Liberdade para amar e viver

Rejeitado pela família, LGBTQ+ do DF ganharão casa de passagem e apoio 

Verônica Nunes de Holanda

O preconceito contra a população LGBTQ+ no Brasil provoca assassinatos, bullying, exclusão do mercado de trabalho e também de escolas e instituições de ensino superior, assim como da vida social, inclusive familiar. Em um cenário tão hostil às diferenças, muitos enfrentam situações de grande vulnerabilidade ou, por medo, escondem sua orientação ou seu gênero até se sentirem seguros o suficiente para assumirem-se publicamente.

De acordo com dados da TransgenderEurope, o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo, chegando a 868 entre 2008 e junho de 2016, o que corresponde a quase 40% dos registros mundiais. Além disso, um estudo da American Foundation for Suicide Prevention determina que 41% das pessoas trans já tentaram suicídio.

O mesmo estudo mostra também que 58% dos jovens transgêneros que não contavam com apoio da família tiravam a própria vida, e que esse valor é reduzido a 4% quando há aceitação familiar.

Inovações      

Projetos como a Casa Rosa no Distrito Federal, criada por Marcos Tavares, são ferramentas fundamentais para a sobrevivência e o bem-estar tanto da comunidade trans como de outras pessoas LGBTQ+, principalmente quando são expulsos de casa pela própria família.

A iniciativa visa a reinserção social integral por meio do abrigo temporário, atendimento psicológico e oferta de atividades de integração profissional, como oficinas de panificação, artesanato, maquiagem, dentre outras.

Marcos Tavares afirmou que o projeto ainda está em construção e após as obras, será necessário mobiliar e firmar parcerias com colaboradores para manter a casa e gerar oportunidades profissionais para a comunidade LGBTQ+.

“Muitas pessoas já nos procuram, a maioria porque não tem onde ficar. Conseguimos encaminhamento psicológico para alguns, já que temos uma rede de estudantes voluntários que dão um apoio. São anjos de Deus”, observou Marcos Tavares, que informou que o local será uma casa de passagem para que as pessoas se recuperem mental, física e economicamente e permaneçam até estarem em condições de se manter por conta própria.

Apoio

A Casa Rosa poderá ajudar pessoas como Henrique Sousa*, de 18 anos, bissexual, e que mora com os pais para quem não revelou sua condição sexual. “Eu sei que minha mãe me aceitaria, mas tenho medo que meu pai me expulse de casa”, relatou o jovem. “Uma vez alguns colegas tentaram me obrigar a me assumir para meus pais, inventaram um boato que chegou ao meu pai de que eu estaria namorando um rapaz. Meu pai pareceu furioso, tive sorte de conseguir convencê-lo de que era mentira lembrando de meninas com quem já namorei.”

Com o sonho de cursar graduação de geografia, Henrique Sousa conta que está trabalhando e juntando dinheiro. “Eu quero ser professor, desde criança, mesmo sabendo que seguir a profissão sendo bissexual seria um desafio por conta do preconceito, ainda mais se eu estiver me relacionando com um homem”, disse ele. “Eu quero ser honesto e me assumir para meus pais, mas não quero ficar sem teto”, acrescentou.

Responsável pela Casa Rosa, Marcos Tavares conta que, inicialmente, o local terá capacidade de receber 30 pessoas que, sem ela, não teriam para onde ir. “Já conseguimos boa parte do material para finalizar a construção. O que falta mesmo é a questão financeira e mão de obra”, disse. “Vim de família simples e me mantenho como uma pessoa simples. Mas a educação que meus pais me deram, o amor e carinho, isso foi muito rico. Aprendi a retribuir o amor e o carinho e a ver sempre o lado bom da vida.”

*O nome do personagem foi trocado a pedido dele por preservação pessoal.

Serviço:

Para saber como ajudar a Casa Rosa, acesse a página da instituição pelo link www.facebook.com/casarosalgbtq/ ou entre em contato com Marcos Tavares pelo número 99220-3745.

Expressões do universo LGBT+

Andrógino: Termo usado para descrever um indivíduo cuja expressão e/ou identidade de gênero não pode ser distintamente “feminino” ou “masculino”.

Arromântico: Uma orientação caracterizada por pouca ou nenhuma atração romântica.

Demirromântico: Pouca ou nenhuma capacidade de experimentar atração romântica até que uma forte conexão sexual ou emocional seja formada com outro indivíduo, muitas vezes dentro de um relacionamento sexual.

Assexual: Uma orientação caracterizada por pouca ou nenhuma atração sexual. A assexualidade é distinta do celibato, que é a abstenção voluntária da atividade sexual.

Demissexual: Descreve quem tem pouca ou nenhuma capacidade de experimentar atração sexual.

Agênero: Uma pessoa com pouca ou nenhuma conexão com o sistema tradicional de gênero, sem alinhamento pessoal com os conceitos de homem ou mulher e/ou alguém que se vê como existente sem gênero.

Bi: Um indivíduo que é sexual ou românticamente atraído por homens e mulheres. Não precisam, necessariamente, ter alguma experiência sexual para se identificar como bis.

Cisgênero: Um termo usado para descrever pessoas que se identificam com o gênero que foram atribuídas no nascimento.

Gênero-fluido: É uma identidade de gênero caracterizada por uma mistura dinâmica de homem e mulher. Uma pessoa que é gênero-fluido pode sempre sentir-se como uma mistura dos dois gêneros tradicionais.

Pan: Orientação sexual ou romântica não limitada em ao sexo biológico, gênero ou identidade de gênero.

Queer: Tradicionalmente um termo pejorativo, queer foi apropriado por algumas pessoas LGBT para se descreverem. É usado para descrever pessoas que não se identificam com categorias tradicionais em torno da identidade de gênero e orientação. Não é bem aceito, mesmo dentro da comunidade LGBT, e deve ser evitado a menos que alguém se auto-identifique dessa maneira.

Transgênero: Um termo abrangente para pessoas cuja identidade de gênero e/ou expressão de gênero difere do sexo que foram atribuídos no nascimento. Podem ou não decidir alterar seus corpos de forma hormonal e/ou cirúrgica. Não confundir com travestis.

Travesti: Pessoa que se veste como a expressão de gênero do oposto binário por qualquer uma das muitas razões, incluindo relaxamento, diversão e gratificação sexual.

Glossário útil

Expressão de gênero: Refere-se a como um indivíduo expressa seu gênero socialmente. Isso pode referir-se a como um indivíduo se veste, sua aparência geral, a maneira como eles falam e / ou a maneira como eles se portam. Nem sempre é ligada com a identidade de gênero de um indivíduo.

Identidade de gênero: Uma vez que o gênero é uma construção social, um indivíduo pode ter uma auto percepção diferente de seu sexo biológico. A identidade de gênero é uma realização internalizada do gênero e pode não se manifestar em sua aparência externa. A identidade de gênero de um indivíduo é completamente diferente da sua orientação romântica ou sexual.

Orientação romântica: Descreve a atração romântica de um indivíduo para membros do mesmo e/ou do sexo oposto e/ou o desejo envolver em um comportamento íntimo romântico, como namoro e relacionamentos.

Orientação sexual: O termo preciso para a atração sexual de um indivíduo para membros do mesmo e/ou do sexo oposto, incluindo orientações lésbicas, gays, bissexuais, pansexuais e heterossexuais. Evite o termo “preferência sexual”, que é usado para sugerir que ser gay ou lésbica é uma escolha e, portanto, “curável”.

FOTO: Webert da Cruz