Fé além da religião

 

Crenças atuam em favor do outro

Aline Cabral

Religião pode levar a debates e conflitos. Porém, há quem supere as divergências de credo em favor de uma causa comum: fazer o bem. No mundo com mais de 700 milhões de pessoas que vivem em estado de extrema pobreza – viver com menos de US$ 1 por dia (cerca de R$ 3,91) -, segundo o Banco Mundial. O que alivia a angústia de muitas famílias são os projetos sociais. Ações, em geral, coordenadas por segmentos religiosos.

No Distrito Federal, distintas religiões realizam diversos tipos de projetos de serviço ao próximo, como a Comunhão Espírita de Brasília, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e a Igreja Evangélica Assembleia de Deus. Os projetos incluem: visitas a hospitais, distribuição de cestas básicas para pessoas de baixa renda, sopa a moradores de rua, além de cursos profissionalizantes.

Espíritas

A Comunhão Espírita de Brasília promove o projeto ‘‘Assistência às Famílias’’, destinado a 250 famílias em situação de risco no Distrito Federal. O serviço funciona por meio de um cadastro realizado no site da Comunhão. As famílias aprovadas, que estão passando por necessidades básicas, ganham uma assistência por seis meses. O projeto visa a promoção social dessas famílias. Um grupo de voluntários faz a visita uma vez por mês, prestando o auxílio necessário, como doação de cesta básica, roupas, móveis, remédios.

Além dessa assistência no local, o projeto inclui também cursos profissionalizantes e de capacitação profissional de manicure e cabeleireiro, reconhecidos pelo Ministério da Educação (MEC).  Os cursos são gratuitos e as pessoas ganham o transporte para ir e voltar do curso, no final do curso de cabeleireiro é dado um kit com material para salão, para as pessoas começarem o seu próprio negócio. O projeto é feito na Comunhão Espírita de Brasília.

Há, ainda, o projeto ‘‘O Contador de Histórias’’, em que 70 voluntários que visitam o Hospital de Base de Brasília e Hospital das Forças Armadas (HFA). Eles são reconhecidos pelos jalecos em rosa. São contadas histórias com metodologia própria, os voluntários fazem ‘‘teatrinhos’’ para os pacientes do hospital, de modo a levar alegria aos doentes, também há uma equipe que vai para realizar a ação. O serviço de caridade é realizado há dez anos no Hospital de Base, que conta também, com a participação de voluntários de várias outras religiões. 

A vice-presidente da Comunhão Espírita de Brasília, Maria Luiza Bezerra de Melo, 65 anos, falou como se sente ao realizar trabalhos voluntários. ‘‘A gente acha que está levando as coisas para as outras pessoas, mas na verdade nós é que estamos recebendo, dar uma sensação de paz, é gratificante ajudar o outro’’, encerrou Maria Luiza. 

Evangélicos

A Igreja Evangélica Assembleia de Deus faz um trabalho em conjunto com a Fraternidade Assistencial Lucas Evangelista (Fale) para dar assistência para uma casa de recuperação para dependentes químicos e de álcool, assim como também portadores do HIV. Uma vez por mês, há cultos e doações de mantimentos, como cestas básicas e agasalhos. Essa atividade ocorre em parceria há mais de dois anos, beneficiando mais de 80 pessoas. A sede da Fale está no Recanto das Emas.

O pastor Davi Pereira de Araújo Sousa, 40 anos, da Igreja Evangélica Assembleia de Deus, disse que atuar em projetos sociais é cumprir os mandamentos bíblicos e seguir as recomendações divinas. ‘‘É o mandamento “amar ao próximo”. Como pastor, tenho a sensação de dever cumprido. Quando praticamos a caridade, nos sentimos melhor, mais humanos’’, disse ele.

Mórmons

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, conhecida também por ‘‘Mórmons’’, desenvolve o projeto ‘‘Mãos Que Ajudam’’, um programa permanente de ajuda humanitária e de serviço comunitário, que mobiliza milhares de voluntários de todas as idades, estendendo a mão a quem precisa. Ocorre em parceria com outras entidades, instituições religiosas, empresas privadas, órgãos governamentais ou organizações assistenciais, levando alento aos menos favorecidos em asilos, orfanatos, creches, ruas e onde houver necessidade. A igreja possui um histórico de participação em esforços humanitários neste país.

Já foram realizados no Distrito Federal, centenas de projetos ‘‘Mãos que Ajudam’’ nos últimos anos, por meio dos quais, muitas horas de serviços foram doadas e milhares de pessoas da comunidade de diversas localidades do DF foram beneficiadas. Foram realizados projetos como: reforma e limpeza de várias escolas e praças, doação de 400 cadeiras de rodas, arrecadadas pela Igreja na Asa Sul. Nesse projeto, os funcionários da Saúde, fizeram a triagem dos beneficiados e a adaptação das cadeiras.

Foram realizadas também confecção e consertos de mais de 6 mil peças de roupas para o Hospital Regional de Taguatinga (HRT) e no Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib). Houve ainda campanhas de ações sociais com atendimento médico, psicológico, fisioterápico, aferição de pressão arterial, de glicose, orientação nutricional, jurídica e contábil, contando com a participação de mais de 450 voluntários.

O bispo Magno Israel Miranda Silva, 53 anos, de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, destacou a importância do projeto Mãos Que Ajudam. ‘‘Numa época em que o mundo está em tumulto cada vez mais intenso, temos a oportunidade de praticar o bem, levando amor e esperança, ao socorrermos o próximo sem nos preocuparmos com nossas necessidades, tal como Jesus Cristo fazia. Assim é o projeto 

Mãos que Ajudam: o puro amor de Cristo que vem se repetindo ao longo dos anos no mundo todo’’, analisou ele.

O programa de serviço da Igreja denominado “Mãos Que Ajudam” foi reconhecido, em novembro de 2002, como uma das mais importantes organizações voluntárias do Brasil, onde vários necessitados são beneficiados por meio da igreja com arrecadações de alimentos doados pelos fieis, como ocorreu durante a passagem do Furacão Irma por países da América Central e dos Estados Unidos. Só os integrantes da Igreja de Jesus Cristo doaram mais de US$ 11 milhões de dólares para a assistência às vítimas de fome em oito países da África e Oriente Médio.

Foto: Erika Fuchida