Idoso, sim, mas a vida continua

Os desafios de quem já não é tão jovem e quer continuar a desfrutar a vida

Ana Cláudia Alves

Aos 43 anos, o jornalista Airton Gontow, desfez o casamento e por dois anos esbarrou em dificuldades de encontrar uma nova relação. Segundo ele, obstáculos como idade, atrapalhavam na hora da busca, e amigos da mesma faixa etária, que passavam pela mesma situação, reclamavam da solidão. Foi então que decidiu criar um aplicativo de namoro voltado somente para pessoas acima de 40 anos, como um Tinder para a 3ª idade. “Hoje a moda não é esconder a idade, mas mostrar que tem saúde e qualidade de vida, na idade que a pessoa tem”, afirmou Gontow.

E assim surgiu o “Coroa Metade – O Site de Relacionamento Para Quem Está na Melhor Fase da Vida”, cujo nome remete à expressão “cara metade”. O aplicativo destinado aos que já não são tão jovens, pois a exigência é ter mais de 40 anos, além de estar solteiro, já chegou a marca de 332 mil inscritos e já realizou 55 casamentos, em pouco mais de cinco anos de existência.

Gontow disse que é muitas vezes o idoso fica com vergonha de buscar uma nova relação por receio de ser discriminado tanto pelos mais jovens quanta pela própria família. Em conversas com quem já passou dos 60 anos, costuma ser comum ouvir queixas sobre preconceito contra as marcas da idade, ouvem que estão defasadas profissionalmente e que não devem pensar em situações de namoro, lazer e até mesmo chances de emprego.

Na última pesquisa do Perfil da Pessoa Idosa, feita em 2012, a Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) registrou 326 mil idosos vivendo no DF, o que representa 12,8% da população do DF, dos quais muitos ainda trabalham, têm vida sexual e emocional ativa.

Saúde

No Itapoã, a Unidade Básica de Saúde nº1 oferece serviços, como automassagens e terapia de origem chinesa. Laís Souza, médica que monitora as práticas, diz que pelo menos 30 idosos participam das aulas e define a turma como uma família. “Fazemos lanches ou até visitamos quando um não pode comparecer”, sintetizou ela. . O grupo em sua maioria, é composto por mulheres. Segundo ela, há poucos homens e muitos se sentem envergonhados ao fazer parte de algo dito “feminino”. Os exercícios, de acordo com a médica, colaboram com as atividades cotidianas. “Muitos deles não conseguiam escovar o cabelo e agora já conseguem até amarrar o sapato sozinhos.”

Maria Sara SOBRENOME, 70 anos, há um ano freqüenta o grupo. Após perder o marido, não conseguia comer e mal saía de casa. Com o tempo, foi conseguindo voltar a sua rotina, os exercícios a ajudaram a exercer sua profissão, a costura. Ela diz que não conseguia levantar os braços, mas, ao iniciar as atividades em grupo, já consegue fazer isso sem muitas dificuldades. As práticas a ajudaram a ganhar peso, melhorar o equilíbrio e obter tônus muscular.

Trabalho

Bete Silva, 59 anos, cozinheira registrada e usuária frenética de internet, contou que por vezes ouviu a frase: “Ainda trabalha? Por que não se aposenta? Já está na hora”. Ela evita responder, mas as pessoas insistem em perguntar. Trabalhando como empregada doméstica atualmente, Bete afirmou que as perguntas não a incomodam, e que, apesar, do cansaço, gosta do que faz. Muitos idosos optam por continuar a trabalhar do que se aposentar de vez, ou para continuar a fazer algo que gosta ou para não ficarem parados. Para Bete, o preconceito se apresenta de diversas formas e resume: “O preconceito não tem explicação”.

Para evitar perguntas ou constrangimentos ao dizer que ainda trabalham muitos escolhem mentir sua idade ou até mesmo não dizer. Algumas pessoas lidam com o trabalho na 3ª idade como algo negativo. Ao ser questionada se pensa em mentir a idade para evitar constrangimentos, a cozinheira é taxativa. “Nada disso de ‘no meu tempo’, meu tempo já passou, tenho que viver o tempo e o mundo de agora. Achei que não fosse chegar aos 20 e agora já estou nos 60, e quero viver mais uns 50 anos, aí vou saber que vivi bem”, afirmou.