Religião, sem discriminação e com respeito

Fieis de distintos credos reclamam do desrespeito no país e apelam por tolerância   

André Rocha

O princípio que rege a religião é o do respeito à crença. Imaginar o preconceito envolvendo o tema é o mesmo que contrariar seu sentido maior, demonstrar desconhecimento da história e intolerância absoluta ao diferente. Algo impensável no Brasil que, segundo pesquisa do Instituto Datafolha de 2016, indica um país essencialmente religioso e multifacetado: metade (50%) dos entrevistados se declarou católico, 14% sem religião, 2% de espíritas, kardecistas e espiritualistas, 1% de umbandistas, 1% de praticantes do candomblé, 1% de ateus e 2% de outras religiões. Considerando os três maiores grupos: católicos, evangélicos e as religiões de matriz africana (umbanda e candomblé) todos se queixam do preconceito e estereótipos. O Artefato pediu que fiéis dos três segmentos religiosos se posicionassem sobre o que sentem em relação à discriminação e restrições.

Assumindo preconceitos, praticando o respeito

O preconceito parece habitar todos os seres humanos, não há ninguém que escape deste mau, em maior ou menor escala. Não existe “preconceito bom”, e por isso devemos tentar excluí-lo de nosso cotidiano continuamente, embora seja uma tarefa árdua.

As diferenças existentes em nossa sociedade ganham cada vez mais novas perspectivas de afirmações religiosas, políticas, de gênero e sexualidade, e, com isso, ao mesmo tempo cresce o desprezo, a violência, a invisibilidade e outras formas preconceituosas ou discriminatórias que se projetam contrárias às diferenças inscritas na pluralidade. Estas exclusões podem se manifestar por formas tradicionais ideológicas, políticas, passivas ou até mesmo pela ignorância ou ingenuidade.

É comum ouvir dizer que ninguém nasce com preconceitos, entretanto, já nasce em esferas preconceituosas. Em muitos casos, uma criança já é negada em determinados ambientes mesmo antes de nascer, como é o caso dos bebês do sexo feminino. É complicado ser vítima de discriminação preconceituosa, como também é complexo lutar para desestabilizar um sistema tão pungente e permanente em muitas sociedades.

Reconhecer que a discriminação existe já é uma maneira de combatê-la. Foi assim que muitas sociedades, inclusive o Brasil, intervieram na redução de desigualdades raciais, por meio de políticas afirmativas para as populações negras vítimas do preconceito histórico. Em contrapartida, elevou-se o preconceito quando foi colocado publicamente uma política de cotas nas universidades federais, por exemplo. Mas por outro lado, a ideia também foi compreendida por muitas pessoas.

No nosso cotidiano, em busca de novos horizontes (im) possíveis, aqueles que reconhecem tantas injustiças perpetradas dentro e em volta de nós mesmos, tentam investir em uma práxis que nos leve a um mundo mais agregado socialmente, sabendo respeitar as diferenças mesmo quando ela não nos agrada.

Penso que praticar o respeito ainda seja o melhor remédio para eliminar preconceitos. É preciso, mais do que nunca, que não nos deixemos levar por instâncias estabelecidas de controles ideológicos, mesmo que estes apresentem ideias inovadoras (em que muitas vezes acabam por se tornar uma grande armadilha, facultando a existência de novos preconceitos).

Não precisamos nos desfazer de amizades porque partem de diferenças políticas, por exemplo. O melhor é sempre tentar se comunicar e debater. Devemos acreditar na força da palavra. Práticas ideológicas, políticas, religiosas ou qualquer outra forma que inferiorizam o outro em qualquer possibilidade devem ser combatidas, mas sempre com temperança, pois, neste caso, não adianta sanar uma enfermidade com o seu próprio veneno.

*Doutorando Alan Santos de Oliveira, professor da UCB.

Sou evangélico, respeitem minha escolha

O crescimento dos evangélicos no Brasil continua intenso. Há templos para os mais distintos segmentos da fé – desde os mais tradicionais que seguem costumes, como mulheres não usarem calça comprida até os liberais em que as regras são mais flexíveis. Observo que as igrejas evangélicas têm contribuído para sociedade com diversos projetos sociais criados por fiéis e lideranças, como o apoio a famílias desassistidas pelas instituições públicas, populações de rua e dependentes químicos.

Lamento que, muitas vezes os ensinamentos cristãos são distorcidos e usados com má fé: os olhos políticos cresceram sobre os evangélicos na busca por votos e apoio ainda mais em ano eleitoral. O que se constata é o julgamento que se faz dos evangélicos é de serem fanáticos e que se aproveitam da falta de sorte alheia e da ignorância para aumentar suas rendas e lucros.

É preciso fazer uma distinção dos ditos pastores, mercenários, e não estereotipar os fiéis às vezes ridicularizados por sua forma de servir e seguir sua trajetória de fé.  Há uma rejeição em relação aos evangélicos taxados como loucos ou até alienados. A fé evangélica tem a Bíblia como inspiração e direcionamento, mas nem sempre o que está lá agrada a todos.

Lembro que o artigo 1º da Lei nº 7.716/89 prevê punição aos crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião. Assim, como evangélico, afirmo: tenho orgulho da minha fé, respeito as demais, e peço, por favor, que guardem as críticas e juízos de valor para si. A liberdade inclui a escolha de religião.

*Lukas Soares, aluno do 7º semestre de Jornalismo na UCB

As faces da intolerância dentro da Igreja

Todo católico em algum momento da vida já escutou que é idólatra por possuir imagens de santos. Também já ouviu comentários ou piadas sobre padres pedófilos. De Pedro a Francisco, a Igreja de Roma se consolidou como a maior religião cristã do mundo, o que não impediu que também sofresse de atos de intolerância religiosa. É em nome da liberdade de expressão que a fé segue sofrendo ataques. Não são poucas nem raras essas situações, em seis anos pelos menos quatro episódios se tornaram emblemáticos.

Em 2011, a Parada Gay de São Paulo usou cartazes com imagens de santos para uma campanha pelo uso de preservativos. No Natal de 2014, uma ativista do Femem, grupo feminista fundado na Ucrânia, seminua tentou tirar a imagem do menino Jesus do presépio do Vaticano, a ação se repetiu em 2017.

Apesar dos vários casos de intolerância com a fé católica, há, ainda, os ataques internos envolvendo membros da própria Igreja. Com o Concílio Vaticano II, iniciado na década de 1960, novos grupos começaram a surgir, criando assim uma divisão nos muros do Vaticano. O lado tradicionalista que acusa os novos movimentos de esquecerem a liturgia e a unidade.

Dentre os novos grupos, o mais famoso deles é a Renovação Carismática Católica, criada em 1967 nos Estados Unidos, os membros da RCC são acusados de desvirtuar a verdade católica. Em 2014, durante um encontro da Renovação Carismática na Itália, o Papa Francisco assumiu que por um tempo não via o movimento com bons olhos.

“Nos primeiros anos da Renovação Carismática, em Buenos Aires, eu não gostava muito dos carismáticos. E disse-lhes: ‘Eles se parecem com uma escola de samba’”, afirmou o Santo Papa. Francisco enfatizou que só mudou de opinião, quando se permitiu conhecer a forma de rezar dos carismáticos.

Ao assumir que também possuía um preconceito, o Papa Francisco mostra que o conhecimento e o diálogo são os caminhos para a mudança. E o melhor é a criação de pontes e derrubada dos muros.

*Emanuelly Fernandes, aluna do 6º semestre de Jornalismo da UCB.

FOTO: Internet