Criatividade, sem preconceito

Projeto incentiva a leitura de forma temática e atrai a atenção de distintos públicos

Poliana Fontenele

O preço de ser diferente. Este é o nome do livro o qual Giulia Pereira, de 27 anos, mais se identifica. Extremamente tímida desde pequena, Giulia sempre encontrou nos livros um lugar de refúgio, característica que permanece com ela até a vida adulta. Mas a partir do momento em que descobriu o projeto Clube do Livro, no ano de 2017, a jovem confessa que parou de ver o mundo como algo assustador e percebeu que era capaz de encontrar pessoas semelhantes a ela.

“Eu sempre fui uma pessoa muito reservada, não conseguia conversar com as pessoas. Só quando eu comecei a participar do Clube do Livro e vi a quantidade de gente disposta a compartilhar a paixão pela leitura comigo, que me senti à vontade para ser eu mesma”, disse.

Para Christine Carvalho, coordenadora do curso de pedagogia da Universidade Católica de Brasília (UCB), muitas pessoas buscam refúgio nos livros para fugirem dos problemas que possam enfrentar durante a vida, sejam eles pessoais ou familiares. Algumas vezes, essa fuga pode acabar se acomodando na companhia da leitura e desenvolver dificuldades de socialização com as demais pessoas.

Clube

O Clube do Livro do Distrito Federal, que tem menos de sete anos, reúne cerca de 200 membros frequentes. São crianças, adolescentes, jovens, adultos e famílias com um único objetivo: tornar a leitura em diversão. Christine Carvalho diz que projetos como o Clube do Livro podem ser não só grandes incentivadores da leitura, mas também um lugar de encontro de afinidades.

“O contato com outros leitores pode despertar esse interesse e desenvolver nos jovens habilidades e competências para lidar com os conhecimentos compartilhados, sejam de ordem linguística, sócio-cognitiva ou discursiva, e participar, de forma ativa, da construção dos sentidos para os textos”, disse Christine Carvalho.

As reuniões são marcadas via WhatsApp definidas, sempre, uma vez por mês a partir da escolha do livro. Porém, o clube é mais conhecido por seus eventos temáticos, em que os leitores vivem uma experiência realista das histórias.

Imersão

As atividades temáticas do Clube do Livro incluem duas sagas literárias internacionais: Harry Potter e Percy Jackson. A primeira, que conta a história de um menino que se descobre bruxo, tem o seu evento realizado anualmente, sempre em julho, chamado Mês Potter, que proporciona aos fãs um mês inteiro de imersão no mundo das poções e feitiços o qual os personagens dos livros vivem.

Vestidos a caráter, os participantes presenciam “aulas” de magia, aprendem a jogar Quadribol – esporte criado pela J.K. Rowling, autora do livro – e competem entre si pela Taça das Casas, tudo inspirado pelas histórias contadas nos livros.

A segunda saga, Percy Jackson, história baseada na mitologia grega de um garoto semideus (metade humano, metade deus), ganhou projetos recorrentes, como As Caçadoras de Ártemis.

Jogos

Nos livros, o grupo é composto apenas por garotas guerreiras e praticantes do arqueirismo, lideradas pela deusa da caça, Ártemis. No projeto do Clube do Livro, as meninas classificam o seu próprio grupo como um jogo de RPG live-action, ou seja, um jogo prático de interpretações de personagens.

Ana Brandão, 28 anos, é uma das caçadoras e conta que cada garota interpreta uma personagem e,durante os treinos, elas têm que assumir completamente os seus papéis. “Não podemos usar os nossos nomes reais e, por exemplo, a minha personagem é escocesa, eu criei ela por causa de outro livro que eu amo, ‘Outlander’, então quando eu estou com o grupo, eu tenho que falar sempre com um sotaque escocês”, disse.

Para os jogos, elas aprenderam a usar o arco e flecha e simulam missões de caça semelhantes às que acontecem nos livros.“É um projeto que faz você se sentir dentro daquele universo dos livros. É tudo o que eu queria quando era adolescente e não tinha”,disse Ana Brandão.

Inspiração em Harry Potter

Idealizado por Diego Batista, servidor público de 27 anos, um ávido amante da literatura, resolveu criar o Clube do Livro Distrito Federal, em 2011. A ideia surgiu após o fim da renomada saga Harry Potter, qual ele se inspirou e decidiu que grandes obras literárias jamais poderiam cair no esquecimento.

“Eu participava de um fã-clube de Harry Potter que encerraria as atividades após o final da saga. Mas eu queria mais, achava que poderíamos explorar outros universos e até mesmo continuar a falar de Harry Potter. Esse desejo me motivou a criar o Clube do Livro, um lugar para se discutir leituras de todos os gostos e fazer amigos”, disse Diego.

Com mil e uma ideias na cabeça, o jovem começou a divulgar o projeto em comunidades da antiga rede social Orkut e, aos poucos, foi conseguindo tornar o Clube do Livro no que ele é hoje.