Ditadura no Brasil: história que merece ser contada

São livros, filmes, peças e músicas que relembram episódios de 1964-1985

Andressa Paulino e Caio Almeida 

Vencedor de prêmios, como Barbosa Lima Sobrinho, o Esso, o de Excelência Jornalística da Sociedade Interamericana de Imprensa e menção honrosa no Vladimir Herzog, o jornalista Matheus Leitão, 39 anos, tinha um objetivo, quase uma fixação: desvendar e descobrir, em detalhes, os torturadores dos seus pais – os jornalistas Miriam Leitão, que na época da prisão estava grávida do irmão dele Vladimir, e Marcelo Netto. Depois de 6 anos de pesquisas, ele conseguiu: o sonho virou o livro “Em nome dos pais”, da editora Intríseca, que está entre os mais vendidos das principais livrarias do país. Ao Artefato, Matheus Leitão defendeu a importância e a necessidade de apresentar essa história e criticou a forma como o Estado negligenciou o assunto por décadas, refletem na educação brasileira. Também alertou sobre a necessidade de buscar informações precisas sobre o período militar – de 1964 a 1985 – antes de defender idéias e princípios.

A seguir, os principais trechos da entrevista de Matheus Leitão ao Artefato.

ARTEFATO: Você tem a impressão de que os jovens se interessam pouco pelo tema: ditadura militar?

MATHEUS LEITÃO: Eu acho que o conhecimento sobre o período é pequeno. É um momento importante da nossa história, acho que foi um dos momentos que mais tiveram violação dos direitos humanos. Este é um assunto importante. Acho que o Brasil como um todo também não lidou com o assunto ou não deu a importância devida. Nós fomos o último país a fazer a comissão da verdade! E isso, a forma como o Estado resolveu lidar com as coisas se reflete na educação. Daí nasce uma falta de informação generalizada sobre o período.

ARTEFATO: Na sua opinião, o Estado ainda está em falta com a sociedade?

MATHEUS LEITÃO: Acho que o que mais falta é um pedido de desculpas das Forças Armadas, que não ocorreu até o dia de hoje. Por que eu digo isso? O pedido de desculpas não é pra humilhar as Forças Armadas, é porque assim se reconstrói uma nação. As Forças Armadas nunca pediram desculpas. Eu acredito que isso um dia vai ocorrer. Eu acho que esse pedido está demorando demais. Essa falta de desculpas parece que eles não querem admitir o erro. Eu sinto que dentro das Forças Armadas a história que é contada para aqueles jovens militares da nova geração é uma história distante da verdade. É bom que as pessoas saibam, ao menos, que houve tortura e violação de direitos. Mas o quadro é muito mais dramático que isso.

ARTEFATO: Como você tomou consciência do assunto?

MATHEUS LEITÃO: Eu lembro que tinha 12 anos quando meu pai contou que ele e minha mãe tinham sido presos. Isso me marcou muito. Eu devia estar na 6ª série (7º ano atual) e a partir daquele momento eu queria saber tudo sobre o tema, inclusive no colégio. Eu pedia informações para os professores no colégio, quando eles falavam sobre o assunto eu prestava bastante atenção, lia todos os materiais, no final da aula ia tirar dúvidas e fazer questionamentos. Às vezes eu chegava a contar para os meus professores que meus pais tinham sido presos e que isso me deixou curioso. Apesar de eu já ser um estudante com 12 anos, eu me lembro de ficar sabendo disso dentro de casa.

ARTEFATO: O que te chamou a atenção a cada relato ou história que ouvia?

MATHEUS LEITÃO: Era sobre o contexto de que houve violação de direitos humanos e que as pessoas eram presas só porque discordavam. No caso dos meus pais, eles eram muito jovens, tinham 19 e 22 anos na época. E eles nunca pegaram em armas, apenas faziam reuniões, panfletavam, discordavam e faziam greves. Acredito que as mais importantes informações eu fui buscar com meus professores ao longo dos anos. E aí eu voltava com mais questionamentos para os meus pais à medida que eu ia tomando mais conhecimento sobre o assunto.

ARTEFATO: Como vê pedidos da volta do regime militar?

MATHEUS LEITÃO: Estamos passando por uma crise política muito grave, que tem tirado a esperança das pessoas na democracia, nos valores democráticos, talvez. E isso me mostra que democracia também tem falha, mas esse é o melhor sistema que a gente encontrou. Talvez as pessoas que estejam pedindo a volta dos militares não tenham todas as informações sobre o período, porque se eles tivessem, talvez não pedissem isso.

ARTEFATO: Em meio às pesquisas, o que constatou sobre as ditaduras?

