Couchsurfing: turismo de sofá

Aplicativo faz a ponte entre quem quer hospedar de graça e anfitriões

Luana Pontes

A proposta do couchsurfing – o “surf no sofá” – é simples e atraente: o interessado deve se inscrever no site específico, responder a um extenso formulário, em que fala sobre si, a viagem, hobbies e histórias de vida. É no formulário que se marca também a disponibilidade para receber alguém em sua casa e, caso positivo, você pode escrever uma descrição do seu “sofá”, que pode também ser um quarto de hóspedes. O mesmo ocorre com o hóspede que quer ser recebido. Porém, o que parece ser claro e sem complicações pode virar um problema.

A porta sanfonada e entreaberta na casa do anfitrião em Lisboa dava a visão quase total para dentro do banheiro onde a estudante, Kamila de Lara, brasileira, 21 anos, ficou hospedada no início deste ano. Foi sua primeira experiência fruto do aplicativo (app) Couchsurfing – conhecido como CS. Criado em 2004, o aplicativo propõe hospedagens colaborativas, sem cobranças financeiras apenas com trocas de cultura e experiência. Do inglês, o termo ‘coushsurfing’ significa ‘surfe de sofá’. A comunidade global conta com 12 milhões de pessoas e está disponível em mais de 200 mil cidades, segundo os organizadores.

Do Paraná, Kamila de Lara está em Portugal, desde janeiro, onde faz mestrado em Ciências Farmacêuticas. A estudante utilizou o aplicativo na tentativa de baratear e conhecer novas pessoas em suas viagens pela Europa. “Nós preenchemos um formulário com foto, gostos e experiências e assim podemos solicitar ou disponibilizar hospedagem”, explicou.

Na primeira tentativa de surfe para Lisboa, a paranaense esbarrou com alguns problemas. “O host (hospedeiro), um português de 38 anos, começou a chegar muito perto de mim e me passou a mão várias vezes”, descreveu. A estudante acrescentou ainda que a porta do banheiro não fechava. A segunda experiência foi em Londres, onde ficou na casa de um brasileiro, 42 anos, que começou a fazer comentários sobre a depilação íntima das gringas. A garota relata que o homem chegou a assediá-la.

Discriminação

Para o brasileiro Lucas Tovar, de 21 anos, a interação no app foi mais difícil. Os pedidos de hospedagem compartilhada para Sevilha, Lisboa, Porto e Amsterdã foram boa parte negados. “A maioria dava desculpas de que não estaria na cidade, isso quando respondiam” expressou.

A opção de colocar preferência por gênero chamou a atenção de Lucas Tovar. “Grande parte dos anfitriões eram do sexo masculino e só aceitavam mulheres”, frisou o carioca. Durante o mesmo período que procurava por estadia na plataforma, algumas de suas colegas tentaram para os mesmos lugares e conseguiram. “Para elas, as solicitações eram aceitas quase que instantaneamente. ” Segundo ele, a proposta do app é válida e inovadora. “O problema é existirem pessoas mal-intencionadas e que querem mudar o conceito de colaborativo.”

Kamila Freitas, 19 anos, estudante de arquitetura e urbanismo da Universidade Católica de Brasília (UCB), também tentou algumas hospedagens via app e surpreendeu-se com um alemão, que aceitou recebê-la desde que dividissem a mesma cama. “Cancelei o convite na hora e procurei um hostel que me desse mais segurança”, disse.  Na busca por host em Paris, a estudante passou por outra situação desagradável. O responsável pela hospedagem perguntou ainda pelo app se não o achava velho e sugeriu que tivessem algo a mais: “Fiquei assustada e recusei a hospegadem”.

Outro lado

“Já recebi mais de 100 hóspedes de todos os cantos do mundo”, afirmou o português Pedro Brandão, 31 anos. Profissional da área de tecnologia e inovação, Brandão mora em Amsterdã e é anfitrião do Couchsurfing desde 2013. A sua primeira experiência foi quando recebeu dois hóspedes da Finlândia para conhecer Amsterdã. “O intuito do aplicativo não é apenas oferecer hospedagem gratuita. É preciso ter o mínimo de empatia”, reforçou o host.

Brandão disse não ter preferência por gênero nas hospedagens. Para ele, é indiferente o hóspede ser homem ou mulher, o difícil é organizar a agenda e dedicar tempo aos surfistas que passam pelo seu sofá. “Tento tirar pelo menos 30 minutos por dia para sentar, conversar e conhecer cada um deles”, disse.

A sergipana Ethe Costa, 29 anos, conheceu o aplicativo em 2009. A estudante de Biotecnologia Industrial recebe e faz surfes nos sofás. Segundo ela, não teve problema algum ao ser hóspede ou anfitriã. “São sempre pessoas que buscam compartilhar suas experiências de vida, viagens, religião e outros”, contou. A moça disse ter feitos laços de amizade para a vida toda por intermédio da comunidade deviajantes. .

Para não ter de contar apenas com a sorte, o soldado da Polícia Militar do Distrito Federal Bruno Erckmam reforçou que é preciso ter cuidado e precaução. Erckmam orientou: o ideal é avaliar o perfil dos hóspedes e se resguardar contra possíveis situações desagradáveis. “Anotar os dados e avisar familiares sobre os hosts pode ajudar”, disse o militar. O policial lembrou ainda, que as vítimas devem procurar a delegacia mais próxima.

Inovação

 É necessário ir além do apoio ao aplicativo Couchsurfing, é preciso verificar se as empresas e companhias estão registradas nos órgãos reguladores. Tanta atenção é importante para evitar surpresas negativas e resguardar quem oferece sua casa e hóspedes. O professor doutor em administração da Universidade Católica de Brasília (UCB) Gilberto Josemin alerta que todo o serviço segue a legislação.

“É tudo regulamentado pelo código civil. E elas também estão sujeitas ao código do consumidor”, afirmou Josemin. Assim como o CS as startups – empresas e companhias que podem trazer serviços alternativos que substituam os convencionais. “Este é o caso das hospedagens compartilhadas”, ressaltou o professor.

 A Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), responsável pelo setor, informou, por meio de sua assessoria, que não é contra a atuação das plataformas como o Couchsurfing, mas fica em alerta. “Nós não temos controle das reservas e serviços online que são realizados pelos hóspedes”, disse Alexandra Mato, assessora de imprensa da empresa. “Temos preocupações com o conforto, disposição física do local e segurança dos hóspedes”.

Para ABIH, é fundamental criar uma maneira de regulamentar a utilização de aplicativos colaborativos. A Comissão Especial do Marco Regulatório da Economia Colaborativa no Congresso Nacional, que propõe a regulamentação dos serviços descentralizados que funcionem de maneira compartilhada, pode ser um desses instrumentos reguladores.

Foto: Rafaela Gonçalves