Plantas que curam

Da sabedoria popular ao respaldo da ciência, espécies que levam alívio

Luana Pontes

Das 46 mil espécies, incluídas no Catálogo de Plantas e Fungos do Brasil de 2010 e dispostas em dois volumes, há um retrato da flora brasileira: variedades impressionantes capazes de curar problemas de saúde – de uma simples ressaca à estimulação de fertilidade e problemas hormonais. O Jardim Botânico do Rio de Janeiro registra, em média, 334 novas espécies por ano, de acordo com a assessoria.

Distante da ciência, mas com a prática que a sabedoria popular respaldada, a goiana Jovita Santos Rocha, 69 anos, aprendeu em casa o costume de usar plantas medicinais. “Mamãe usava várias receitas que aprendeu na fazenda da família no interior do Goiás”, contou ela. “O bálsamo amassado com sal e erva Santa Maria serve para o tratamento de gastrites e úlceras.”

A confiança de Jovita Rocha e de outros anônimos chegou aos pesquisadores e cientistas. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece 12 medicamentos fitoterápicos que são indicados para uso ginecológico, tratamento de queimaduras, auxiliares terapêuticos de gastrite e úlcera. Além de medicamentos com indicação para artrite e osteoartrite, entre outros.

No ano passado, os projetos de medicamentos medicinais e fitoterápicos receberam o investimento de mais R$ 1 milhão do Ministério da Saúde. O valor foi destinado às cidades de Brasiléia (AC), Manaus (AM), Macapá (AP), Abaetetuba (PA) e Colinas do Tocantins (TO), para compra de insumos, materiais para consumo, contratos e capacitação dos profissionais e no que desrespeita ao estímulo para oferta de fitoterápicos aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

Cuidado

Apesar de saber do poder das plantas, o médico David Barbosa Jr, que atende no Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF) e no Posto de Saúde do Riacho Fundo I, não faz indicações de fitoterápicos. “Sabemos que quase toda a base do medicamento conhecida vem de plantas cujo o princípio ativo é isolado e disponibilizado”, relatou.

Segundo a doutora em biologia pela Universidade de Brasília (UNB) Shirley Buffon, 44 anos, a utilização das plantas deve ser feita com cuidado. “A população não sabe qual a dosagem e os compostos que estão sendo ingeridos nos chás e nas garrafadas, por exemplo”, alertou ela, lembrando ainda que o consumo destas plantas por conta própria pode trazer risco à saúde.

Aprendizagem

O curso de Farmacologia inclui disciplinas, como farmacobotânica, farmacognosia, fitoterapia. No 5º semestre do curso de Ciências Farmacêuticas do Centro Universitário Autônomo do Brasil (UniBrasil), de Curitiba (PR), Kamila Franco ressaltou que a maioria dos medicamentos deriva de plantas que possuem algum fim terapêutico e são utilizados para o controle de doenças ou para que amenizam os sintomas.

“Os estudos servem para descobrir os princípios ativos das plantas. A farmacologia trabalha para minimizar os efeitos adversos”, afirmou a universitária, informando que a produção em laboratório dos medicamentos extraídos de plantas é feita “para que eles sejam mais específicos no tratamento”.

Garrafadas

Diagnosticada com bursite, a aposentada Maria Irinete Dias, 69 anos, não insistiu nos medicamentos industrializados. Segundo ela, foi a garrafada à base de Imbé e álcool responsáveis por amenizar os sintomas de suas dores. “Corto alguns talos do Imbé e deixo curtir no álcool por alguns dias e depois é só passar no local”, revelou Maria Dias.

A aposentada cultiva uma série de plantas e ervas na horta em de casa, no Riacho Fundo. “Aqui tenho meu boldo, alfavaca e erva-cidreira. Caso precise é só buscar lá na horta e preparar o chá”, contou ela, que prepara garrafadas para consumo próprio e toda família. “Tem a garrafada feita com vinho e pílulas dos quatro humores que é ótima para sinusite”, ensinou.

Na casa de Hilda Brito de Santana, 73 anos, as plantas vêm da sua fazenda próxima a Brasília. “Os chás podem ser tomados antes dos sintomas aparecerem. As ervas ajudam a prevenir”, reforçou. Segundo ela, prepara com frequência a infusão com folhas de hortelã para reforçar a imunidade e prevenir a gripe: “Tomo erva-doce e capim-santo quase todos os dias como calmante”.

Receitas

Ressaca – chá de folhas de boldo

Colesterol alto – hortelã ou pata de vaca

Reposição hormonal – chá feito com as folhas de amora

Calmante – chá de camomila

Unha encravada – chá com casca de romã e banha o lugar

Gastrite – chá com folhas de balsamo

Sucupira branca

Essa árvore frondosa não é apenas bonita. O óleo aromático que é produzido em suas sementes é de efeito medicinal, usado no tratamento de reumatismo e doenças similares. A pesquisa “Produtos Naturais Bioativos” da Universidade de Campinas (Unicamp), estuda a eficácia deste produto natural em inflamações e câncer de próstata. Da família das Fabaceae, a Sucupira Branca, Pterodonemarginatus, é nativa do cerrado, região de Mata Atlântica, nos estados de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Norte.

Foto: Amanda de Castro