfrutada plenamente pelos deficientes.  Aqueles que têm dificuldade de locomoção reclamam da falta de infraestrutura adequada. Quem não escuta ou enxerga se queixa da ausência de audiodescrição e intérpretes.  

Surdo, o estudante Célio Ramos Marinho, 29 anos, contou que é comum ir ao cinema e não encontrar filmes nacionais legendados. Ele também reclamou da falta de intérpretes de libras em teatros e cinemas. “Eu não consigo entender algumas atrações. É como se estivessem fazendo mímica”.

Fiscalização

Para o diretor da Associação de Pais, Amigos e Pessoas com Deficiência (Apabb), Francisco Djalma Oliveira, falta fiscalização e cumprimento das leis. “É necessário fiscalização nesses espaços por parte dos órgãos públicos competentes para que seja cumprida a lei. E no caso do não cumprimento a aplicação das penalidades cabíveis”.

Segundo Oliveira, outro ponto é que entidades e conselhos de representação das pessoas com deficiência colaborem com o poder público. “A sociedade civil deve se apropriar dessas questões e cobrar uma aplicação mais rigorosa da lei para que não haja mais casos de descumprimento. ”

Casos

Surdocego desde os 4 anos, após um tumor no cérebro comprometer o ouvido direito e o nervo ótico, o auxiliar administrativo Seiti Kleffer, de 28 anos, conta que já deixou de frequentar alguns espaços culturais por conta da falta de acessibilidade. “Eu acabo não frequentando, às vezes, prefiro ter acesso a filmes em casa.”

Questionado sobre as dificuldades que encontra ao frequentar esses espaços, Seiti criticou a falta de audiodescrição e mobilidade. “Como a minha deficiência é visual, parte das dificuldades que eu tenho está relacionada à falta de audiodescrição.”

Como exemplo, Seiti Kleffer descreve que busca filmes dublados, mas há “coisas que acontecem nas cenas” que não dependem somente da fala dos personagens. “No teatro, muitos não fazem a descrição correta do que está acontecendo. Também tem o fato de alguns locais possuírem muitos obstáculos e escadas bem íngremes. ”

Cadeirante há 8 anos, o estudante de publicidade e propaganda Rodrigo Leão, contou que as dificuldades começam no estacionamento, pois não consegue sequer encontrar vagas nos espaços culturais. “Existem as pessoas que não respeitam e param na vaga de deficiente”, acrescentou o universitário, explicando que quando tem o assento específico, falta espaço para o acompanhante.

Exemplo

Para o ator e filho de pais surdos, Danilo Castro, existe uma preocupação por parte dos gestores de políticas culturais em colocar em seus editais que os projetos tenham acessibilidade, mas segundo ele, ainda são movimentos pontuais. “Alguns editais exigem que a produção tenha acessibilidade e outros não. É necessário que haja uma disponibilidade, sensibilidade e um olhar empático para essas novas demandas da sociedade”.

Em seguida, o ator acrescentou: “É preciso levar em consideração que não é barato colocar um intérprete de libras traduzindo todo um espetáculo, não é barato promover a audiodescrição ou confeccionar um folder em braile, mas a gente não pode se submeter ao aspecto econômico e esquecer do aspecto humanitário e da vida das pessoas”.

Para Castro, é fundamental mudar o quadro atual. “É nosso papel enquanto cidadãos cobrar que a cultura seja entendida como um direito, e um direito para todas as pessoas, inclusive aquelas que necessitam de auxílio para ter uma fruição em plenitude diante das obras e eventos públicos”, afirmou.

Inclusão

O Festival Internacional de Teatro de Brasília – Cena Contemporânea, deste ano em agosto e setembro, apresentou uma programação com iniciativas para inclusão de pessoas com deficiência na cultura com interpretação simultânea para a Língua Brasileira de Sinais (Libras), para surdos e a apresentação de uma peça teatral com audiodescrição, para deficientes visuais.

Como denunciar

Presenciou alguma situação de violação de direitos humanos relacionados à pessoa com deficiência? Disque 100 e denuncie.

O Disque Denúncia ou Disque 100 atende graves situações de violação que acabaram de ocorrer ou que ainda estão em curso, acionando os órgãos competentes, possibilitando o flagrante. O serviço funciona diariamente, 24 horas por dia, incluindo sábados, domingos e feriados. A ligação é gratuita.