Amizades virtuais, um universo paralelo

Neste universo, os amigos podem ser mais presentes do que os que estão ao seu lado

Verônica Holanda

O estudante de ciências contábeis Calos Henrique Vieira, 21 anos, mora em Goiânia, mas tem amigos espalhados por todo país, graças à internet. Segundo ele, estas amizades são mais intensas do que aquelas com que ele convive diariamente. “Eu tenho mais amigos fora da internet, mas interajo melhor por trás da tela do meu celular do que pessoalmente. Temos um grupo no Whatsapp, há mais de 6 anos, conversamos sobre coisas que por diversas vezes não conseguimos falar pessoalmente. Isso proporciona uma profundidade muito maior.”

Carlos Henrique contou sobre o que viveu, no ano passado, quando a casa da família foi assaltada e os amigos virtuais se solidarizaram. “Levaram muita coisa, de geladeira e fogão até roupas. Minha família não tem uma condição financeira das melhores, mas a gente releva. Quando contei aos meus amigos virtuais, eles ficaram super preocupados. Em pouco tempo, criaram uma vaquinha online para me ajudar, divulgando por todas as redes sociais. Senti que não merecia amigos como esses.”

Pelos dados de 2015 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 57,5% da população do país têm acesso à internet há menos três meses. Este número representa 102,1 milhões de pessoas que podem, de forma praticamente instantânea, entrar em contato com indivíduos em qualquer lugar do planeta. O processo de globalização impacta cada vez mais o modo como as pessoas se relacionam, permitindo amizades até mesmo entre pessoas de pontos extremos do globo.

Casos

São numerosos os casos de indivíduos que só conseguem manter um convívio saudável por trás de uma tela. Gradativamente, passa a substituir as interações presenciais pelas virtuais, seja por dificuldades de inserção social, preconceito, bullying ou exclusão. É a acolhida offline quando encontram pessoas com as quais se identificam. É o caso de Fernanda Silveira*, 19 anos, que contou que, desde muito cedo, se viu cara a cara com abusos emocionais das pessoas ao seu redor.

“Eu sempre tive dificuldade em lidar com pessoas, por algum motivo era mais difícil que deveria. Eu era muito ansiosa e tímida, cresci com pouquíssimos amigos. Alguns deles acabavam se aproveitando da minha vulnerabilidade para me pressionar a fazer o que queriam, e isso me fez me fechar ainda mais”, relatou a estudante.

Fernanda Silveira disse que o mundo virtual surgiu como um refúgio, onde encontrou pessoas que a aceitam como é. “Lá, encontrei meus amigos, com quem me sinto bem sendo eu mesma. Eles são gentis e vêm tentando me ajudar a lidar com essas dificuldades, até me convenceram a procurar terapia. Fui diagnosticada com transtorno de ansiedade social, então notei que meu problema é real e válido. Não sei o que seria de mim sem eles”, ressaltou.

Análise

Anacelia Grangeiro, psicóloga e especialista na abordagem cognitivo comportamental,  acredita que este tipo de amizade torna possível fazer vários amigos em poucos minutos, mas todos longe do contato humano: “Um amigo virtual sempre dá apoio quando o outro se sente mal, mas penso que o verdadeiro desejo era ter alguém presente”.

A especialista alertou que: “Pode ser saudável a partir de um equilíbrio e limite entre as duas, porém é preciso cuidado para não desenvolver isolamento do meio social, familiar e profissional, assim como patologias como o vício em celular, depressão e ansiedade”.

Para Ellen Barros de Mattos, psicóloga e psicopedagoga, o mundo virtual permite usufruir de uma série de ferramentas, que acabam criando redes e unindo pessoas com interesses semelhantes. “Há uma facilidade de se conectar rapidamente com as pessoas, boa partes das vezes em tempo real. Grupos de apoio, comunidades diversas, fóruns, congressos online e a própria psicoterapia pode ser feita pelos aplicativos Para aproximar, aglomerar, acolher, prestar solidariedade em tempo real, as amizades virtuais podem ser interessantes”, disse.

Ellen Mattos advertiu sobre os riscos para o futuro: “Por mais avançada que a tecnologia possa parecer, ela é passageira. Vez ou outra, a reunião, o encontro, o olho no olho, vai ser necessário. Somos seres humanos, precisamos nos reconhecer dentro de um grupo. O que não podemos e não devemos fazer é priorizar o virtual. A presença física, o toque, o afeto, o encontro com o coletivo não podem ser dispensados”.

*O nome da personagem foi trocado a pedido dela por preservação pessoal.

Foto: AFP Frederic J.