Cinema inclusivo e participativo

Festival abre espaço para as atores e espectadores com distintas deficiências

Larissa Lago

O ato de ir ao cinema, comentar o filme e acompanhar, por exemplo, a premiação do Oscar é mais complexo do que se imagina para as pessoas com deficiência. O projeto “Assim Vivemos” busca mudar este cenário e tornar este prazer cada vez mais presente na vida das pessoas deficientes. Criado em 2003, o festival internacional de filmes sobre deficiência acontece a cada dois anos. No ano passado, a 8ª edição do evento foi em setembro, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Brasília. A programação para este ano ainda não foi fechada.

A idealizadora e produtora do projeto, Lara Pozzobon, afirmou que a inclusão de pessoas deficientes não está somente nos filmes apresentados, mas também no desenvolvimento do festival. “Convidamos pessoas com deficiência, que estão sempre em maioria, para compor o Júri Oficial do festival e para compor as mesas de debates”, apontou.

Na elaboração do projeto, trazer o público que se identifica com a temática dos filmes é um desafio a mais, segundo Lara Pozzobon. “Desde a primeira edição, fizemos uma divulgação forte em instituições de pessoas com deficiência para que a frequência dessas pessoas fosse grande nas sessões e oferecemos os recursos de acessibilidade, tendo sido pioneiros na produção de Audiodescrição no Brasil, em 2003. Colocamos intérpretes de libras nos debates e legendas LSE nos filmes”, contou ela. 

Festival

Em sua última edição, o “Assim Vivemos” apresentou 32 produções de 19 países diferentes que fizeram o público refletir sobre superação, inclusão, acessibilidade e preconceito. “Consideramos que o protagonismo das pessoas com deficiência aparece nesse festival tanto na tela quanto na plateia, tanto nos debates quanto no júri”, disse Lara Pozzobon.

Os filmes relatam universos diversos e distintos, como deficiência visual e síndrome de Asperger – transtorno do espectro autista com um comportamento típico. A maior parte dos roteiros é baseada em situações e personagens reais, raramente há apelos ficcionais.

Há produções curta a longa metragem com duração que varia de 5 minutos até uma hora. As produções brasileiras estiveram presentes em dois filmes: “A Vida Tocando”, que conta a história de um violinista que perdeu a visão e aprendeu novas maneiras de continuar a tocar, e “Luiza”, que mostra uma menina especial aprendendo a lidar com o universo em que vive, usando a sexualidade para falar sobre preconceito, relacionamentos e amor.

Desafio

Incluir personagens com as mais distintas diferenças é um desafio para os diretores e roteiristas da indústria cinematrográfica. Mas, a falta de acessibilidade para receber as pessoas com deficiência nas salas de cinema também prejudica o crescimento da representatividade destes que são 24% da população brasileira, de acordo com o último Censo.

Deficiente visual, a estudante de Direito Tainara Gomes, 22 anos, adora cinema e contou que sua primeira experiência foi confusa. “O cinema não é acessível para pessoas com deficiência visual. Na maioria das cenas, nós, cegos, ficamos perdidos, pois não dá para saber como são os personagens, a cor das roupas que estão usando, ou até mesmo o cenário. Muitas vezes eu preciso perguntar para alguém que me acompanhou as partes que eu não entendi das cenas”, detalhou.

Tainara sugere mudanças para melhorar a acessibilidade, sua sugestão é colocar a opção de audiodescrição para os deficientes visuais. Em um decreto feito em 2016, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) ordenou que todas as salas do país devem ser adaptadas com audiodescrição, legendagem e libras até este ano. Mas, devido à falta de estrutura e de equipamentos para auxiliar as empresas que tem salas de cinema no Brasil, a Ancine decidiu prorrogar o prazo final para 16 de setembro de 2019.

Apesar da prorrogação, até setembro deste ano os grupos que possuem mais de 20 salas de cinema precisam adequar, no mínimo, 50% das suas salas aos recursos de acessibilidade e, para os que possuem menos de 20 salas, o mínimo é 30%.A Rede Cinemark, que representa cerca de 30% do mercado brasileiro de cinema, não disponibiliza seus dados sobre este assunto. Já o grupo Kinoplex segue as exigências do decreto em apenas um de seus cinemas, o Cinecarioca, localizado na cidade do Rio de Janeiro.

Arte e Vida

Doutora em Comunicação, Stacy Smith comandou uma pesquisa no Media, Diversityand Social Change Initiative, que estuda a mudança na diversidade e representatividade no entretenimento dos Estados Unidos, em 2016. O trabalho mostrou que apenas 2,4% dos personagens que apareceram nos 100 filmes mais vistos no ano de 2015 apresentavam algum tipo de deficiência.

Destes 100 filmes, apenas 55 deles apresentavam personagens com alguma deficiência. Representando 61%, os personagens que possuem deficiências físicas são os que mais aparecem. Em segundo lugar, com 37,1%, vem os que tinham deficiências mentais ou cognitivas. Além disso, os personagens eram predominantemente masculinos, apenas 19% eram mulheres.

Outro dado da pesquisa mostra que os personagens deficientes desempenhavam papeis coadjuvantes (54,3%) ou insubstanciais (32,4%). A falta de interesse da indústria pelas histórias de pessoas que tem deficiência prejudica o alcance da representatividade e mostra uma visão pequena da vida real em geral.

FOTO: Cristina Granato