Enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, eles existem

A desvalorização dos profissionais que atuam no ambiente hospitalar

Adriana Botelho e Maria Isabel Felix

Tensos pelas demandas diárias do trabalho, correndo de um emprego para outro na tentativa de obter melhor renda e ainda desvalorizados no seu cotidiano, os enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem estão entre as profissões mais estressantes da saúde, segundo o Health Education Authority – um órgão público do Reino Unido que apoia para a área de saúde, como as atividades mais estressantes do ambiente hospitalar – ao lado de assistentes sociais e médicos.

Pesquisa intitulada “Perfil da Enfermagem no Brasil”, feita pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostra que há um alto percentual de pessoas (13,3%) na condição de subsalário cuja renda mensal é de no máximo R$ 1.000. A grande maioria dos trabalhadores (23,7%) recebe, em média, de R$ 1.000 a R$ 3.000.

O estudo revela ainda que há excesso de trabalho e poucas vagas de emprego. Os profissionais se queixam também de violência psicológica e discriminação de gênero.

Cleidson de Sá Alves, 38 anos e 20 anos de carreira em hospitais públicos e privados, disse que a pesquisa confirma o que observa no dia a dia. “O mercado teve mudanças substanciais em virtude de novos cursos em novos locais, porém são poucos hospitais para abranger os novos formandos”, afirmou.

Desigualdade

Como se já não bastasse, dentro do ambiente hospitalar, a equipe de enfermagem acaba, muitas vezes, sendo posta de lado em detrimento da figura hipervalorizada do médico. Isso fica claro na diferença de tratamento recebida entre a área profissional de cada um.

A estudante do 8º semestre de enfermagem da UnB, Maruska Alves, 20 anos, conta o que viveu no estágio. “Os próprios pacientes nos chamam de doutores. Eles acham que todo mundo que está dentro do hospital é médico”, disse. “Os professores falam muito que devemos estudar e se empoderar da nossa profissão, para que não sejamos subordinados e façamos as coisas que terceiros nos mandam.”

Porém, tanto esforço nem sempre encontra resultados, segundo a técnica de enfermagem, Maria Silva*, de 34 anos, que trabalha em um hospital privado e queixa-se da pressão exercida pelos médicos. “Eu só recebo ordens, é como se achassem que não sei realizar o meu trabalho”, relatou.

*O nome da técnica de enfermagem é fictício a pedido dela.

Invisíveis

Com cerca de 50 mil profissionais registrados no Distrito Federal, segundo dados do Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF), a enfermagem passa por uma constante desvalorização de trabalhadores de nível profissional, técnico e auxiliar.

“Nós cuidamos da saúde dos outros, mas ninguém se preocupa com a nossa”, observou o tesoureiro do Coren, Adriano Araújo, que já chegou a dormir no chão durante o horário de descanso por falta de local adequado. Há mais de 16 anos no mercado de trabalho, o conselheiro suplente do Coren-DF, Ricardo Cristiano da Silva, acrescenta: “A parte financeira é o grande calcanhar de Aquiles da área”.

Com pesar, Ricardo Silva diz que costuma ouvir frases do tipo: ‘enfermeiro não faz falta alguma nesta instituição’. “Por 24 horas, quem cuida do paciente somos nós. Então, se não fosse a enfermagem, quem estaria lá? ”, questionou.

Propostas

Após campanha intensa dos enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, a Câmara Legislativa aprovou a lei do descanso digno 5.885/2017. Nela, fica estabelecido que todas as instituições de saúde têm de dispor de locais arejados e adequados para que os profissionais de plantão consigam descansar o período necessário.

Também está em tramitação, na Câmara Legislativa, uma proposta que define a fixação de um piso salarial. Atualmente o piso é definido em convenção coletiva de trabalho das categorias sob coordenação do Coren-DF.

Os auxiliares conseguem receber, no máximo, R$ 1.080 para 44 horas semanais, os técnicos R$ 1.130 também esta jornada e os enfermeiros R$ 1.752,28.

Na sua tese de doutorado, a pesquisadora Itala Maria Silva afirma que, em hospitais gerais, o trabalho que deveria ocorrer em sintonia, acaba restrito a um universo que valoriza a hegemonia média. Porém, isso não ocorre.

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