A luta é pro-girls, não anti-boys

Patrícia Nadir

A representação do papel das mulheres na sociedade é uma discussão recorrente no cinema. Assim como nas demais instâncias sociais, o feminino nos enredos da sétima arte é marcado por uma lógica opressora, que coloca a mulher subjugada a uma condição passiva, como ser feito para servir, sempre numa circunstância de inferioridade. E essa premissa aparece seja qual for o gênero, até mesmo nos chamados “filmes de princesa”.

Mas eis que o momento é de mudanças no coletivo, o que também reflete no mundo dos faz de conta. Hoje há uma nova leva de filmes na contramão da fórmula tradicional das animações: donzelas em perigo, vestidos enormes, castelos e príncipes encantados prontos para salvá-las são passado.

A ressignificação da imagem das mulheres está refletindo cada vez mais no mundo das telonas. Atualmente são crescentes produções que acompanham os debates da contemporaneidade, como é o caso de Valente (2012), filme sobre uma princesa que busca independência e subverte as regras. A produção da Pixar, empresa de animação comprada pela Disney em 2006, conta com um roteiro original escrito por BrendaChapman, que também assina a direção.

Na trama, Merida, desde pequena, gosta de praticar tiro ao alvo. Quando cresce, ela inveja a liberdade de seus irmãos meninos, já que, como princesa, ela precisa aprender a ser como sua mãe: formosa, delicada e feminina. A história foca, principalmente, na relação entre a protagonista e sua mãe Elinor. A aposta do filme é na ausência de interesse amoroso para a princesa. Tudo que a personagem quer é fazer o próprio caminho livremente. Ela foge completamente do estereótipo da princesa meiga e delicada à espera do príncipe.

Mas, mesmo com esse pano de fundo moderno e admirável, o filme nos convida a refletir sobre um ponto importante em debates sobre igualdade de gênero. Um dos obstáculos que a personagem principal tem de vencer é a obrigação do casamento com o primogênito de um dos clãs vizinhos. Vários pretendes visitam o reino de Merida para disputar a mão da bela. É promovido um torneio em que ela decide também lutar pelo direito de não casar com nenhum deles. É nessa hora que a produção peca.

Os primogênitos dos clãs vizinhos são retratados de uma forma tão peculiar que deixa o expectador mais atento com uma pulga atrás da orelha: um deles dá indicações de não ser inteligente. Outro mistura as palavras quando fala, o que o impede de ser compreendido. O último é o convencido com um ego exageradamente inflamado. Por que isso, produção? O fato de o filme retratar uma jovem determinada e independente tem que estar associado a uma representação masculina imbecilizada?

Depois de séculos de subjugação, marcada por um machismo consagrado socialmente, devemos questionar se vale a pena defender representações femininas em pé de superioridade.Não faríamos melhor se lutássemos por espaços igualitários? Assim como a jornalista Peggy Orenstein defende que “pro-girls” não é o equivalente a “anti-boys”.  Pelo contrário, seguir esse segundo caminho “não é progresso, é vingança”.

*Imagem da personagem Merida (Valente, 2012) (Crédito: Reprodução/Internet))