Lixo é para ser cuidado

Reciclagem e coleta seletiva são os instrumentos para reduzir o acúmulo de detritos

Tuanny Carvalho

Cacos de vidros, restos de materiais industriais, entre outros tipos de lixo, próximos ao Centro de Referência de Assistência Social (Cras), a quadra de esportes, e a Escola Classe 01 do Riacho Fundo 2.  Terrenos abandonados em que há grande demanda de lixo em Ceilândia. No Setor Comercial Sul, o acúmulo da sujeira está a céu aberto, problemas que atraem baratas, ratos e até escorpiões.

A coleta de lixo é um desafio para os governantes diante das demandas e do aumento contínuo da quantidade produzida pelos moradores. De janeiro a julho deste ano, foram recolhidas 401.588.64 toneladas de lixo pelo Serviço de Limpeza Urbana (SLU) no Distrito Federal. Segundo especialistas, a falta de conscientização gera acúmulo de lixo nos centros urbanos.

Há, ainda, o problema da ausência de cuidado adequado com a decomposição dos resíduos que gera um líquido denominado “chorume”, tóxico que pode contaminar o solo, e piora no período de seca com os maus odores gerados pela degradação natural dos resíduos que é acelerada em função do aumento da temperatura.

Queixas

Denise Vieira, 42 anos, técnica de enfermagem, é moradora do Riacho Fundo 2 há 19 anos, tem um filho de 8 anos que estuda na Escola Classe 01, e usa a quadra para jogar bola. Recentemente, o filho cortou o pé em cacos de vidro enquanto jogava bola que estava na grama em volta do campo. “Como aqui é uma área de lazer, sempre tem muita gente então deveria haver mais limpeza por aqui.”

De acordo com o SLU, a coleta de lixo é feita diariamente e cabe aos moradores e estabelecimentos comerciais, organizá-los conforme os horários definidos. Pelos dados da SLU, os comerciantes que produzem acima 120 litros de resíduos não recicláveis são responsáveis pelo armazenamento do lixo nos contêineres, além da coleta e disposição final em aterro sanitário.

Rose Souza, 33 anos, trabalha como gari há 9. Ela reclamou que o preconceito com a profissão é presente e constante. “Muitas vezes a gente quer usar o banheiro e não pode. Até água é negada.”

A gari contou que é grande a demanda no  Plano Piloto, principalmente nas áreas próximas aos comércios. Segundo ela, a situação se agrava nas regiões em que há pessoas em situação de vulnerabilidade, vivendo nas ruas, pois sem locais para fazerem as necessidades, acabam transformando espaços públicos em banheiro.

 “É muito lixo pra pouco gari. As pessoas não têm educação, e em determinadas situações é constrangedor”, afirmou.  No entanto, Rose Souza disse que com o surgimento da coleta seletiva melhorou o recolhimento do lixo, pois há a “separação adequada do material”.

Desde 20 de janeiro de 2018, os resíduos não aproveitados para reciclagem e compostagem são destinados para o Aterro Sanitário de Brasília (ASB). A engenheira ambiental e mestre em engenharia civil pela Universidade de Brasília (UnB) Beatriz Barcelos faz um alerta aos terrenos abandonados que possuem lixos.

“É preciso retirar os resíduos despejados em locais inadequados e sem as devidas condições técnicas. Essas áreas que recebem o lixo de forma clandestina devem ser isoladas e fiscalizadas constantemente para que não seja feita mais nenhuma disposição, e a população precisa ser conscientizada de não dispor resíduos. Pois, isso não cabe só ao poder público”, afirmou Beatriz Barcelos.

Lei

No Brasil está em vigor há oito anos a Lei 12.305/10, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos para definir o manejo adequado dos resíduos sólidos. Por meio da análise em 1.721 municípios brasileiros, a região Sul foi a mais bem avaliada no Índice de Sustentabilidade de Limpeza Urbana (ISLU).

A lei, sancionada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva,  em 2010, tem o objetivo de pôr em prática o hábito de consumo sustentável , reaproveitamento de resíduos sólidos, e a destinação correta daquilo que não é utilizado.  

O Instituto Lixo Zero Brasil que se trata de uma organização sem fins lucrativos  trabalha em prol desta norma mobilizando a comunidade.

O diretor da instituição Kadmo Cortes, disse que é necessário informar mais a população. “È possível o uso do redsigner. Pois, há plásticos de shampoos que não dão para reaproveitar devido a fabricação.”

Foto: Lays Cristine
Antenor Vieira separa o lixo para a coleta seletiva. (Foto: Lays Cristine)

Coleta Seletiva

Aposentado, Antenor Vieira (foto acima), 52 anos, morador do Riacho Fundo 2, separa o material reciclável para a coleta seletiva feita pela cooperativa e elogia o trabalho. “É muito bom porque tá conscientizando à população a separar o lixo.” Os sacos de recicláveis devem ser entregues para a coleta seletiva nos dias e horários corretos.

Mário Uerles, 23 anos, é coletor da cooperativa Coopere que atua no Riacho Fundo 1 e 2, trabalha desde quando começou a coleta e teve que fazer o curso de capacitação do SLU. “O foco é recolher tudo aquilo que é reciclável. E o que não for ser jogado no aterro.”

A determinação do SLU é ampliar o serviço da coleta para 100% da região do Distrito Federal com a contratação de novas empresas de limpeza urbana, por meio da licitação que está em andamento.

No total, 11 cooperativas e 17 organizações contratadas governo do Distrito Federal prestam serviços para a coleta seletiva e a coleta de materiais recicláveis (papel, papelão, plástico, isopor, metal) que não devem ser misturados ao lixo comum das residências ou local de trabalho. Após o recolhimento dos materiais recicláveis, os sacos de lixo seguem para os galpões de triagem. Atualmente o Distrito Federal conta com cinco galpões espalhados pela região. Cada catador recebe em média 187 kg por dia de material reciclável provenientes da coleta feita pela empresa. Aproveitamento médio de 36%.

O serviço atende 52% das cidades do Distrito Federal, tais como Águas Claras, Candangolândia, Ceilândia, Cruzeiro, Guará, Itapoã, Lago Norte; Lago Sul, Paranoá; Park Way; Plano Piloto; Riacho Fundo I, Riacho Fundo II, e São Sebastião. Águas Claras, Ceilândia, Cruzeiro, Guará, Itapoã, Lago Norte; Lago Sul, Paranoá; Park Way; Plano Piloto; Riacho Fundo I, Riacho Fundo II, São Sebastião, SCIA/Estrutural, SAI, Sobradinho I, Sudoeste/Octogonal; Taguatinga, Varjão e Vicente Pires, são as demais regiões que passaram a ter o serviço este ano.