Vacinar ou não, eis a questão

A taxa de imunização entre crianças com menos de 5 anos caiu no país

Flávia Brito

Ao mesmo tempo que o Brasil registra o retorno de doenças, como sarampo, poliomielite e malária, aumenta também a resistência à imunização por meio da vacinação. Lívia Medeiros, vendedora de 27 anos e mãe de Breno, de 3, resolveu não vacinar o filho. Decisão contrária tomou Cleide Silva, dona de casa, 25, que é favorável à vacinação e imunizou a filha Laura, de 2 anos.

Lívia e Cleide simbolizam comportamentos que se tornaram frequentes no país. Cresce o índice de pais que não vacinam os filhos por medo.

Em 2017, a taxa de vacinação caiu, com 85,2% das crianças vacinadas, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo especialistas, o ideal é 90% de imunização. Pelos dados do Ministério da Saúde, metade das crianças de 1 a 5 anos foram vacinadas ao longo deste ano.

O Programa Nacional de Imunização está em vigor no Brasil desde 1973. A erradicação de algumas doenças fez com que o brasileiro se esquecesse da gravidade dessas doenças e se descuidasse da vacinação, segundo especialistas.

No entanto, apenas a varíola foi extinta do Brasil. Doenças como sarampo, malária e poliomielite ainda não foram totalmente erradicadas. Foi o que ocorreu com o sarampo, tão contagioso que se dez pessoas estiverem infectadas, nove devem adoecer.

Tendência

Nas redes sociais, aumenta a quantidade de grupos em redes sociais contra a vacinação. É o caso da comunidade “O lado Obscuro das Vacinas”, do Facebook, que reúne mais de mil membros.

No grupo, as pessoas relatam os temores ao vacinar as crianças e se afirmam contra qualquer tipo de vacina. E alguns pais, defendem que seus filhos não precisam da proteção “artificial” da vacina.

O maior receio do grupo antivacina são os efeitos colaterais existentes. Alguns relatam sangue nas fezes dos bebês, vômito e fraqueza logo após a imunização.

Procurados pelo Artefato, os integrantes não quiseram se pronunciar a respeito da contrariedade as vacinas.

Oposição

Para Cleide Silva, o horário de funcionamento dos postos e a demora no atendimento dificultam a vida dos pais que trabalham. As unidades funcionam apenas de segunda à sexta em horário comercial.

Mesmo com essas dificuldades, a dona de casa nunca deixou de levar Laura, de 2 anos, para tomar suas vacinas. “É a forma de proteger e imunizá-la contra essas doenças que estão voltando”, contou.

São mais de 1.234 casos de sarampo confirmados no Brasil. Sete pessoas morreram nos últimos meses, dos quais quatro em Roraima e três no Amazonas.

Para a técnica de enfermagem Jurciclene Lima, a imunização é fundamental. “É importante vacinar as crianças, para que elas se previnam das infecções causadas pelas doenças”, afirmou.

Jurciclene Lima disse que ela nunca deixou de vacinar o filho Bruno. “Ele está com 13 anos e uma saúde perfeita, inclusive tomou a vacina de HPV nesse último mês”.

Na lista de doenças que aterrorizam por causa da ausência de vacina estão poliomielite, sarampo, malária e febre amarela. Todas têm sintomas, mas bem específicos, diante da suspeita, a recomendação é procurar postos de saúde e hospitais com a caderneta de vacinação em mãos.  Poliomielite e sarampo são enfermidades contagiosas por meio da saliva e fezes.

Revolta da vacina

Em 1904, o centro do Rio de Janeiro foi tomado por estudantes e rebelados que enfrentaram tropas do governo em um embate que deixou 30 mortos. O episódio, conhecido com Revolta da Vacina, foi uma reação à campanha de imunização obrigatória contra a varíola, coordenada pelo sanitarista Oswaldo Cruz. Na época, havia 1.800 infectados por varíola. Oswaldo Cruz enviou ao congresso um projeto para a obrigatoriedade da vacina, porém devido à grande manifestação com mortes e confrontos entre policiais e manifestantes, o governo desistiu do projeto. Anos depois, o Rio de Janeiro foi atingido por uma das maiores epidemias de varíola já vista, fazendo com que o povo recorresse à imunização.

A opção pela não imunização pode levar à morte, alerta especialista

A pediatra Ana Flávia de Cássia destacou que não vacinar as crianças pode levar ao retorno de algumas doenças. “As consequências da não vacinação vão desde mortes evitáveis pelo o ressurgimento de doenças antes ditas como erradicadas no Brasil. A vacinação é essencial para impedir a volta das enfermidades. ”

Atualmente no Brasil existe uma baixa imunização de adultos e muitos só se imunizam diante de campanhas, epidemias e surtos. Para o especialista em imunologia Antônio Macedo, há ausência de informações. “O principal motivo da diminuição vacinal é a falta de acesso em algumas regiões do país e informações erradas. ”



Onde vacinar e como



Sarampo

Dos 12 meses aos 5 anos incompletos

A primeira dose aos 12 meses (tríplice viral) e uma dose aos 15 meses (tetra viral).

Dos 5 aos 29 anos

Se não tiver recebido as duas doses, devem receber as duas com um mês de intervalo.

Pessoas de 30 a 49 anos

Devem tomar uma dose da vacina tríplice viral.


Poliomielite


Dos 2 aos 6 meses

A primeira dose aos 2 meses, uma dose aos 4 e uma dose aos 5 meses todas da VIP (Vacina Inativada Poliomielite).