Ensino especial para todos

O Estado tem de garantir acessibilidade e inclusão para quem tem deficiências

Iago Kieling

Da janela da sala de aula, o estudante Matheus Silva*, 10 anos, consegue enxergar o pátio. Na mesma sala, seu colega Lucas Souza*, de 40, vê a rua.Nestas escolas, não há distinções de idade, gênero e cor, já que as várias diferenças ali reunidas,já visam mostrar que todos são iguais e têm os mesmos direitos.Estes locais são os Centros de Ensino Especial (CEE’s), escolas que, asseguradas por lei, visam garantir o desenvolvimento e aprendizado de milhares de pessoas especiais que não teriam o mesmo tratamento em escolas tradicionais.

No Distrito Federal, esses centros são referência nacional e internacional, já que famílias de vários países da América do Sul são atraídas pela oportunidade de um melhor desenvolvimento para os seus filhos que possuem alguma necessidade especial. Atualmente há 13 Centros de Ensino Especial no DF, espalhados em quase todas as suas regiões administrativas.

Eliane Mesquita é mãe de Caroline, diagnostica com autismo aos 3 anos. Ela elogia os Centros de Ensino Especial e atribui a eles parte dos avanços alcançados pela filha. “No começo foi um baque, até os 2 anos, ela era uma criança normal. Depois dos 3 houve o diagnóstico e hoje já encaramos de frente. A Carol está no Centro de Ensino desde os 4 anos de idade, tendo hoje 19”, disse.“A Carol ama ir para a escola, se sente mais socializada e gosta de sair mais.”

Estado

Por lei, a educação especial é o meio que o Estado encontra para suprir as carências que o ensino regular possui para atender alunos com deficiências mais complexas e delicadas, de maior comprometimento. Apesar de todas as escolas terem de se qualificar para garantir a acessibilidade para seus estudantes, as particularidades de cada aluno especial exigem muitas vezes um cuidado exclusivo. Aí entram os CEE’s, que buscam a inclusão dos alunos, oferecendo acesso ao ensino qualificado para a posterior colocação deles no meio social e até mesmo no mercado de trabalho.

O Atendimento Educacional Especializado é oferecido aos estudantes com alguma deficiência intelectual, deficiência física, deficiências múltiplas ou deficiência sensorial (auditiva, visual, surdo e cegueira). Também contempla alunos com o Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD), que engloba os diferentes Transtornos do Espectro Autista (TEA), a Síndrome de Asperger, a Síndrome de Kanner, a Síndrome de Rett e as psicoses infantis (transtorno desintegrativo da infância e transtorno invasivo do desenvolvimento).

Os alunos são recebidos a partir do ensino básico, podendo ficar nos centros por tempo indeterminado, ou seja, sem idade definida para a saída, esta dependendo do desenvolvimento do aluno ao longo dos anos e da possibilidade de completa autonomia do mesmo na sociedade.

Referência

O Centro de Ensino Especial 01 de Taguatinga é um exemplo da interdisciplinaridade que esses Centros promovem. Com 350 alunos, sendo 60 em atendimento complementar (com período dividido na escola de ensino regular e no CEE), a escola faz dinâmicas diárias e eventos especiais com os alunos, como o Festival Recreativo, a Via Sacra na Páscoa, o Alto de Natal, a Mostra Cultural, o Festival de Capoeira, dentre outros. Para a professora Verônica de Albernaz, esses projetos são muito importantes para os alunos. “Nossa escola é movida a projetos. Aqui para as famílias e os alunos é a base para eles poderem dar um passo maior. E até aqueles que não podem dar um passo maior, este já é o passo maior, porque realizar aqui já é uma grande superação para eles.”, ressaltou.

Há, porém, uma grande discussão que acerca todo esse contexto do ensino especial no DF. Professores, gestores e especialistas dividem opiniões quanto às ferramentas e didáticas de inclusão que essas escolas oferecem, já que por diversas vezes o aluno pode não sair da escola ao atingir a idade adulta. Para o vice-diretor do CEE 01, Helder Gonçalves, os centros buscam aquilo que o ensino regular muitas vezes não consegue oferecer. “Na escola regular os alunos não conseguem ter o mesmo tipo de atendimento interdisciplinar, com atividades de desenvolvimento diárias, com uma equipe psicopedagógica especializada.”, disse.

Alguns especialistas da área defendem que a permanência indeterminada de alunos na escola acaba por excluí-los do restante da sociedade, não cumprindo com a perspectiva da inclusão.

A psicopedagoga especialista em autismo Lurdes Dias trabalhou nos CEE’s e, depois abriu uma clínica para colocar em prática metodologias que, segundo ela, são mais eficientes no desenvolvimento de alunos especiais.“No Brasil, há muitas leis, mas pouca prática”, lamentou Lurdes Dias. “As atividades poderiam ser mais dinâmicas e práticas, com oficinas de curto tempo, por exemplo.”

*Os nomes são fictícios para preservação dos estudantes.

Fotos: Gabriela Anacleto