Readaptação: Uma difícil realidade

Imigrantes sofrem ao retornar para seus países de origem por não se identificarem mais

Renata Nagashima

A decisão de deixar a família, amigos e trabalho para trás não é uma escolha fácil. É preciso ter coragem para largar tudo e reconstruir uma nova vida em outro país com novos costumes, novas cultura e pessoas. O que muitos não sabem é que o processo contrário, de readaptação ao seu país de origem pode ser mais difícil ainda. Dados do governo federal mostram que cada vez mais brasileiros deixam o país de origem em busca de novos horizontes.

Pelos números do Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, cerca de 3.083.255 de brasileiros vivem no exterior, em situação legal. Só nos Estados Unidos da América há 1.410.00 de brasileiros, no Paraguai, 332.042, no Japão, 170.229, no Reino Unido, mais 120.000 e, em Portugal outros 116.271.

Estudante de marketing, a turca Kubra Yar, 25 anos, conta que enfrentou muitas barreiras após decidir se mudar para Nova York (Estado Unidos), como as primeiras semanas na cidade, que por pouco não a fizeram retornar para Turquia.

“Eu fui com a mente fechada. Eu decidi mudar para outro país, mas eu não estava aberta a vivenciar uma nova cultura. Comecei a sentir falta de conversar no meu idioma com outras pessoas, cheguei ao ponto de não querer sair de casa porque não queria ouvir ninguém mais falando inglês”, disse a universitária turca.

Para Kubra Yar, aos poucos ela aceitou o novo país e a cultura tão diferente da sua: “Eu comecei a sair e aproveitar de verdade, aos poucos eu fui me encontrando, mas não me sentia a vontade com a movimentação e não consegui me adaptar. Por isso, decidi voltar para a Turquia após um ano lá”, conta.

Ao contrário de Kubra, o brasileiro Klinger Ferreira, 19 anos, que precisou deixar o Brasil e se mudar, também, para Nova York, por causa de sua mãe, que foi se casou com um norte-americano. O brasileiro disse que nem pensa em voltar para cá.

“É claro que eu senti muita falta do Brasil. Sofri bastante também por causa de um relacionamento que precisei terminar. Mas depois tudo entrou nos eixos. Vejo que essa foi a escolha certa. No Brasil as coisas estão cada vez mais difíceis.  Não tenho mais vontade de voltar e sinto que o meu lugar é aqui”, afirmou Klinger Ferreira.

Para o doutor em Sociologia e pesquisador da Universidade de Brasília (UNB) o professor Antônio Flávio Testa, o amplo volume de saídas é causado pela falta de projetos de futuro para a juventude.

“Muitos querem sair do Brasil, principalmente para os EUA, porque acham que lá terão mais oportunidades e ganharão dinheiro suficiente e, assim, poderão voltar para cá com melhores condições. Mas isso nem sempre ocorre.  O convívio com outras culturas interfere nos valores pessoais e a readaptação não é fácil, e as vezes nem acontece”, disse Testa.

Por diversos motivos imigrantes se veem diante da situação de ter quer retornar para o seu país natal. Muitos deles já se adaptaram no exterior, construíram uma nova vida, estabeleceram conexões e raízes.

Quando encaram a realidade de ter que abandonar tudo mais uma vez, podem enfrentar contrariedade, construindo assim um bloqueio que o impeça de se readaptar ao lugar de onde saiu originalmente.

Este é o caso do estudante catarinense Pedro Pessoa, 26 anos, que foi estudar no Canadá e um ano, quando retornou, precisou de ajuda para lidar com a falta que sentia do país norte-americano. Ele conta que o choque foi imediato.

“Eu sempre me incomodei muito em como tudo funciona no Brasil, quando conheci outra realidade apenas reforcei esse sentimento. Então no momento que precisei retornar eu, sem notar, construí uma barreira. Eu não queria ter voltado e eu não queria me readaptar aqui, isso dificultou as coisas”, expressou.

Para a psicóloga paranaense Laís Bogo, 28 anos, não foi diferente, que deixou o Brasil e seguiu para os Estados Unidos em busca de uma experiência. Porém, o que seria uma temporada foi o suficiente para criar raízes. A decisão de voltar para o Brasil foi dela, mesmo assim, o processo de readaptação foi árduo.

“Eu sentia muita falta da minha família e confundi esse sentimento achando que sentia saudades do Brasil também. Com muita dificuldade terminei minha pós-graduação, mas depois não tinham oportunidades no mercado de trabalho que valorizassem todo o investimento feito, então resolvi voltar para os EUA”, disse Laís Bogo.

Há três anos em Lisboa (Portugal), Cleonice Aguilar, 22 anos, vive um dilema: voltar para o Brasil ou permanecer na Europa. Segundo ela, a falta de oportunidades é o que desanima, mas ao mesmo tempo, a mãe dela precisa de seu apoio. “Aqui [em Portugal] eu consegui me formar e reestruturar minha vida. Me preocupa muito voltar e não ser capaz de recomeçar tudo do zero”, contou a personal chef.

Pensando na dificuldade de reintegração dos brasileiros que retornam ao país, muitas vezes em situação de vulnerabilidade, o Ministério das Relações Exteriores lançou, em 2010, a cartilha “Guia de Retorno ao Brasil”. Nele, há informações, serviços e orientações para facilitar o retorno desses cidadãos, para que possam se reinserir na sociedade e no mercado de trabalho da melhor forma possível. O documento está disponível nas embaixadas e no Portal Consular, do Itamaraty.

Número de imigrantes brasileiros por continente:

África – 25.387

América Central/Caribe – 5.046

América do Norte – 1.467.000

América do Sul – 553.040

Ásia – 191.967

Europa – 750.983

Oceania – 47.310

Oriente Médio/Ásia – 47.522

Fonte: Ministério das Relações Exteriores – Brasileiros no mundo. Última atualização em 29/11/2016

Foto: Arquivo Pessoal