Mulheres escravizadas

Um mercado que movimenta até US$ 9 bilhões por ano e atinge 4 milhões de pessoas

Aline Brito

As histórias são comoventes e os números chocantes: só nas áreas de fronteira do Brasil pelo menos 475 mulheres, entre 2005 a 2011, foram vítimas do tráfico de pessoas. No mundo, são cerca de 4 milhões entre homens, mulheres e crianças. Por ano, um mercado que movimenta aproximadamente US$ 32 bilhões – dos quais de US$ 7 a US$ 9 bilhões são relacionados às crianças e mulheres. Carla Silva*, 31 anos, foi uma dessas “escravas sexuais” que na tentativa de escapar da pobreza do interior, iludiu-se com a promessa de emprego e viu-se obrigada a fazer programas sexuais para pagar uma dívida interminável. O caso foi parar no Papa Francisco para quem Carla escreveu pedindo ajuda.

Convidada por uma prima para ir a São Paulo, com a promessa de trabalhar como garçonete em um restaurante, Carla Silva embarcou. “Nada disso era verdade, eu fui enganada. Eles [agentes do tráfico] me levaram para uma boate em Guarulhos onde eu fui obrigada a me prostituir”, afirmou ela, sem esconder o constrangimento.

Há relatos e informações que envolvem abuso e violência sexual, agressões, ameaças e humilhações, de acordo com o Relatório Global de Tráfico de Pessoas realizado pela Organização das Nações Unidas (ONU).  O Escritório da ONU sobre Drogas e Crime (UNODC) reúne os levantamentos sobre o tráfico internacional de pessoas, onde aponta que as vítimas desse crime totalizam cerca de 21 milhões de pessoas em todo mundo. A Organização Internacional do Trabalho calcula que só na América Latina sejam 250 mil pessoas traficadas a cada ano.

Fragilidade

A fragilidade que cerca a vida das pessoas de baixa renda é a mola propulsora dos traficantes de pessoas, que iludem principalmente mulheres com promessas de oportunidades e dinheiro fora dos locais onde moram. Com o tempo, o sonho vira pesadelo e um verdadeiro inferno, relatou Carla Silva. “Eu era muito nova, filha de uma família humilde e meus pais viviam me cobrando para conseguir um emprego”, contou.

A história de Carla não é única, relatos como o dela se repetem em um complexo  esquema criminoso. As mulheres adultas são as principais vítimas do tráfico de pessoas: representando 60% das pessoas traficadas. Se somadas as crianças e adolescentes do sexo feminino, sobe para 75%. O tráfico para fins de exploração sexual é a principal finalidade para as mulheres.

Vicente Faleiros, professor emérito do Departamento de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB), disse que o tráfico de mulheres para fins de abuso sexual é reflexo da desigualdade social. “A exploração sexual afeta mais as camadas pobres e de cor preta, mas está vinculada também às relações de violência e abuso nas famílias, ao machismo, patriarcalismo, ao desemprego e falta de oportunidades no acesso às políticas de educação e saúde”, afirmou.

Para Faleiros, a violência cometida contra as vítimas causam impactos psicológicos muitas vezes irreversíveis: “O tráfico viola os direitos humanos, a integridade física, psíquica e sua dignidade com ameaças de morte. A depressão, a angústia, o medo causam traumas e há tentativas de fuga, de suicídio e mesmo a realização do suicídio. Os assassinatos de vítimas são frequentes quando há resistência”.

Pesadelo

De São Paulo, Carla Silva foi levada para vários locais do país, obrigada a prostituir-se. “Minha situação ficou mais perigosa quando decidiram me levar para a Espanha. Para minha completa infelicidade fui colocada em um clube de Estrada em Madri chamado ‘El Mirador’ em que era obrigada a fazer programas sexuais com qualquer homem e a qualquer hora e a consumir muita bebida que cheguei a ficar muito doente”, desabafou ela, que também trabalhou na prostituição em hotéis no Caribe e Colômbia.

Depois de fugir, em 2012, da rede de tráfico, Carla transformou seu drama em luta e apoio às pessoas traficadas e excluídas. Estudou marketing e especializou-se na área social e do terceiro setor, recorreu na Justiça contra os traficantes e aguarda decisão. “Quando uma vítima consegue se livrar dos criminosos ela já está física e psicologicamente doente”, disse ela.

*Carla Silva é um nome fictício a pedido da entrevistada.

Papa Francisco

Em uma carta ao Papa Francisco, Carla Silva* detalha o que sofreu: humilhações, abusos e exploração que passou. Desde o estupro, ser comprada para ser escrava sexual até ter a garganta cortada, quando se recusou a fazer filmes para um site pornográfico. “No dia 18 de janeiro de 2010 tentaram cortar minha garganta. Quando pensaram que eu estava morta, chamaram a ambulância e fui levada ao hospital onde fiquei internada por 10 dias”, contou ela, que conversa escondendo as cicatrizes.

A carta chegou ao conhecimento do Sumo Pontífice, que respondeu prestando apoio à Carla e reconhecendo seu sofrimento. Escrita pelo Assessor direto do Papa, palavras de estima foram direcionadas à jovem e conselhos para que ela nunca desista e firme seus pensamentos orações em Deus.

*Carla Silva é um nome fictício a pedido da entrevistada.

Enfrentamento

Enfrentar o tráfico de pessoas é um grande desafio. De acordo com dados da ONU, o número de condenações pelo tráfico de pessoas é muito baixo: em 132 países pesquisados, 16% não tinham registrado nenhuma condenação entre 2007 e 2010. O Brasil implantou, em 2006, o Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, revisado sete anos depois.

O plano envolve vários setores governamentais e não governamentais baseados nos princípios de repressão, prevenção e assistência às vítimas. Além disso, existem organizações não governamentais de apoio às vítimas, como a ONG Projeto Resgate que entre os anos de 2007 e 2014 resgatou 750 pessoas da rede do tráfico.  

Fernanda Fuentes, analista de Programa do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, disse que as parcerias são fundamentais no combate ao tráfico de pessoas no mundo. “Para combater o tráfico de pessoas, as desigualdades econômicas, sociais, políticas, situações de marginalidade e falta de inclusão, teriam que ser enfrentadas também”, disse Fernanda Fuentes, que é o ponto focal da ONU no Brasil para a Ação Global contra o Tráfico de Pessoas e o Contrabando de Migrantes (GLO.ACT)

SERVIÇO:

– Para denunciar casos de tráfico de pessoas, dique 100.

– Diretoria de enfrentamento ao tráfico de pessoas e apoio ao migrante refugiado

– Telefone: 2104–1913

– Endereço: Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejus/DF) – Estação Rodoferroviária de Brasília, Parque Ferroviário, Zona Industrial, Brasília.

Foto: Luiza Barros