Pedocracia: quem obedece são os pais

Uma geração de crianças autoritárias e adultos subservientes

Aline Cabral

A cena se repete em qualquer hora do dia ou da noite: filhos, ainda crianças, que dão ordens aos pais. E o pior: são obedecidos. Raiana Carla Matte, auxiliar administrativo, 27 anos, mãe de Matheus, 5, admite que sofre com a “pressão” do filho e o temperamento dele. Segundo a mãe, o menino “não gosta” de obedecer e “tem um gênio forte”, pois quer que a opinião dele prevaleça. “Meu filho é muito teimoso, ele sempre tenta mandar em mim da forma dele. Quando quer as coisas, normalmente chora, faz birra ou para de falar comigo até conseguir o que quer ou esquecer o que pediu”, contou.

“Normalmente faço as vontades do meu filho, não porque ele chora, mas por culpa, pois trabalho o dia todo e normalmente quando chego em casa ele já está quase dormindo”, contou. “Não sei se preguiça é a palavra certa, mas às vezes estou tão cansada e estressada do trabalho, que quando o Matheus quer alguma coisa, como mexer no celular, eu atendo o que ele quer, só para não chorar e me estressar ainda mais”, relatou a mãe do Matheus.

Preocupada com esse tipo de comportamento, a psicanalista Marcia Neder, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa de Psicanálise e Educação da USP, resolveu pesquisar o tema e acabou batizando a situação de “pedocracia”. Termo que, segundo ela, significa ditadura da criança. É a cultura que se organiza em torno da criança, criada como rei ou rainha, o centro do mundo, em que tudo que é desejado, é também realizado.

Antônio Eraldo Pereira de Sousa, policial militar, 40 anos, pai de Miguel Sousa, 5, e Luísa Sousa, 4, que também passa por situação semelhante à de Raiana Matte. “Na maioria das vezes meus filhos não me obedecem, principalmente quando envolve algo que eles querem muito e eu não dou ou quando não deixo fazerem algo, aí tem birra e choram muito”, disse Antônio de Sousa.

A angústia de Antônio Sousa pode ser resumida em um episódio recente: “Uma história sobre isso envolve o meu filho Miguel, que estava de castigo por ter aprontado na escola, por isso eu passei a não levar ele para passear comigo ou jogar bola. Um dia ele fez muita birra, me estressei e acabei levando ele para o futebol em um sábado, com a condição de que ele passaria a se comportar na escola”.

Inversão

Para a psicanalista Marcia Neder, os papéis estão se invertendo e os pais deixam suas vidas girarem ao redor dos filhos. “Os adultos passam a viver mais em função do desejo de ser amado pelos filhos do que aquele ao qual eram habituados anos antes, de serem obedecidos e respeitados, hoje em dia é mais valorizado ser amado, aprovado pela criança”, analisou.

Segundo a psicanalista, o comportamento dos filhos é reforçado pelos pais. Ela relata o que observou em uma creche, quando um pai não aceitou as regras da instituição. “Meu filho vai usar celular dentro da sala de aula sim porque é meu filho”, contou ela, acrescentando que: “Não estamos falando só de crianças, mas também de adultos que exigem para seus filhos, tratamentos especiais”.

Culpa

A psicóloga e professora Ângela Uchoa Branco, psicóloga e professora, do Instituto de Psicologia da UnB, atribui o comportamento à culpa dos pais pela falta de tempo e o excesso de atividades que têm. “Muitas vezes os pais se sentem culpados por não estarem tão presentes, e acabam achando que uma maneira de compensar isso é fazendo todas as vontades dos filhos”, disse.

Para a especialista, o impacto desse tipo de comportamento pode ser bastante grave no futuro. “Os filhos terão dificuldades de conviver, cooperar e negociar com as pessoas em geral, seja colegas ou adultos. Crianças e adolescentes precisam de limites para o seu próprio bem, e precisam aprender a se colocar no lugar dos outros, a entender cada situação e, sobretudo, a cooperar com as pessoas”, concluiu.

A psicanalista Marcia Neder faz um alerta aos pais: “Quando você valoriza ao extremo ser amado pela criança, você deixa de exigir o que você precisa exigir e passa a aceitar e adotar como norma nessa relação, entre pais e filhos a permissividade, o permitir, daí é birra, manha, o que pode afetar a criança no futuro”.

Foto: Matheus Nascimento