Buscar ajuda é sinal de força

Suicídio é a causa de morte de mais de 800 mil pessoas por ano

Rodrigo Neves

Encontrado morto em 20 de julho, aos 41 anos, o vocalista da banda norte-americana Linkin Park, Chester Bennington, enfrentava a depressão e dependência de álcool e drogas, problemas que podem levado a tirar a própria vida. As dificuldades de Chester não estão muito distantes da realidade de milhares de pessoas que lidam com situações parecidas diariamente.

Bennington conquistou uma carreira de sucesso, construiu uma família e garantiu sua estabilidade financeira. Mesmo assim, sua angústia venceu o entusiasmo pela vida. O artista faz parte de uma estatística dramática: 800 mil pessoas que morrem, por ano, em decorrência do suicídio – uma das principais causas de mortes entre jovens de 14 e 29 anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Geralmente, a pessoa que tenta se suicidar está em desespero porque não encontra nenhuma saída nem suporta mais o sofrimento repetido”, afirmou Alexandre Galvão, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB). “Na maioria das vezes as tentativas existem como alternativas para evitar um grande problema”.

Em geral, segundo especialistas, a pessoa que pensa em suicídio dá sinais, como o isolamento, irritação constante, variação de humor, uso excessivo de remédios, hipersonia ou insônia.

Desespero

A estudante A.S, de 20 anos, chegou a esse ato de desespero enquanto sofria com depressão e tinha várias manifestações identificadas como sinais de alerta. “Tudo que eu pensava era em acabar com a dor que existia dentro de mim e aquela parecia ser a única maneira de acabar com isso”, contou. “Por não ter procurado ajuda, eu me senti sem apoio de ninguém”, acrescentou ela, informando que foi assim até que a mãe descobriu e, desde então, passou a lhe dar apoio, o que a incentivou a procurar um tratamento com o qual segue até hoje.

Porém, não é sempre que a compreensão da família ocorre no primeiro momento. Casada com um pastor, E.A, de 39 anos, contou sobre o constrangimento que seu marido sentiu quando a encontrou após uma tentativa de suicídio. “Meu marido não queria ninguém soubesse. Ele teve uma vergonha muito grande de expressar isso. Foi um problema muito grande pra mim”, contou sobre a situação.

Para a família de E.A. compreender o que ocorria só foi possível depois da terapia. “Se a família não for envolvida, não tem solução. Era preciso aprender a lidar e como trabalhar isso comigo”, disse. “Ninguém pensa em ser um suicida. Quando você chega a fazer isso, você não calculou, não pensou. É quando você não vê mais escapatória. ”

Outro fator que trouxe complicações para E.A foi o julgamento por parte das pessoas do seu círculo religioso. “Por ser evangélica, as pessoas falavam que era falta de Deus, que eu não buscava, não confiava ou não conhecia Deus”, relatou. “Às vezes você precisa é do Deus que habita nas pessoas para falar que isso é normal, que isso é humano”.

Fator religioso

O psicólogo Vitor Barros Rego disse que o ideal seria incluir na nossa cultura temas sobre dificuldades e sofrimento mentais, assuntos que bem tratados colaboram para desenvolvimento de cada um de nós. Ele também alerta sobre o discurso religioso cercado de punição e crítica: “O fator religioso pesa bastante quando postulam que a pessoa que suicida terá punições em outro plano astral”.

Em seguida, o psicólogo acrescentou que: “Porém, muitos padres, pastores, pais de santo, tem acolhido seus seguidores no próprio reduto religioso de maneira menos julgadora e mais voltada para um problema de saúde. É uma mudança de postura muito importante, mesmo que não sejam agentes de saúde”.

Para Barros Rego, é preciso prestar atenção também na cobrança que cada um faz de si. “O problema é que temos um discurso positivista de que você só não é feliz, rico e profissional de sucesso porque não quer, tornando a pessoa que não alcança isso um fracassado”, ressaltou.

Prevenção

Pelos dados da Organização Mundial de Saúde, o Brasil tem a oitava maior taxa de suicídio do mundo. As razões apontadas vão desde a desigualdade social aos programas sociais frágeis, uma rede de saúde que não consegue absorver as demandas de tentativas de suicídio, além da violência física e psicológica naturalizada e as condições psicossociais de trabalho.

Alexandre Galvão, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB), disse que o primeiro passo para as pessoas poderem ajudar é compreender que depressão não tem relação com frescura ou manha. “Transtorno de humor são patologias severas em que a pessoa precisa de um tratamento especializado para isso”, disse ele, informando que há muitos casos associados ao transtorno manifestado de diferentes formas.

Há três anos, é promovida a campanha Setembro Amarelo cujo objetivo é prevenir e conscientizar a população sobre as faces do suicídio. Ao longo do mês haverá caminhadas, encontros e palestras para discussões sobre o tema.

O Centro de Valorização da Vida (CVV), associação sem fins lucrativos, fundada em 1962, está à frente do Setembro Amarelo. Porém, a tradição da instituição é nos atendimentos gratuitos por telefone, chat, e-mail e skype. São mais de 2 mil voluntários, em 18 estados e Distrito Federal, para prestar apoio emocional e preventivo ao suicídio para as pessoas que precisam e buscam conversar.

Voluntário no CVV, Gilson Aguiar disse que o trabalho consiste em “ouvir, respeitar e compreender o outro”: “São pessoas comuns movidas por boa vontade, que se propõem a compreender outras pessoas”, disse. Segundo ele, os atendentes têm outro perfil. “São consultores profissionais, como médicos, advogados, psicólogos, porém, dentro de seus quadros de plantonistas, atuando apenas como consultores”, afirmou.

SERVIÇO:

CVV – Centro de Valorização da Vida

Telefone: 141

Site: www.cvv.org.br

Foto: Laryssa Passos