Ser fora do padrão é um amargo desafio

Estar acima do peso, ser negro, homossexual ou ter deficiência gera agressões e piadas

Aline Brito

A intolerância causa sofrimento, angústia e desconforto para quem se sente “fora dos padrões” – estéticos, sociais, religiosos, econômicos e sexuais. Para essas pessoas, intolerância é sinônimo de preconceito. Estar acima do peso, ser negro, homossexual, transexual ou ter deficiência física, mental ou intelectual é motivo para agressões e chacotas. Situações que nem sempre vêm à tona, mas vividas todos os dias por muita gente. 

Filha de militantes negros e seguidora de afroreligião, a consultora política Nailah Neves Veleci, 25 anos, conta que sente o preconceito todos os dias. Segundo ela, enfrenta o racismo desde que nasceu. “O primeiro embate racial que eu enfrentei foi o registro e aceitação do meu nome de origem africana”, disse ela que tem orgulho do nome Nailah, que significa “aquela que será bem sucedida na vida”.

A consultora acrescentou que: “O racismo institucional dos cartórios é acostumado com nomes bíblicos e europeus, mas quando são apresentados a nomes africanos ou ligados às religiões afrobrasileiras, eles criam obstáculos com a justificativa de que a criança vai sofrer com chacotas”.

No esforço de superar o preconceito e os desafios, Nailah redobra seu empenho em tudo que faz. “Ser mulher negra é ser subestimada o tempo todo, porque seu local não é o de intelectual, mas o de empregada. É isso que a sociedade acredita, é pra isso que a sociedade foi educada. É ter que se dedicar três vezes mais do que os outros e ainda ter que recorrer à justiça para ser valorizada como mediana. É ser agredida por valorizar a própria cultura, é acostumar a não ter esperança quanto ao amor”.

Orientação sexual

Estudante de Publicidade e Propaganda, homossexual assumido há 2 anos, Lucas Braga, 20 anos, reclama do preconceito por causa de sua orientação sexual.  “Sofro preconceito tanto na rua quanto em casa”, contou. “Já sofri muito preconceito, principalmente quando fui me assumir porque minha família é muito homofóbica. Meu processo para me assumir tanto para minha família quanto para mim mesmo foi muito conturbado”, relatou.

Visivelmente emocionado, o universitário contou como foi parte da sua vida. “Eu cresci em um ambiente em que homem não chora, não sente as coisas, carrega tudo nos braços e nas costas. Fui criado para ser insensível, mas acontece que não sou. Esse ambiente opressor me forçou a fazer coisas e foi terrível para eu conseguir me assumir para mim mesmo, sofri muito”, lamentou Lucas Braga.

Segundo Braga, é difícil enfrentar e que releva muita coisa, principalmente dentro de casa. Para não ser afetado, ele procura canalizar todo o preconceito sofrido. “Eu busco filtrar toda a energia negativa que eu recebo das pessoas e transformar em coisas boas, coisas positivas”, afirmou. “Eu procuro focar mais no trabalho e nos estudos para tirar o foco de toda negatividade que recebo”, falou Braga, que já bateu de frente com o preconceito, mas que prefere ignorar. “Não adiantava eu me estressar, pra mim funcionou melhor não dar atenção para discursos homofóbicos”, concluiu.

Construção histórica

Para a psicóloga Danielle Sousa, há um processo de construção histórica para tentar justificar o preconceito e o estabelecimento de grupos sociais. “A conjuntura social e histórica vai demarcando que alguns tipos de pessoas são melhores que outros”, disse. “Ao longo da história de vida, do ser humano, é pautada por uma relação de diversidade. Os grupos que são considerados minoria, na verdade se a gente observar bem na sociedade, elas sim são um padrão majoritário”, falou.

Danielle Sousa disse que o preconceito causa uma série de conseqüências. “A imposição da sociedade de um ‘padrão’ acaba deixando quem não se encaixa nele com dificuldade de se aceitar e muitas vezes o sujeito sequer tem clareza disso, então, consequentemente, não vão entrar em contato com questões que são maiores, como isso o coloca numa situação em que ele não entra em contato com o outro”, indicou Sousa.  “O indivíduo começa a praticar tentativas incansáveis de tentar esconder uma marca que é própria dele, uma marca de vida, uma marca da história dessa pessoa”, reiterou.

Estética

“As pessoas não pronunciam em voz alta, mas os olhares e expressões mudam quando uma pessoa como eu se aproxima delas”, foi assim que o estudante Caio Silva*, 19 anos, começou a contar sua história. Ele, que se considera gordo, afirma existir um preconceito mascarado em que as pessoas que possuem intolerância por aqueles que estão acima do peso, não falam, mas mostram. “No ônibus, por exemplo, quando me sento ao lado do banco de alguém, sinto olhares tortos”, relatou.

Segundo Caio Silva, as chacotas e brincadeiras são feitas de forma disfarçada de preocupação com a saúde embora o que esteja em julgamento seja a questão estética: “Até mesmo na família e entre pessoas próximas é possível notar um certo preconceito”.

Segundo o estudante, que pretende ser apresentador de programa de auditório, é difícil as outras pessoas aceitarem a felicidade de quem não se encaixa nos padrões estéticos. “A sociedade não acredita que uma pessoa gorda possa ser feliz e se achar bonita. Para eles, só pode amar seu próprio corpo quem é magro, alto e branco”, afirmou.

Para o estudante, a gordofobia, aversão ou medo de gordos, é um preconceito naturalizado e encorajado, inclusive, nas campanhas publicitárias no verão em que os corpos magros são expostos em ambientes como praia e piscinas. “O preconceito contra pessoas gordas, quase sempre, machuca quem escuta, mas para quem está fazendo tem graça”, disse. “Em geral, não atrapalha, apenas incomoda pelo fato das pessoas quererem colocar todos em um único pacote padronizado da sociedade”, concluiu.

Caio Silva, Nailah Neves Veleci e Lucas Braga viveram e ainda passam por momentos de apreensão pelo o que representam e são. Situações que muitos se identificam, mas das suas maneiras buscam superar essas dificuldades. Por meio de ações no cotidiano, quem está fora dos padrões prova que viver vai além de transformar a todos como iguais porque se cada um é individualmente diferente não há o porquê tentar enquadrar e moldar em fórmulas e receitas que nem sempre atendem às demandas pessoais.

Foto: Rafaela Gonçalves