No caminho da informalidade

Dos 316 mil desempregados no DF, 188 mil não têm benefícios nem garantias

Alessandra Miranda

Raissa Alves, 25 anos, busca emprego há mais de dois anos. O mesmo ocorre com Érika Miranda, 28, formada em administração. Ambas relatam desalento e falta de perspectiva. No país, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 12,9 milhões de pessoas encontram-se desempregadas.

O caminho para uns é a insistência pelo emprego com carteira assinada mas a  estimativa é que 22,9 milhões de trabalhadores brasileiros atuem na informalidade. No Distrito Federal, o cálculo é que sejam 316 mil pessoas desempregadas e 188 mil optaram pelo trabalho informal, segundo o Sistema Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED).

É o caso de Silvia Maria Fidelis da Costa, 41 anos, que se viu obrigada a trabalhar como autônoma após sua demissão do Ministério do Planejamento. Sem oportunidade de emprego e correndo risco de ser despejada de casa com três filhos pequenos e uma neta, decidiu que era hora de buscar alternativas.

Silvia Fidélis resolveu vender doces na Rodoviária do Plano Piloto, onde trabalha há cinco anos. “Entreguei muitos currículos durante o tempo que passei desempregada e não arrumei emprego, então a opção era vir trabalhar vendendo  doces. É melhor trabalhar aqui dignamente do que estar fazendo coisa errada.”

A ambulante disse que fala em seu nome, mas que muitos dos colegas pensam da mesma forma: “Para a polícia, a Agefis e o governo, não passamos de bandidos, vagabundos”, disse Silvia Fidélis.

Vagner Frederico funcionário da Agência de Fiscalização do Distrito Federal (Agefis), costuma atuar em conjunto com a  Polícia Militar. “Infelizmente sabemos que muitas pessoas estão aqui porque não tem outra opção, mas é preciso fiscalizar”.

Segundo o fiscal, em caso de confronto, agressão e desacato, é feita a apreensão da mercadoria e os produtos são levados para o depósito. Para a retirada, é preciso pagar multa que varia de R$1,040 a R$ 3.000.

Desafios

Determinada a conseguir um emprego com carteira assinada, Rayssa Alves disse que a pouca experiência e a falta de oportunidade são desafios. Mãe da Lívia de 5 anos, ela reclamou que as changes diminuem para quem tem filho. “A dificuldade e o preconceito são grandes, principalmente quando você vai a uma entrevista e te perguntam se você tem filhos. Se você fala que ‘sim’, perde sua vaga ou fica sem segundo plano sempre”.

Érika Miranda passa pela mesma situação. Dois anos após concluir o curso de administração, ainda tenta entrar no mercado de trabalho. “Eu fico um pouco chateada, a gente se forma e não consegue um emprego porque não tem ‘quem indique’ na sua área”, reagiu. “Também fazem exigências com curso disso e daquilo, especialista em alguma área. É difícil “.

Oportunidade

Logo depois de ser demitida da empresa em que trabalhou por dez anos, Vera Lúcia Carnaúba, 51 anos, iniciou a busca por um emprego de carteira assinada. Segundo ela foram  dez meses enviando currículos e à espera de respostas. A oportunidade surgiu quando Vera recorreu a conhecidos que pudessem ajudá-la. Ela conseguiu ser contratada como recepcionista em uma clínica de cardiologia.

“Foi um tempo muito difícil, no início não fiquei preocupada. Sempre tive facilidade em aprender o serviço, mas fiquei apreensiva com minha idade, por ter lugares com preconceito em relação a isso”, afirmou a recepcionista, detalhando que há restrições às pessoas consideradas “mais velhas”. Não disse a partir de que idade.

As habilidades ajudam na busca de emprego, diz especialista

A psicóloga Benedita Castro ressaltou que o processo de inserção no mercado de trabalho é o período em que a maioria das pessoas se tornam propensas a desenvolverem algum distúrbio emocional. Segundo ela, o importante é manter o foco e não desistir.

“Às vezes, é preciso repensar sua vida profissional, identificar pontos fortes, reconhecer suas habilidades e capacidades. Nessas circunstâncias, pode-se desenvolver habilidades que não se sabia, favorecendo as chances de retorno ao mercado de trabalho”, recomendou a especialista.

Pelos dados da PED, o mercado de trabalho ainda está  em crise, mesmo depois da superação da recessão econômica de 2015 e 2016. Em 2018, o desemprego foi maior entre mulheres de 16 e 24 anos e pessoas negras.

A coordenadora da pesquisa pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Adalgiza Lara, relatou que, no ano passado, o número de desempregados reduziu, mas a baixa confiança na economia, as incertezas na política e no mercado de trabalho fizeram muitas pessoas buscarem outras possibilidades.

“Essas pessoas precisam sobreviver e vão em busca do trabalho informal porque sabem que há consumo de seus produtos, sejam roupas, marmitas ou frutas. Quanto mais serviços elas oferecerem, maior o número de pessoas que trabalham por conta própria.”

Serviço

O site da Secretaria do Trabalho disponibiliza um espaço chamado “Agência Virtual” que facilita a vida de quem procura por emprego no DF. A plataforma permite a busca por vagas de emprego e o cadastro do seu currículo em terminais online.

Para se cadastrar é necessário o nome e o CPF do interessado. Através dos dados, o trabalhador tem acesso ao banco de vagas disponíveis do dia. Além da Agência Virtual, é possível fazer cadastro diretamente na agência do trabalhador de sua preferência.

Conselho

Para aqueles que buscam aprimoramento do currículo, a Escola do Trabalhador do Distrito Federal oferece 21 cursos profissionalizantes online gratuitos, com certificado eletrônico emitido pela Universidade de Brasília (UNB). Os cursos são gratuitos com um total de 40 horas.