Maria Paula troca Rio por Brasília e vira ativista cultural

A artista brasiliense elogia a diversidade, cria os filhos e dedica-se à filantropia

Daniel Neblina e Juliana Dracz

Maria Paula é atriz, comediante, escritora, repórter, cronista, apresentadora e psicóloga. Depois de longos anos dedicados à televisão, dos quais 17 ao programa humorístico  Casseta e Planeta, na Globo, ela avalia estar passando por uma transição – de artista para ativista. Após mais de duas décadas morando no Rio de Janeiro, ela voltou para Brasília, sua terra natal. É aqui que vive ao lado dos filhos, Maria Luísa, de 11, e Felipe, de 7, e do marido, o músico Victor Velansi. Porém, a principal experiência que ela diz viver é como ativista cultural.

Maria Paula conversou com o Artefato, no domingo (08/10), por telefone e deu detalhes deste novo momento da sua trajetória. A seguir, os principais trechos da entrevista da artista ao jornal laboratório da Universidade Católica de Brasília (UCB).

Artefato: O que a mudança para Brasília significou na sua vida profissional?

Maria Paula: Uma reinvenção. Estou me reinventando. Estou passando do momento artista para o momento ativista. Eu entendi que a credibilidade das filmagens pode ajudar em causas muito relevantes, então, eu estou muito focada em criar ambientes de transformação a partir do meu próprio exemplo. Brasília é a cidade da esperança, é a cidade que foi criada com a promessa de uma nova civilização, que tem a vocação para ser a capital da paz.

Artefato: Qual a sensação que você tem quando está nas ruas da cidade?

Maria Paula: Brasília é o único lugar do mundo em que nas ruas você tem iraquianos, americanos, franceses, turcos, persas, todos convivendo harmonicamente. Você vê na rua todas as embaixadas convivendo uma do lado da outra pacificamente. Esse exemplo precisa ser dado para o mundo.

Artefato: Essa diferença fica bem nítida quando compara com outras cidades do país?

Maria Paula: Sem dúvida! Eu acho que por Brasília ter sido construída por gente de todas as partes do Brasil e do mundo existe muito mais uma empatia entre as pessoas. Existe tolerância a diversidade, apreciação. A gente aprendeu a achar estimulante, conviver com gente completamente diferente a nós, porque aqui cada um vem de um lugar e cada um traz suas raízes, suas individualidades, radicalmente diferentes. A gente tem um contato verdadeiro com muitas possibilidades diferentes.

Artefato: Será que surge uma nova Maria Paula? Culturalmente falando… Maria Paula: Culturalmente, pode se esperar entusiasmo para criar movimentos, cenas culturais e artísticas e ativistas.

Artefato: Como é o trabalho voluntário que você faz?

Maria Paula: Agora estou realizando trabalho voluntário ao lado do Ministério Público. Nós estamos realizando treinamento da juventude, chamado “Jovens Para a Paz Mundial”. Trabalhamos com jovens que moram dentro de abrigos, que não tem ninguém para cuidar, órfãos. São crianças e adolescentes que estão sem guardiões e vão morar em abrigos institucionais. Eu fiz uma parceria com o Ministério Público, ao lado da Universidade de Sabedoria Central, nos unimos. Em nome da Embaixada da Paz, estamos fazendo essa espécie de grande treinamento com muitos jovens que moram em abrigos institucionais.

Artefato: Você já consegue observar resultados práticos para além do projeto?

Maria Paula: Eu acho que consciência é uma coisa que a gente cria e vai se ampliando cada vez mais. Eu acho que cada jovem que participou da nossa capacitação levou não só para vida dele, mas para toda a vizinhança, os amigos, essa semente da paz.

Artefato: Você percebe algum desinteresse em relação a esse tipo de ativismo que envolve cultura e arte?

Maria Paula: De jeito algum. Acho que nunca foi tão importante, nunca foi tão reconhecido. Acho que as pessoas querem ajudar e estão se mobilizando para isso. Acho que todo mundo pode ajudar em alguma causa, pode usar seus talentos para o bem. E é o que eu faço, dar visibilidade para que as pessoas que se sentem chamadas possam ajudar em alguma causa que se identifiquem.

Artefato: Você começou sua carreira cedo, aos 17 anos. De lá para cá, o que mudou na Maria Paula?

Maria Paula: Mudou tudo, parece que foi outra vida (risos). Agora aos 46 sou realmente outra pessoa. Mas foi maravilhoso, porque eu vivi de tudo, vivi diversos movimentos. Na época da MTV, a gente reinventou a linguagem da televisiva no Brasil, trouxe modernidade, leveza, compaixão para as telas. Depois com Casseta e Planeta foram tantos anos de humor e crítica a nossa própria sociedade, a nossa política, as nossas novelas, nossos hábitos culturais.

Artefato: A forma de fazer televisão também mudou, será que Casseta funcionaria tão bem hoje como foi no passado?

Maria Paula: Não, acho que as coisas vão mudando e é natural que mude. Aquilo fazia parte daquele momento histórico. Hoje o que faz parte do momento histórico que vivemos é o Porta dos Fundos. E que bom que ele estão aí.

Artefato: Ao falar de televisão, quais são seus planos?

Maria Paula: Para fazer TV, agora não. Não tenho nenhum projeto fechado. Tem alguns convites que estou estudando, mas não fechei nada ainda. Estou bem focada na Embaixada da Paz agora. Acho que meu trabalho como ativismo, não só pela paz, mas também em questões ambientais, estou achando uma coisa muito urgente, a gente precisa se mobilizar pela preservação da Amazônia, das terras indígenas. Acho que no momento está fazendo mais sentido para mim do que voltar para a dramaturgia ou para projetos na televisão, que são projetos que exigem contratos longos, teria que me mudar para o Rio e viver naquele universo.

Foto: Arquivo pessoal