Vencendo os limites com o esporte

Inclusão de deficientes auxilia na superação dos desafios e na socialização

Emanuelly Fernandes

Maria Eduarda Lima, 10 anos, ao ser questionada o que seria uma pessoa com deficiência, respondeu: “É uma pessoa que falta alguma coisa.”. Utilizando dessa definição infantil é possível afirmar que o esporte aproveita da sua capacidade de unir diferenças, para buscar preencher o que falta na pessoa com deficiência. Historicamente, o esporte tem conseguido mudar realidades inclusive de pessoas que vivem em condições de vulnerabilidade. Integrar as pessoas portadoras de alguma necessidade física ou intelectual nas práticas esportivas é fundamental no processo de inclusão social e reabilitação, segundo especialistas.

Inclusão e reabilitação são as palavras que definem a vida de Wendell Belarmino no esporte. O jovem, de 19 anos, nasceu com quase perda total da visão e com problemas respiratórios, e foi nas atividades físicas que encontrou uma qualidade de vida melhor.

Ainda na infância começou a fazer natação por recomendações médicas, a prática o ajudava a ter uma respiração melhor. Nas suas primeiras braçadas, Wendell tinha o objetivo de respirar com qualidade. Hoje ele nada rumo às Paralimpíadas de Tóquio, em 2020. Atleta de alto rendimento e membro da seleção brasileira de jovens, sua maior dificuldade na natação é entender corretamente os movimentos dos quatro estilos.

Números

Em agosto de 2015 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que 6,2% da população brasileira tem algum tipo de deficiência. A Pesquisa Nacional de Saúde analisou os principais tipos de deficiência: física, intelectual, visual e auditiva. A deficiência visual é a que está mais presente no país, com 3,6% dos brasileiros, na qual a maioria dos atingidos tem mais de 60 anos.

A pesquisa também mostra que 16% dos deficientes visuais do país, possuem uma perda total ou quase total da visão, o que impossibilita realizarem atividades básicas. O esporte fez do Wendell a exceção, e o tornou uma pessoa independente. Quando não está treinando, o jovem é aluno do curso de Ciências da Computação do Uniceub, além de seguir uma rotina comum a qualquer pessoa da sua idade.

Especialista

Nos últimos 38 anos, o professor de Educação Física Sérgio de Castro, 70, dedica-se a dar atenção às pessoas com deficiências e sua inclusão na sociedade. Especialista na educação física adaptada e educação especial, Castro também é presidente da Federação de Basquetebol para cadeirantes do Rio de janeiro e árbitro internacional da modalidade. Seu objetivo é garantir que se cumpra o artigo 5º da Constituição: de liberdade e igualdade para todos indistintamente. A realidade mostra que experiências básicas são negadas a pessoa com algum tipo de necessidade.

“As Paralímpiadas no Brasil trouxeram uma visibilidade maior para o esporte adaptado, principalmente, porque os atletas paralímpicos ganharam mais medalhas que os olímpicos. Mas ainda existe um longo caminho de conquistas. Uma das dificuldades é a má formação de profissionais da área”, avaliou o professor. No momento, Sérgio de Castro trabalha com um projeto destinado as pessoas portadoras da Síndrome de Down.

O esporte adaptado é a atividade física que se ajustando a redução de capacidade de uma pessoa em relação ao nível considerado normal. Segundo o professor Sérgio um dos principais objetivos é elevar a autoestima, mostrando para o deficiente que ele consegue fazer a mesma coisa que a sociedade considera como parâmetro normal.

A inclusão pelo tênis

A ex-tenista Cláudia Chabalgoity dona de quatro medalhas nos jogos pan-americanos e uma participação olímpica, é considerada uma das autoridades do tênis no país. Desde que deixou as quadras seu principal desafio é com os projetos sociais. Seu primeiro trabalho foi o Programa de Desenvolvimento do Tênis em Cadeira de Rodas que durou seis anos. Foi também a responsável pela realização do primeiro mundial de tênis em cadeira de rodas no Brasil, que aconteceu em Brasília em 2006.

Atualmente Chabalgoity é a coordenadora do ‘Projeto To no Jogo’, que foi criado em março de 2017, com a proposta de unir vários profissionais da saúde e oferecer um tênis integrativo para pessoas diagnosticadas com deficiência intelectual, Transtorno do Espectro Autista, Síndrome de Down e cadeirantes.

“A diferença desse projeto é que trabalhamos com terapias integrativas. Trabalhamos com atividades integradas. Ou seja, nós fazemos com que eles trabalhem integralmente, o que significa trabalhar o corpo a parte técnica e a psicológica.”, disse Cláudia. Em 2017 o projeto atendeu 20 pessoas, entre adultos e crianças, que foram encaminhados pela APAE. Em 2018 já são 20 alunos e dessa vez vindos da Pestalozzi. Uma das metas para esse ano é aumentar esse número para 50 e incluir os cadeirantes.

Apesar de ter surgido com o tênis, o ‘Projeto To no Jogo” já enxerga a importância de abrir para a entrada de outras modalidades, como o futebol, a natação, a capoeira e a bocha. O crescimento do projeto passa pela necessidade de parcerias financeiras, que no momento conta apenas com o BRB.

SERVIÇO:

Projeto Tô no Jogo

Terça e quarta – 9h30 às 11h

Local: ASSEFE – Setor de Clubes Sul, Trecho 1, Conjunto 1, Lote 7, Brasília – DF

FOTO: Acerto Pessoal