O amor entre diferentes

Casais que não se enquadram e que têm em comum o sentimento e querer estar junto

Ana Clara Arantes

Há muitos ditados sobre o amor, inclusive que “os opostos se atraem”. Verdade ou não, fato é que mais que opostos, podem se atrair – neste caso, é o não semelhante. Basta andar um pouco pelas cidades e encontrar casais como o Henrique Loback e a Priscila Mendes, que se conheceram em Brasília, por meio de um aplicativo da internet e estão juntos há mais de dois anos. Além deste, o Artefato conheceu e contará a história de outros três casais que  vivem em harmonia apesar das diferenças.

Henrique e Priscila têm gostos musicais completamente opostos. Ele gosta de rock, hardcore e punk. Ela, apesar de também ouvir rock, prefere sertanejo e funk. Eles contam que, no início do relacionamento, essa diferença atrapalhava, mas com muito diálogo, passaram a dividir o som do carro e os eventos que queriam ir.

Henrique, 26, doutorando em nanociência e nanobiotecnologia, brinca dizendo que a diferença musical atrapalha quando estão no carro: “Quando eu dirijo ela é a DJ e quando ela dirige também é a DJ, e isso é frustrante”. Brincadeiras à parte, ele acrescentou que:  “Há momentos em que um não está a fim de escutar determinado estilo que o outro quer ouvir, mas isso se resolve ao conversar e trocar de música, nada que atrapalhe o relacionamento”.

Já sua namorada Priscila, 23, bióloga, disse que ao conhecer melhor as bandas e músicas que o namorado gosta, acabou gostando de alguns estilos também. “Hoje em dia não atrapalha, mas no início do nosso relacionamento era muito complicado, pois tínhamos gostos completamente diferentes”, relembrou Priscila.

Ideologia

Muito além de estilos diferentes, Gabriela Machado, 28, e Vagner Soares, 29, convivem com ideologias diferentes. O casal de Belo Horizonte (MG) se conheceu ainda na adolescência e namora há 12 anos. Ele é vegano há quatro anos e meio e ela, não. Vagner adotou o veganismo por acreditar ser a maneira mais ética de viver, considerando os animais, o meio ambiente e saúde. Já Gabriela, pensa em tornar-se vegana, mas considera ser um processo.

“Acredito que [uma eventual] mudança deve ser natural. As mudanças que fiz abruptamente não foram duradoras. Estou preferindo respeitar o meu tempo”, disse a servidora do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). O casal relata que, como toda mudança, a transição de Vagner gerou certo problema no relacionamento deles, mas com o tempo foram se adequando à nova vida. “Quando o Vagner resolveu se tornar vegano, eu não entendi. A princípio fui egoísta, pensei no quanto isso reduziria nossa vida social. Mas logo abri meu coração à mudança”, afirmou Gabriela.

“Inicialmente tivemos esse conflito mencionado pela Gabriela, em função de eu não ter adotado nenhum tipo de transição para o veganismo. Foi uma mudança abrupta e que gerou insatisfação com a Gabriela e com a minha família. Porém, em menos de um mês, as pessoas perceberam que era uma mudança íntima, definitiva e passaram a conviver com isso”, disse Vagner, que é analista econômico-financeiro na Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig).

“Temos amadurecido juntos, perpassando por vieses que visam a um olhar à minoria, ao excluído, à busca de um mundo mais justo (dentro das nossas limitações, sem hipocrisia). Vagner conseguiu ir além e incluir os animais nessa preocupação”, disse Gabriela.

Superação

Em Salvador (BA), Marcela Menezes e Victor Galvão se conheceram ainda na escola e dois anos depois, em 2006, começaram a namorar. Victor, 29 anos, é analista de sistema e cadeirante. Antes de se relacionar com Marcela, 28, analista de controle de qualidade, deixou claro sobre eventuais dificuldades que poderiam surgir com relação a sua condição, mas Marcela não se importou e foi de encontro ao amor.

O casal conta que até hoje enfrenta preconceitos pelo fato do Victor ser deficiente físico. Algumas pessoas chegam a pensar que são irmãos e para Victor isso acontece por ser mais fácil acreditarem que estão juntos como parentes e não como casal. Marcela relata que até hoje não possui a aceitação do pai. “Passamos por muitos momentos de tristeza, pois eu sentia a necessidade de ter a aprovação do meu pai. Não achava justo eu já ter o mundo contra nós e ter que lutar contra isso dentro da minha própria casa, mas os momentos felizes que temos juntos supera qualquer preconceito e percebemos que somos mais felizes quando deixamos de nos importar com o que os outros pensam sobre o nosso relacionamento”, disse a analista de qualidade.

