O preconceito vem de casa?

Especialistas afirmam que a família colabora para a construção de opiniões dos filhos

Matheus Dantas

Na infância, Rebeca Borges, 21 anos, estudante de Comunicação Social da Universidade de Brasília (UnB), ouviu comentários pejorativos sobre o cabelo crespo e natural. As “brincadeiras” vinham da rua e da família. “Quando eu era criança, ficavam brincando e falando  que meu cabelo era ruim, duro e feio”, contou ela, que com a maturidade, observou que os comentários estavam carregados de preconceito.

“O preconceito racial sempre foi uma coisa muito presente na minha vida. Porém, só fui entender e perceber que isso acontecia depois de mais velha. Hoje enxergo que muitos  preconceitos são provocados pela desinformação e gerando um ciclo”, observou Rebeca Borges.

A análise da universitária é confirmada pela doutora em Educação, a psicóloga Helen Lima que está convencida que o preconceito é construído pela sociedade e transmitido culturalmente. Daí a responsabilidade dos pais e da família em formar crianças e futuros adultos livres de discriminação e idéias pré-concebidas.Para a especialista, pequenas atitudes dos pais são capazes de fazer despertar um tipo de preconceito.

“As crianças nascem desprovida dessa cognição, ela não sabe o que é preconceito, ela não entende essa hierarquização que fazemos por classe, gênero e etnia, só que com o tempo ela vai interiorizando tudo isso, porque nós sinalizamos isso para ela”, afirmou a psicóloga.

Helen Lima acrescentou ainda que essas “transmissões” de mensagens de preconceito poidem ocorrer nos mínimos detalhes. “O posicionamento de uma religião, as vestes que você usa, sua cultura, comportamento e costumes, tudo influencia, muita coisa é subliminar, mas que com o tempo o intelecto da criança passa a compreender”, disse.

Para a estudante de Direito, Nathália Silva, 21 anos, a internet corrobora para acentuar preconceitos e não desconstruir o negativo. “O preconceito é algo que está enraizado em nossa sociedade e não há um culpado específico e sim um conjunto de coisas que contribuíram para que as pessoas criassem pré-julgamentos sobre aquilo que é diferente. A internet deu voz e liberdade para as pessoas exporem seus preconceitos”, disse ela

A professora e pedagoga Rosalina Rodrigues afirmou que há muitos preconceitos ainda  enraizados nas famílias. “Quando o pai recrimina o local onde o coleguinha do filho dele mora, por exemplo, e também com referências indiretas sobre homossexualidade, na cor da roupa que ele usa. Todos esses preconceitos não são gerados de um dia para outro, eles vêm de anos, vem da educação que eles tiveram, e por mais que a sociedade tenha evoluído, ainda há muitos casos assim, devido a esses princípios que permanecem nas famílias”, disse.

O administrador José Wellington, 35 anos, recomenda a busca por informações para desfazer preconceitos e viver melhor. “O convívio com a família influencia, a religião, o papo com os amigos. E tem uma coisa que eu percebo muito em nós brasileiros, somos facilmente influenciados, sem sequer pesquisar e procurar se informar sobre o assunto”, afirmou.


Ajuda

Denúncias

O Distrito Federal conta com disque-denúncia específico para crimes de racismo, o 124, no qual o denunciante pode prestar queixa.

Também é possível prestar queixa nas delegacias comuns, registrando a ocorrência, sendo redirecionada para os autos da justiça.

No caso de atos ocorridos em sites de internet ou redes sociais, é possível comunicar as autoridades diretamente pela rede.

Endereços para o envio de denúncias:

http://denuncia.pf.gov.br/

http://new.safernet.org.br/denuncie

http://cidadao.mpf.mp.br/

Tratamento psicológico

Instituições de ensino oferecem tratamento gratuito psicológico para moradores do DF

Universidade Católica de Brasília

3356-9328

Universidade de Brasília

3107-9102

IESB Ceilândia

3962-4748

Unip

2192-7017

UniCeub

R$ 20 (mensal)

3966-1626


A dramaturgia aliada a realidade

Lançado em dezembro de 2017, o filme O Extraordinário emocionou platéias no Brasil e no exterior. O longa-metragem aborda a capacidade de aceitação e compreensão ao próximo, contando a história de Auggie Pullman (Jacob Tremblay), um garoto que nasceu com síndrome de Treacher Collins, uma doença rara que causa deformidade facial.

Ao ingressar na escola, Auggie é vítima constante de preconceito de outras crianças, principalmente de Julian Albans (Bryce Gheisar), de 10 anos. Em um determinado momento do filme, os pais de Julian são convocados para uma reunião com o diretor Mr. Tushman (Mandy Patinkin), e o diálogo surpreende.

Ao questionar o porquê Julian tem tanto preconceito com Auggie, descobre-se que os pais da criança são os principais influenciadores destes pensamentos, propondo uma reflexão aos espectadores: será que muitos preconceitos são ensinados em casa?

Para a coordenadora pedagógica Liliana Marques, muitas vezes os pais não se dão conta dos fatos, e pensam que o filho do outro é o responsável pelo ocorrido, e que ele é a vítima.

“Em 15 anos como coordenadora pedagógica em escolas, já presenciei casos que os pais ficam do lado filho, mesmo estando errado, dizendo que não é culpa dele, que o filho dele não fez isso, que ele foi influenciado pelo outro que mora na favela, em local perigoso com criminalidade, que é diferente dele, que o filho é vítima. Demonstrando um claro preconceito direto e indireto com suas atitudes”, revelou Liliana Marques.

Orientações para uma educação sem preconceitos

  • Educação sem preconceitos são ensinamentos que promovem o respeito, amor e valorização às diferenças
  • Saber trabalhar desde o início da formação da criança a diversidade cultural, racial e de classes sociais. Para isso existem filmes, documentários e livros.
  • Promover uma imersão da criança ou até do adulto a outras culturas, realidades e condições sociais. Tais desconfortos fazem com que nós venhamos a nos colocar no lugar do outro
  • Manter um diálogo aberto com o filho, sempre perguntar e debater opiniões e posicionamentos.

Promoção de discussões sobre a diversidade e educação de gênero