Do abandono ao recomeço com amor

Lar Maria de Nazaré, em Taguatinga, auxilia gestantes e crianças

Yasmin Cruz e Marcos Prudencio

Mais do que um trabalho social, o Lar Maria de Nazaré se transformou em uma oportunidade única para grávidas sem condições financeiras e abandonadas pelas famílias. No abrigo, mantido pelo Centro Espírita Auta de Souza, elas recebem suporte financeiro e emocional para criar os filhos por um ano, após o parto.  Em mais de 25 anos, mais de mil gestantes passaram pelo local.

Há 20 anos, Gilvanete Diniz Nascimento, 49 anos, chegou à instituição em busca de apoio, hoje ela e o filho é que ajudam mães e bebês que se vêem esquecidos pela sorte.

“Eu trabalho em uma casa voluntária, faço enxoval. O Lar Maria de Nazaré significa esperança e recomeço. Aprendi a respeitar e confraternizar, o que é o amor. A sociedade é minha casa agora. ”, contou.

O coordenador do Centro Espírita Auta de Souza, Elias Santos, 32 anos, emociona-se ao falar do trabalho desenvolvido por uma equipe de voluntários. Segundo ele, a instituição não só vive como põe em prática a caridade.

No período em que as mães moram no lar, recebem auxilio para buscar emprego e formas para se sustentarem no futuro, além de serem inseridas novamente na comunidade. “Recebemos gestantes necessitadas de abrigo e atenção”, resumiu ele.

Lar doce lar

Nas paredes do edifício, estão diversas citações, entre elas, uma essencial chama a atenção: “Minha mãe, lembro-te mãe revendo a nossa casa, o pequeno jardim, o poço, a horta, o vento brando que transpunha a porta, afagando o fogão de lenha em brasa”.

Para as mães que se encontram no lar, são oferecidas oficinas para ensino de atividades que podem render retorno financeiro, como crochê, costura, tapeçaria, pintura, tricô e bordados. Paralelamente, há palestras sobre a importância para uma gestação saudável e a prática de auxílio mútuo.

Exclusão social

De acordo com Sociedade de Divulgação Espírita, muitas grávidas chegam ao local com relatos de agressão dos companheiros e exclusão pela família. Há, ainda, casos de moradoras de rua, que são acolhidas, recebem acompanhamento de pré-natal, psicológico e de clínica geral, trabalho feito por pessoas voluntárias. Elas recebem alimentação e ganham o enxoval.

Para morar no local, é preciso respeitar regras: horário para sair e voltar.  Nem todas as mães respeitam ou aceitam as normas. Ao ingressarem no lar, elas assinam um termo de responsabilidade, e se saírem sem comunicar ou não informar onde se encontram, acabam por receber advertência. Se insistirem, são convidadas a migrar para outras casas de acolhimento.

Futuro

Sentada no sofá da recepção da Sociedade de Divulgação Espírita Auta de Souza, Bruna Gabriele Souza, 18 anos, grávida de 9 meses, parece tranqüila. Quando começa a falar, conta como encontrou o Lar Maria de Nazaré, por meio do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) e que está no local desde fevereiro, e fala do futuro para sua filha que vai se chamar Emily. A história dela não é diferente de tantas jovens.

“Assim que fiquei grávida fui morar com um amigo meu, em Águas Claras, onde fiquei por 15 dias. Lá tinha muito acesso a droga. Eu saí de lá e procurei me tratar, onde fui ao psicólogo e depois na assistente social e acabei vindo para o Lar Maria de Nazaré”.

Feliz, Bruna disse que gosta muito do lar, que ganhou o enxoval e vários cursos de evangelização. De parentes, em Brasília, há apenas sua mãe e sua irmã mais nova de seis anos. Dentre idas e vindas, ela foi à única que restou até agora. “Aqui as mães têm certeza e se sentem seguras, além de estarem preparadas para a vida que as aguarda, para o trabalho e para um futuro para nossos bebês”, observou.

Segundo Bruna, foi boa aluna no colégio, mas não concluiu o ensino médio e abandonou os estudos. Porém, planeja em breve voltar à escola e preparar-se para o ensino superior. “Meu plano é entrar em uma faculdade administração a distância. Arranjar uma creche para a Emily e fazer um estágio enquanto ela estiver na creche, aqui mesmo em Brasília”, disse.

Bruna nasceu na cidade de Teresina (PI), não conheceu o pai e sua mãe trabalhava como doméstica em uma casa onde a jovem passou a infância morando e brincando até os 7 anos de idade. Morou com os avós, amigos, usuários de drogas e conheceu o pai da filha dela, que descobriu ser casado. Foram cinco anos, nos quais ela passou por períodos de depressão e automutilação.

Bruna se irritou com o então “namorado”, não quis mais saber do homem, e recorreu à defensoria pública abriu um processo para pagamento de alimento gravídico contra o pai de Emily. Atualmente, o homem tem descontado do salário, mensalmente, uma porcentagem que vai direto para a conta dela.

Oportunidade

De voz mansa, mas firme a paraibana de Princesa Isabel, Gilvanete Diniz Nascimento, disse que veio para Brasília com planos de permanecer por aqui por três meses. Mas o tempo passou e houve a surpresa de uma gravidez. A gestação ocorreu no momento em que estava desempregada.

“Foi um susto eu estava saindo do meu emprego, estava feliz, mas não sabia o que fazer”, afirmou. Porém, uma amiga contou sobre a existência do Lar Maria de Nazaré, Gilvanete não acreditou: “Eu não acreditava, eu sempre trabalhei desde criança, trabalhava até escondida do meu pai, não acreditava que existia algo assim de apoio e tudo mais sem receber nada em troca”.

Envergonhada, a costureira disse que pensou que teria de se prostituir para pagar as despesas dela e do bebê. “Cheguei a achar que era até uma casa de prostituição, estava com medo”, admitiu.

Após o período em que morou no abrigo, Gilvanete foi contratada graças à ajuda da instituição e prometeu que daí para frente retribuiria o que recebeu há duas décadas. Atualmente é plantonista do lar, cuida das mães e dos bebês ao lado do filho, de 19 anos, que atua também como voluntário.

 Kardesismo

O espiritismo Kardecista se baseia em três princípios básicos: “Ciência, Filosofia e Religião”. A união desses termos forma o ponto central da crença, tendo o estudo e o conhecimento como fonte principal da teoria. Aliado aos princípios está a prática da caridade e do amor, por meio de trabalhos práticos e sociais.

A Sociedade de Divulgação Espirita Auta de Souza foi criada junto com esse trabalho de acolhimento da maternidade em meados de 1985, sendo construída a mão por grupos de jovens já espíritas na QSD 16 em Taguatinga Sul.

Para ajudar a instituição, entre em contato pelo telefone 61-33535612, ou pelo e-mail contato@autadesouza.com

Foto: Amanda de Castro