Amamentar: um direito de todas

Mães driblam olhares e tabus pelo aleitamento em locais públicos

Karyne Nogueira

Daniele Naiana Nazario da Silva, 28 anos, estudante de Publicidade e Propaganda da Universidade Católica de Brasília (UCB), já sofreu com os olhares recriminatórios e críticos enquanto amamentava a filha Giovana Matias Nazario, 3 anos. Nada mudou com o caçula Felipe, que ainda é um bebê. Os casos de constrangimentos vivenciados por Daniele são mais comuns do que se imagina.

Amamentar em público virou uma grande polêmica justamente porque muitas mães se cansaram das reações de reprovação. Em 2013, após uma mãe ter sido orientada a não o amamentar o filho em público em uma unidade do Sesc de São Paulo, houve protestos e campanhas na internet: “mamaços” – encontros para amamentar em público – foram organizados.

Dois anos depois, o então prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) sancionou uma lei que garante a prática do aleitamento em qualquer local de uso coletivo, público ou privado, prevendo uma multa no valor de R$ 500 para o estabelecimento que proibir o ato.

No Senado, tramita o Projeto de Lei n° 514 de 2015 de autoria da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) que criminaliza a violação da amamentação em público e determina espaços de amamentação ou fraldários como uma opção. “Eu diria que é uma daquelas leis que a gente nem gostaria que existissem pois são feitas para garantir algo que é óbvio, em benefício tanto da mulher que amamenta quanto da criança que é amamentada”, afirmou a senadora ao Artefato.

Reprovação

A universitária Daniele Silva se lembra como se fosse hoje o que viveu com a filha Giovana. “A primeira vez que amamentei em público foi em uma agência bancária, não havia um lugar mais reservado e a Giovana não mamava há horas”, contou. “Puxei um paninho da bolsa e cobri até o rostinho dela. Foi um malabarismo só para não deixar ninguém ver nada”, disse.

A auxiliar de laboratório Débora Cristina Melo Araújo Moreira, 21 anos, foi orientada a não amamentar a filha Manuela, 2 meses, durante a missa. Após tentar acalmar a bebê que estava com dez dias, ela resolveu amamentar até que ouviu de uma mulher a seguinte recomendação: “Não é melhor fazer isso lá fora?”.

Amor

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde incentivam o aleitamento materno. O bebê, alimentado com leite materno recebe nutrientes, como sais minerais e anticorpos essenciais para o desenvolvimento dos primeiros meses de vida. A mãe com a amamentação diminui os riscos em relação ao câncer de útero e ovário, reduzindo também as chances contra a anemia e hemorragias durante o pós-parto.

Maíra Domingues Bernardes Silva, enfermeira pediátrica do Banco de Leite Humano do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), disse que a amamentação é muito mais que um ato de alimentar.

“O aleitamento também traz benefícios no âmbito psicológico, com o estabelecimento do vínculo entre mãe e bebê que favorecerá o desenvolvimento físico, cognitivo e afetivo da criança”, afirmou a enfermeira.

Tabu 

A exposição do seio em uma situação de intimidade com um bebê, em lugares públicos, pode despertar sentimentos ambíguos em muitas pessoas. De acordo com Giovana Acacia Tempesta,, doutora em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (UnB), a sociedade possui diferentes reações com relação ao corpo feminino, a exibição da mama durante o aleitamento é diferente da exposição do corpo da mulher em uma propaganda de cerveja por exemplo.

“Este contraste simples mostra que a causa do constrangimento não é a exposição de uma parte do corpo feminino em si, mas sim o contexto social que dá visibilidade a uma relação singular, protagonizada pela mulher”, afirmou a antropóloga.

Existe também o processo de formação cultural, que apesar das mudanças sociais, ainda é baseada em uma sociedade patriarcal. “Trazer para o espaço público uma atividade que deveria ser realizada no espaço doméstico soa como uma ofensa”, assegurou Tempesta.

Foto: Tatiana Castro