Elxs buscam espaço no mercado

Transgêneros que vencem a discriminação e conquistam seu espaço

Karyne Santos

A discriminação e o preconceito rondam a realidade dos transexuais que buscam trabalho no país, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% deles e delas ainda buscam a prostituição como alternativa de sobrevivência. A realidade das pessoas, que não se reconhecem com o sexo de nascimento, é uma angústia diária. Mas muitos e muitas vencem as barreiras e colocam-se como referência nas suas áreas de atuação: comércio e gastronomia, por exemplo.

O Artefato foi atrás de histórias de profissionais bem-sucedidos que venceram as dificuldades e são respeitados. Thales e Joana são dois desses profissionais, mas reconhecem ainda há um longo caminho a percorrer até que a comunidade trans seja respeitada e reconhecida.

Há três meses, antes de fazer a resignação de gênero, pois nasceu com o corpo feminino com o qual jamais se reconheceu, Thales Luis Alves dos Anjos, de 24 anos, definia a vida assim: forma: feche os olhos e imagine um espelho diante de si. Imediatamente reconhece a imagem que é refletida, porém, ao abrir os olhos, é atingido por uma surpresa: não é você que está ali.

Homem transgênero, bancário e empreendedor, Thales emergiu das estatísticas negativas que englobam a comunidade transexual. Situação semelhante vive uma morena de cabelos longos e traços delicados, Joana Fernandes Andrade é uma jovem trans que há quatro anos trabalha como consultora de jeans em uma loja de departamento.

Descoberta

 Aos 15, após ser aprovado em três faculdades, Thales optou por psicologia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). No meio acadêmico, encontrou um núcleo de gênero e conheceu o trabalho do, então professor do curso de Serviço Social da Universidade Católica de Brasília (UCB), Carlos Alberto Santos de Paulo.

Durante esse período, começou a fazer shows em bares pela cidade e economizou dinheiro. “Na época, cheguei a enviar mais de 600 currículos para todos os tipos de vagas de emprego, de auxiliar de carregamento a estagiário em psicologia, mas nunca fui contratado”, contou.

Aprovado para o cargo de escriturário em um banco público, Thales se viu finalmente no mercado de trabalho. “Eu fiquei desesperado porque não sabia como iria ser o reflexo no banco, mas mesmo assim, dei a cara a tapa. Não dava mais para permanecer com aquele corpo. Ou eu viveria sendo eu mesmo ou não queria mais viver”, disse.

Thales tomou coragem, fez o tratamento e ainda partiu para um segundo curso superior: gastronomia. Segundo ele, inspirado no modelo francês de empreendimento gastronômico, o restaurante secreto. Neste modelo gastronômico, um jantar completo é oferecido para seis convidados sorteados.

“Reformei meu apartamento e comecei a fazer os jantares, os convidados gostaram da proposta e agora já sou contratado para levar o restaurante secreto para eventos”, disse o chef de cozinha, que tem 600 pessoas na lista de espera.

Impasse

Quem vê Joana Andrade, desenvolta e feliz, gerenciando a página no Facebook, I AmTrans, voltada para o público trans, com mais de 34 mil curtidas, não imagina o que ela passou até conseguir assumir-se e transformar-se. Aos 20 anos de idade, Joana saiu do interior da Paraíba e seguiu rumo ao Rio de Janeiro em busca de novas oportunidades.

No Rio, a consultora partiu para a terapia hormonal sozinha, sem acompanhamento endocrinológico – quando são usados três tipos de medicamentos mais os complementos vitamínicos para promover as mudanças desejadas do organismo e aparência masculinos para o feminino.

Passando por sua transição e tendo dificuldades para conseguir um emprego, Joana encarou um impasse: retroceder na sua resignação para ser contratada.

“Tive de cortar meu cabelo e me apresentar como um homem para conseguir a vaga na loja. Foi um passo em vão na minha transição e ainda precisei abrir mão da minha vaidade como mulher”, disse Joana que depois contou ao seu gerente sobre sua identidade. A revelação ao chefe não mudou

Tratamento

 O Coordenador de Diversidades, órgão responsável na Subsecretaria de Políticas de Direitos Humanos, da Secretaria-Adjunta de Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (SEDESTMIDH) do governo federal, Flávio Brebis, admitiu que há deficiências no tratamento oficial sobre o tema.

“A população trans é uma das mais vulneráveis, quando se trata da garantia de direitos e, na maioria das vezes, o Estado não oferece condições para a capacitação, informação e formação para o empreendedorismo voltada a população de travestis e transexuais”, disse Brebis.

Para o coordenador, o ideal é que houvesse mais parcerias para a contratação de pessoas trans no mercado de trabalho formal, mas não no momento de tais mecanismos para esse direito seja efetivado a curto prazo.

Mestranda em Comunicação, Taya Carneiro, ativista transexual, pesquisa a empregabilidade de pessoas trans no DF. Segundo ela, é preciso atualizar os dados para verificar de fato como está a empregabilidade de homens e mulheres transgêneros na capital.

“Acredito que a defasagem é motivada especialmente pela situação de marginalização de pessoas trans na sociedade e pelo preconceito. Como o ensino sobre identidade de gênero não chega nas escolas e universidades, os pesquisadores acabam por acreditar que não é possível fazer esse tipo de análise”, argumentou Taya.

Segundo a pesquisadora, a falta de interesse do governo em fazer esse tipo de pesquisa leva a um certo descaso sobre os dados.

Dados

 A Rede Nacional de Pessoas Trans – Brasil (Rede Trans), organização que lida com a violência contra a comunidade transgênera, informa que a transfobia, discriminação contra travestis e transexuais, faz vítimas diariamente. Até julho deste ano, foram contabilizados 114 homicídios e 72 situações de violação dos direitos humanos.

As vítimas, em geral, são alvos de agressões violentas e crueldade. Porém, o preconceito e a invisibilidade das pessoas transexuais não só ocultam os crimes contra a vida, mas também afetam diretamente a falta de espaço no mercado de trabalho.

 SERVIÇO:

*Transempregos: É um site que divulga vagas de empregos para o público transgêneros. É administrado pela empresária e advogada trans Márcia Rocha. Há mais de 1 mil currículos cadastrados.

Endereço do site: transemprego.com.br

*Ambulatório transexual no Distrito Federal: primeiro especializado no tratamento de transexuais presta serviços nas áreas de endocrinologia, enfermagem, psicologia, psiquiatria e serviço social.

Endereço: Hospital Dia na 508/509 Sul

Horário: De segunda a sexta-feira, das 7h às 12h e das 14h às 16h.

Foto: Mariane Alves