Elas comandam os quadrinhos e os cartoons

Mulheres quadrinistas e cartunistas estão à frente dos projetos independentes em Brasília

Adriana Botelho e Caio Almeida

Até pouco tempo, o mercado de quadrinhos e cartoons era considerado território essencialmente masculino, mas o cenário mudou: as mulheres passaram a ser protagonistas e transformam a história antes dominada por heróis que, aos poucos, passam a conviver com heroínas. Os enredos em que predominavam clichês sobre super-heróis, agora incluem relatos de empoderamento e criatividade feminina. O convívio é aparentemente harmônio. Em Brasília, há uma série de quadrinhos e cartoons que retratam fora do tradicional, como o Coletivo Fúrias, Extraterrestre e o Lovelove6.

Para a dona da página Extraterrestre, Ana Terra, 23 anos, o mercado está mais favorável para o ingresso das mulheres no território dos HQs em Brasília. “Acredito que estamos cada vez mais desenvolvendo um trabalho   consistente e conseguindo mais espaço no mercado de trabalho”, disse ela, que procura retratar em seus trabalhos situações vividas no cotidiano. “Muito do que eu faço de quadrinho e tirinha é autobiográfico”, contou.

A falta de representatividade é um dos obstáculos vividos pelo público feminino que se queixa do conteúdo das histórias contadas nas revistas, nos jornais e sites. Segundo esse público, o alvo é masculino exclusivamente. O blog Papo de Quadrinho, especializado em quadrinhos e cartoons, fez uma pesquisa em 2016, e mostrou que o público de leitoras cresceu 31%.

Reconhecimento

Reconhecida nacionalmente, a quadrinista, Gabriela Masson, 28 anos, cujo nome artístico é Lovelove6, criou a personagem garota Siririca para falar sobre críticas sociais e sexualidade. Segundo ela, o ingresso da mulher nesse território abre novos olhares e perspectivas sobre outros temas. “A presença de mulheres no mercado de quadrinhos é muito importante para que as histórias sejam mais diversas e os leitores possam experimentar narrativas que não dizem respeito apenas ao imaginário e anseios dos homens brancos’’, afirmou.

A história de Gabriela nos quadrinhos começa na infância, seu interesse pelo mangá japonês foi o incentivo que a levou a se dedicar ao desenho. Na adolescência, a jovem conta que procurou entrar ainda mais nesse universo que ela já almejava para o futuro. “Entrei em contato com o teatro e em seguida desejei cursar cinema. Acredito que todas essas influências me levaram a desenhar histórias em quadrinhos hoje, uma forma barata e autossuficiente de narrar histórias com imagens”, apontou.

O site Lady´s Comics é uma iniciativa criada em 2010 que reúne mulheres cartunistas e quadrinistas de todo o Brasil para mostrar o trabalho e ganhar visibilidade entre o público interessado nas narrativas e nos desenhos femininos. Samara Horta, é uma das idealizadoras da página e fala sobre as dificuldades que ela presencia nesse mercado. “No Brasil, as mulheres que decidem fazer HQs atuam de forma independente, a verdade é que poucas editoras publicam mulheres no Brasil, só conheço uma apenas que voltou os olhos para as mulheres, é muito pouco”, apontou.

Para o cartunista e quadrinista, Eduardo Calasam, 25 anos, define-se como fã do processo em que mais mulheres passaram a fazer parte do universo antes tão masculino que é o mundo dos quadrinhos e cartoons. “Falando do campo de publicação independentes de Brasília, o que tenho mais conhecimento, você encontra muito mais mulheres produzindo, engajadas e com trabalhos magníficos que vão desde trabalho que dão voz a suas ideologias a magia dos nossos cotidianos”, disse.

Foto: Rafaela Gonçalves