Victor acredita que só o que impede uma pessoa de se relacionar com alguém diferente é a falta de informação e é a partir daí que o preconceito surge. “Todos pensam que após o acidente a vida acabou, que a pessoa que possui deficiência não pode ter um relacionamento saudável e é incapaz de fazer alguém feliz. Por saber disso, eu fiz questão de esclarecer à Marcela quais seriam os possíveis problemas que poderíamos enfrentar, que nem tudo seriam flores, mas mesmo assim, ela aceitou e estamos juntos porque nos completamos”, afirmou ele.

Ao serem questionados se a diferença física atrapalha o relacionamento, o casal foi categórico: deficiência os faz ultrapassar barreiras e enxergar além do exterior. “O amor supera tudo, se todos nos olhássemos o próximo sem a lente do julgamento tudo seria tão mais fácil. Se eu deixasse a situação de Victor sobressair a pessoa que ele realmente é, eu teria deixado passar a felicidade, a oportunidade de se amada, de ser desejada, de ser uma mulher completa”, disse Marcela.

Ajuda profissional

A psicóloga e psicoterapeuta conjugal e familiar Maria Alexina Ribeiro, 61 anos, disse que a terapia de casal é importante quando os casais estão com problemas e querem superá-los e permanecerem juntos. Ela conta que são vários os motivos que levam os casais a conflitos, como ciúmes, dinheiro, dificuldade de comunicação e a diferença entre eles, como de idade, econômica e estilos.

“Essas diferenças não são, necessariamente, motivos de conflitos, mas em alguns casos geram dificuldades quando o casal precisa discutir e definir objetivos e planos familiares. Para lidar com essas diferenças o casal precisa ter maturidade, tolerância, um alto limiar de frustração e administração de conflito, pois poderiam correr o risco de uma ruptura, separação ou mesmo hostilidade”, orientou a especialista.

A psicoterapeuta afirma ainda que algumas pessoas se sentem atraídas pelas diferenças, mas depois de algum tempo sentem dificuldade em administrá-las. “Eu diria que quando há amor, afeto, respeito, uma boa comunicação e desejo de estar juntos, o casal é capaz de conviver e resolver todas as dificuldades que enfrentarem. Respeito pelas diferenças individuais é a base de todas as relações humanas. Se essa convivência se tornar muito difícil, e mesmo assim quiserem muito continuar juntos, podem buscar ajuda profissional, psicoterapia conjugal ou familiar”, disse.

Apesar das diferenças de estilo de vida, ideologias, físicas e mentais, uma similaridade maior une esses casais: o amor. O amor, que “move montanhas” e ultrapassa qualquer barreira. O amor que vence o diferente e as diferenças. Que une, que acrescenta, que cura.

Depoimento I – “Meu amor é real”

“A diferença pode ser um problema em relacionamentos, mínimo, diante do amor que o casal é capaz de sentir. No caso do meu relacionamento sempre prevaleceram a paciência, o diálogo e a compreensão. Sou bipolar, transtorno que se caracteriza pelas oscilações entre bom humor e períodos de irritação e depressão. Mas só fui diagnosticada há três meses. Sempre soube que havia algo diferente em mim e essa diferença atingia minha forma de agir comigo e com os outros também, além do meu namoro. Várias vezes, antes da medicação, agia com rispidez, falta de paciência e educação, totalmente oposta do meu namorado, César, que sempre tão paciente e amoroso, me entendia mesmo sem saber que eu tinha uma doença. Após o diagnóstico, estou e sinto-me bem melhor, mas minha diferença continua em mim. A paciência e amorosidade continuam no meu namorado e nosso amor também continua. Se há diferença no relacionamento? Há. O amor só cresce, esta é a diferença.”

*Ana Clara Arantes, 28, estudante de jornalismo e autora da reportagem

Depoimento II – “Só lembro que quero a Aninha perto”

 “Estamos juntos há dois anos e seis meses, mas só recentemente descobri o porquê de a Ana ser tão ‘brava’. Antes de ela ser diagnosticada, eu desconhecia a razão da variação de humor e algumas atitudes, mas sempre busquei entender esta ‘diferença’ da Aninha porque eu encaro a vida buscando o lado positivo de todas as situações e o que sempre prevaleceram foram a paciência e o amor. Não vejo diferenças entre a gente, todas as pessoas têm problemas, mas tudo pode ser resolvido com diálogo. Comunicar e tentar entender o outro e suas vontades facilitam e simplificam a vida. Construir é muito mais difícil do que destruir. É diariamente que construímos nosso relacionamento, pois gestos e demonstrações de carinho fazem a real diferença. Como para toda pessoa e todo casal, certos dias são melhores do que outros, pois não há vida perfeita. No nosso dia a dia, acabo nem lembrando do transtorno bipolar. Só lembro que desejo a Aninha sempre perto de mim!”

*César Oliveira, 37, assessor de imprensa

Foto: Arquivo pessoal