Doeu, mas tem de trabalhar

Exercícios repetitivos podem adoecer e motivam o afastamento de mais de 115 mil trabalhadores de suas atividades 

Maria Isabel Felix

A cena icônica do filme “Tempos Modernos” em que Charles Chaplin opera, repetidamente, uma máquina tornou-se um símbolo do novo modelo de trabalho advindo da industrialização. No entanto, o que parece ser uma brincadeira no longa-metragem – que é a reprodução de um mesmo movimento –, pode comprometer severamente a saúde do trabalhador.

As chamadas doenças ocupacionais se tornaram uma realidade que acompanha a vida de muitos funcionários. Pelos dados do Ministério do Trabalho, a estimativa é que 115 mil operários adoeçam por ano. As queixas mais frequentes são relacionadas aos Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho, chamados também de Lesões por Esforço Repetitivo (LER/DORT), que se tornaram fator de preocupação na saúde ocupacional.

A dentista Erika Luciene de Oliveira, 47 anos, viveu e ainda passa pelos efeitos de quem tem de praticar atos repetitivos no dia a dia. “Quando fiz 10 anos de profissão comecei a sentir perda de força na mão direita e muita dor no braço e no ombro. Um dia, de repente, perdi totalmente o movimento do punho e da mão direita”, relatou.

Por 90 dias, Erika ficou impossibilitada de voltar ao consultório e submeteu-se a uma intensa rotina de fisioterapia. Para voltar a trabalhar, a dentista – que é autônoma – teve de aprender a manusear os equipamentos apenas com a mão esquerda. Como se já não bastasse, além de Lesões por Esforço Repetitivo (LER), foi detectada também uma hérnia de disco cervical. “Sinto dores 24h por dia, mas tenho que conviver com essa situação, já que preciso trabalhar”, desabafou Erika que convive a 14 anos com os problemas.

Diagnósticos

Integrante do Conselho Deliberativo da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) e presidente da ABMT (federada da ANAMT no Rio de Janeiro), Nadja de Sousa Ferreira, disse que essas doenças envolvem várias motivações, como atividades repetitivas, ausência de pausas, falta de exercícios e propensão. “O LER/DORT pode ser ocasionado por atividade muscular resistida do mesmo grupo muscular por tempo maior que 50% da jornada de trabalho e ausência de rodízio de tarefas que solicitem grupos musculares diferentes, além de ausência de pausas e de alongamentos”, afirmou.

Segundo a médica, é preciso estar em alerta permanente pois, em geral, as doenças ocupacionais demoram anos para se manifestar e, quando os primeiros sinais aparecem, a situação já está crítica e corre o risco de afetar severamente a saúde do indivíduo, além de poder resultar na incapacidade de exercer a devida função.

De acordo com dados da Fundação Jorge Duprat e Figueiredo (Fundacentro), que é o Portal da Saúde e Segurança do Trabalhador, só em 2013, 3,5 milhões de trabalhadores foram detectados com LER/DORT – uma das doenças ocupacionais que ainda geram incapacidade prolongada -. O termo, no entanto, é genérico. Cabe ao médico do trabalho fazer a análise específica da doença.

A cronicidade da dor e a consequente incapacidade para realização do trabalho são características comuns de DORT, de modo a gerar a discriminação dos operários adoecidos. Além disso, muitos acabam também por se submeter a um tratamento psicológico, posto que o distúrbio é invisível, logo o funcionário não sente a compreensão das outras pessoas e se vê “sozinho”.

O escrivão da polícia aposentado, Paulo Pina, 53 anos, começou a carreira em 1986 com máquinas de escrever manuais. “Na época, tudo tinha que ser feito com cópia, então eu utilizava de 6 a 7 folhas de carbono em cada documento, desse modo eu tinha que digitar com muita força para grafar todas as páginas”, disse. Não demorou muito para os problemas aparecerem. Paulo começou a sentir fortes dores no braço e no ombro. “A LER ainda era um fantasma quando eu comecei a apresentar a exaustão nos membros superiores, porque os chefes achavam que eu estava inventando”, relembrou.

Direitos

No Brasil, as doenças ocupacionais são equiparadas aos acidentes de trabalho, portanto geram, para fins legais, os mesmos benefícios e direitos. Normalmente, o trabalhador procura o médico da empresa ou do trabalho para que faça uma análise clínica. “Com a comprovação de que o dano sofrido tem como causa relevante o trabalho, ele pode se afastar do serviço e ter direito ao recebimento de benefícios da previdência e da estabilidade no trabalho de até um ano”, disse o coordenador regional da Coordenadoria Nacional de Defesa do Meio Ambiente do Trabalho, Charles Silvestre.

O primeiro obrigado a informar a situação é a empresa, por meio da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), que deve ser encaminhado para o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Porém, Silvestre alerta:  “As instituições raramente emitem as CATs para não reconhecer que o adoecimento decorreu da atividade exercida”.

Nesses casos, o indivíduo pode recorrer ainda a um dependente, a entidade sindical, o médico, a autoridade pública e até ele mesmo para preencher a CAT. Além do mais, o empregador que não emitiu o documento, está sujeito a aplicação de multa e fiscalização do Ministério Público do Trabalho, através de um inquérito civil público.

Soluções

Quando se fala de LER/DORT, fala-se de ergonomia e da aplicação da Norma Regulatório 17 (NR-17). O documento prevê uma série de cuidados para empresas que oferecem riscos ao trabalhador. Dentre elas, há a necessidade da Análise Ergonômica do Trabalho. “Trata-se de um estudo das condições de cada um dos setores da empresa, apontando os riscos e soluções”, esclareceu o coordenador de Defesa do Meio Ambiente do Trabalho.

A fim de melhorar o ambiente de trabalho, muitas instituições estão adotando como solução a ginástica laboral, bem como mudanças no mobiliário e outros programas de qualidade de vida. Essas mudanças atuam positivamente no aumento do bem-estar do funcionário, mas não cessam com os riscos.

Foto: Luiza Barros