Nômades digitais, os trabalhadores do século XXI

Pessoas que trabalham de qualquer lugar do mundo sem prejuízos nem danos

André Rocha

Participar de uma reunião de trabalho em Roma, responder um e-mail tomando um café em frente à Torre Eiffel ou terminar aquele relatório em Londres. Ninguém está de férias, é assim que trabalham os Nômades Digitais. Pessoas que se cansaram da monotonia e da rotina repetitiva dos escritórios e escolheram trabalhar e conhecer o mundo ao mesmo tempo, sem destino certo. Uma espécie de Home Office itinerante. A tendência é que esse tipo de atividade aumente ainda mais.

Realizada em 2016, a pesquisa Home Office Brasil, da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades, que ouviu 325 empresas de vários segmentos mostra que aumentou o trabalho remoto no país. Pelo estudo, 66% dos participantes consideram a ferramenta como alternativa para superar crises econômicas. Das empresas ouvidas, 37% disseram adotar a prática do home Office e 23% afirmam que, a partir da adoção da ferramenta, economizaram despesas com aluguel, água, luz, telefone e outros suplementos para escritório.

Essa tendência de trabalho remoto vem conquistando cada vez mais adeptos no Brasil e no mundo. Nilson Junior, 31 anos, publicitário e idealizador do blog e vlog Um Bilhete por Favor, carrega no seu DNA o espírito de um nômade. Ainda na faculdade ele fez sua primeira viagem internacional para Orlando, onde fez intercâmbio e trabalhou na Walt Disney World. Na volta para o Brasil trabalhou em algumas agências de comunicação: departamento de marketing do Shopping Recife, setor de eventos na TV Globo Nordeste e marketing da Coca-Cola.

Todas essas vivências mudaram o jeito do publicitário ver o mercado de trabalho e trouxeram para ele um universo novo de oportunidades. “Após trabalhar numa empresa de hospitalidade no Brasil com resultados expressivos, o site TripAdvisor divulgou meu case de peças publicitárias pelo mundo todo. Poucas semanas depois, recebi a proposta de ir trabalhar na Alemanha, em uma startup de tecnologia. Aceitei e me mudei de mala e cuia para uma experiência incrível que durou dois anos”, contou ele.

 Fora dos planos

Ser um nômade digital não estava nos planos de Nilson, mas a possibilidade surgiu após um imprevisto. “Na verdade, toda a coisa foi mais necessidade do que vontade. Infelizmente, o visto da minha, então noiva, para morar na Alemanha foi negado e tomei a decisão de voltar ao Brasil para me casar. A empresa alemã me fez a proposta de continuar trabalhando, só que agora remotamente de São Paulo e visitando a sede sempre que possível. Daí começou toda a experiência com trabalho remoto que evoluiu para nomadismo digital”, disse ele.

Para Nilson Junior, os principais desafios para quem deseja ser um nômade digital é o treino ao “desapego”: “É preciso se desapegar do que você tem no Brasil: família, amigos, posses materiais. Tudo isso acaba sendo deixado para trás quando você decide viajar pelo mundo e não é fácil”,conta o viajante.

O home office e a possibilidade de viajar o mundo sem local e empresa fixa, tem relação total com o desenvolvimento tecnológico que ocorreu nas últimas décadas. “As empresas que fazem estudo de futuro de mercado apontam que muitos dos empregos estão sendo criados e a maioria deles vão se basear no uso da tecnologia. Então o que eu posso afirmar é que o potencial criativo vai pautar as novas relações de trabalho”, destacou Eduardo Amoreze, professor do mestrado em Gestão do Conhecimento e Tecnologia da Informação da Universidade Católica de Brasília (UCB), e Coordenador do Laboratório Apple Development Academy, também na UCB.

Eduardo Amoreze ressalta ainda a importância do empreendedorismo e das startups na criação das novas relações de trabalho. “O papel das startups é identificar as ideias inovadoras e transformar isso em um produto ou serviço”. Ele também alerta para um ponto negativo que pode ser trazido pelo home office. “Se um profissional começar a utilizar o home office para fazer diversas atividades para várias empresas simultaneamente, ela pode entrar em círculo negativo, em que ela não consegue conciliar e separar a vida profissional da vida particular”.

Sonho

Trabalhar e viajar, sonho de Jay Lee, 28 anos, norte-americano nascido na Carolina do Norte. Atualmente ele trabalha como user experience designer, trabalho que pode ser feito totalmente fora do espaço físico da empresa. A profissão que consiste em melhorar aplicativos, deixando-os mais acessíveis para os usuários,o ajudou a se tornar um nômade digital. “Eu sempre quis morar fora e trabalhar. Não sabia onde, só tinha alguns lugares em mente como: Reino Unido, Austrália e Alemanha”, lembra Lee.

O americano disse que trabalhar em várias partes diferentes do mundo proporciona experiências fantásticas: entender como o mundo funciona, conhecer novas pessoas e culturas. Mas lembra que nem tudo é só alegria, “você precisa ser persistente para não desistir diante de possíveis rejeições e da falta de familiaridade com a cultura e o idioma”, afirmou Jay, que entre suas aventuras chegou a morar alguns meses no Brasil.

Vantagens de ser Nômade Digital

  • Viajar o mundo
  • Flexibilidade
  • Definição das próprias regras
  • Ser seu próprio chefe
  • Qualidade de vida

Dificuldades de ser Nômade Digital

  • Saudade da Família e do seu país
  • Adaptar-se a diferentes culturas
  • Cumprir prazos
  • Pragmatismo na logística para mudar com frequência.
  • Misturar vida profissional e pessoal

 

Foto: Arquivo pessoal