Imigrantes x Discriminação

Poliana Fontenele

Muçulmano praticante, Syed Zeshan, 34 anos, nasceu em Mandi Bahauddin, no Paquistão, e conta que desde quando chegou ao Brasil há três anos e meio, em busca de uma melhor qualidade de vida, sofreu preconceito por desconhecer a cultura e os costumes brasileiros. Em outra ocasião, a sua religião foi o fator que prejudicou uma oportunidade de emprego.

“No começo foi difícil me adaptar, mas o tempo foi passando e o Distrito Federal se tornou um lar para mim. O que me agrada é que aqui a cultura é muito familiar”, disse.

Para Syed, o preconceito aparece porque as pessoas tomam seus julgamentos como verdadeiros, sem se importarem com o que você tem a mostrar. Apesar de tudo, o paquistanês não se arrepende de ter vindo para o Brasil, e garante que o Distrito Federal o conquistou já na primeira vez que esteve aqui.

Reconhecimento

De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, em 2016 foram reconhecidos 9.552 refugiados no Brasil. O Artefato tentou, via assessoria de imprensa do ministério, atualização dos dados, mas não obteve resposta.

Segundo o Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), em 2017, foram atendidas 2.299 pessoas, incluindo imigrantes, solicitantes de refúgio e refugiados, sendo 963 residentes do Distrito Federal. O instituto, contudo, afirmou que este número não pode ser considerado como o total de imigrantes no Distrito Federal, mas apenas a quantidade daqueles que buscaram auxílio.

Do total de imigrantes que buscam apoio no instituto, há representantes das mais distintas nacionalidades – de latino-americanos a africanos e árabes.

Decepção

Nas conversas com os imigrantes, é possível perceber que a expectativa de viver em um país tão diferente do seu muitas vezes tem como retorno algo em comum: o preconceito. Seja pela cor da pele, pela religião ou apenas pelo pouco conhecimento da língua portuguesa, os imigrantes estão sujeitos a enfrentarem esse mal exercido por tantos brasileiros.

Danilo Borges Dias, pesquisador de fluxos migratórios e professor na Universidade Católica de Brasília, observa que não se pode generalizar a concepção de que o brasileiro seja um povo preconceituoso, nem hospedeiro, pois são dois extremos que dependem do contexto e convívio social para serem analisados.

“O preconceito ou as ideias que nascem de uma generalização quase que estática, está inserido nesse hall de complexidades, mas cabe a cada um, ou a cada grupo, fazer sua própria análise das situações geradoras de tais comportamentos. As generalizações são úteis, mas por vezes muito perigosas”, disse Danilo Borges Dias.

Gringo x Imigrante

É inevitável perceber a diferença que envolve o tratamento de diferentes imigrantes no Brasil, segundo o professor. Para Danilo Borges Dias, a diferença econômica dos países de origem dos imigrantes, é um fator óbvio a ser considerado na questão do preconceito.

“Os mais pobres economicamente estão mais propensos a sofrerem mais. O recorte econômico é um elemento de seletividade na geração de campos onde surge o preconceito, mas não é único. A região geográfica, a herança étnica e identitária também são fontes geradoras de comportamentos pré-concebidos e que tornam o convívio em sociedade segmentado e estratificado”, disse Borges.

A ideia de que um estrangeiro de país desenvolvido possa ser bem mais recebido do que aquele de países pobres, é realidade em diversas ocasiões. A própria linguagem utilizada pelos brasileiros, pode indicar a diferença social, que com frequência, traz o preconceito.

Tal percepção pode ser notada, por exemplo, pelo fato dos brasileiros possuírem a tendência de acolher os “gringos” norte-americanos que decidem residir no Brasil, e ao mesmo tempo acharem que os imigrantes haitianos estão invadindo um espaço. A diferença é clara, todos são imigrantes, mas por que chamar apenas alguns de gringos?

Imigração é história

Abdul Wahab Abubakar, 32 anos, é da cidade de Acra (Gana, na África) e conta, receoso, que sofreu discriminações durante os quatro anos que está no Brasil. Os motivos são os de sempre: a dificuldade dom o idioma e o modo de vestir. Mas para Abdul, o racismo ainda é um dos fatores mais recorrentes quando se trata de preconceito na vida que leva no país.

O jovem, apaixonado pela cultura brasileira que conheceu pelos livros da época em que estava na escola ainda em Gana, diz que já aprendeu muito durante a sua vida no Brasil, e que apesar de tudo, não se arrepende. “Tudo faz parte da minha aventura”, diz ele. “A migração está no cerne da nossa história”, resumiu o pesquisador Danilo Borges Dias. Segundo ele, existe um grande paradoxo na discussão de imigração, pois de uma maneira ou de outra, devido à história do Brasil, todos nós somos migrantes.

SERVIÇO

O Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), entidade social sem fins lucrativos, oferece assistência aos migrantes e refugiados, garantindo o reconhecimento de suas cidadanias e a defesa de seus direitos.  O auxílio a estes fora do Distrito Federal, é feito através de entidades parceiras, ligadas à Rede Solidária para Migrantes e Refugiados (RedeMir).

Contato:

Segunda a sexta-feira, das 9h às 12h, e das 13h30 às 17h.

Endereço: Quadra 7 – Conjunto C – Lote 1 –  Vila Varjão – Lago Norte – Brasília – DF.

Telefone: (61) 3340-2689

E-mail: imdh@migrante.org.br

Foto: Internet