MATHEUS LEITÃO: As ditaduras são os regimes mais corruptos que há até porque não existe nenhuma forma de controle. O cara que está no poder faz o que bem entende. Não é como a democracia. Claro, ela tem suas falhas, mas ela é a melhor solução. É continuar escolhendo nossos representantes e vendo quais são os melhores, depurando ao longo dos anos por meio do voto. Fazendo o sistema melhorar com o tempo. A democracia é lenta, mas ela é o melhor sistema. Outro ponto positivo do nosso sistema [a democracia] é que todos têm voz. O cara de direita tem voz, o comunista também tem e o centrista também. O meu livro parte de uma narrativa familiar, mas ele tenta também captar o retrato de uma época.

ARTEFATO: Ao ler seu livro, a sensação é de uma aula de jornalismo também. Foi essa a intenção?

MATHEUS LEITÃO: Partir de uma história familiar traz um componente especial pro livro. Essa questão do emocional, do meu componente, emocionou é algo que agradou muita gente e à crítica também. Eu também uso as técnicas do auto-jornalismo, que é justamente o componente emocional contando que você seja sincero com os sentimentos. Eu mostro e vou contando e isso traz relatos sobre o período e, inclusive, sobre as situações absurdas, as arbitrariedades do regime. O livro ajuda a montar o quebra-cabeça do que foi aquela época. O livro tenta fazer o retrato preciso da época e ajuda a compreender o que ocorreu no Brasil no regime militar.

Relatos históricos

A ditadura militar, que acabou oficialmente em 1985, mas ainda inspira filmes, livros, novelas, músicas, séries e minisséries, assim como peças teatrais que a exemplo de um quebra-cabeças montam uma das faces mais cruéis já vividas no país. Escolas e universidades também têm um papel fundamental nesse processo principalmente no momento de polêmicas e incertezas políticas, debater o assunto e trazer à tona fatos nem sempre presentes na memória são fundamentais para compreender o Brasil e observar erros que não podem ser repetidos. Utilizar músicas, filmes e livros é uma maneira de envolver-se com o tema.

A seguir, uma breve seleção de alternativas para quem quer ter acesso a parte da história dramática do país.  

Filmes

O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (2006)

Direção: CaoHamburger

Quando seus pais tiram férias inesperadas, Mauro um garoto de 12 anos vai morar com seu avô. Sem saber que na verdade seus pais, militantes de esquerda estavam fugindo dos militares. Seu avô enfrenta problemas fazendo com que Mauro tenha que morar com o vizinho judeu, aguardando o retorno de seus pais.

Zuzu Angel (2006)

Direção: Sergio Rezende

Zuzu Angel uma estilista famosa tem seu filho preso pelos militares, no Rio de Janeiro. Stuart, estudante de economia, ingressou na luta armada contra os militares. Ela não consegue autorização para realizar uma visita e recebe uma carta dizendo que estava morto. A estilista passou a vida tentando localizar o corpo do filho e morreu em um acidente de carro. O túnel que ela estava ganhou nome Zuzu Angel em sua homenagem, no Rio.

O Dia que Durou 21 Anos (2012)

Direção: Camilo Tavares

Documentário retrata a participação dos Estados Unidos dentro do regime militar brasileiro. Com documentos e arquivos sigilosos revela que o país planejava invadir o Brasil. Documentos e gravações originais da época como o governo dos Estados Unidos influenciaram o golpe de Estado no Brasil em 1964. O filme destaca a participação da CIA e da própria Casa Branca na ação militar que deu início a ditadura.

Novelas e série

Amor e Revolução (2011)

SBT

Direção: Reynaldo Boury

Maria é líder de um grupo de movimento estudantil e militante durante o golpe em 1964, quando se apaixona por um militar, gerando um amor impossível. A novela tinha depoimentos reais de pessoas que viveram durante o período, no final de cada episódio.

Magnífica 70 (2015)

HBO

Direção: Cláudio Torres

Retrata produtores de pornochanchada tentado driblar toda a censura da época para continuar criando filmes de sucesso. A série já está em sua terceira temporada.

Os Dias Eram Assim (2017)

Rede Globo

Direção: Carlos Araújo

Começa com o fim da Copa do Mundo de 1970 em que o Brasil é vitorioso. Com o advento da ditadura militar, a novela retrata vários acontecimentos do golpe, chegando até as diretas já.

Livros

O Golpe de 64 (2014)

Oscar Pilagallo e Rafael Campos Rocha

Editora Três Estrelas

A história da ditadura militar é contada em forma de quadrinhos. Reconstituindo o acontecimento que durou 21 anos.

Coleção Ditadura (2016)

Elio Gaspari

Editora Intríseca

Série composta por cinco livros que abordam o golpe militar. O jornalista, que realizou uma pesquisa extensa sobre o tema, conseguindo documentos inéditos.

Em nome dos pais (2017)

Matheus Leitão

Editora Intríseca

Movido pela curiosidade de compreender o passado, o jornalista passou a recolher retalhos de uma história dolorosa, que se iniciou em 1972, no Espírito Santo.

Foto: Sérgio Lima