Volta às aulas, sempre é tempo

Depois dos 30, muitos redescobrem a vocação, após emprego fixo, casamento e filhos

Guilherme Costa

Olhando para as fotos expostas na parede da sala, as semelhanças entre mãe e filha são nítidas. Além dos traços físicos e de um laço maternal, Adriana de Souza BrinckCerilo, 49 anos, e Anna Gabriella de Souza BrinckCerilo, de 21, também compartilham a paixão pelo curso de Direito. Para a filha, este sempre foi o projeto principal de carreira. Já para a mãe, é um amor recente.Bancária, casada há 24 anos, mãe de duas filhas, graduada em Geografia e com uma pós-graduação em seu currículo, Adriana se reinventou ao encarar novamente a sala de aula, queria manter-se ativa após a aposentadoria.

Com o diploma em mãos, Adriana já fala em prestar serviços de advocacia e abrir seu próprio escritório. Enquanto a mãe iniciava a segunda graduação, a filha concluía o Ensino Médio e preparava-se para o então temido vestibular. Certa de sua escolha, Anna sonhava com a carreira de promotora de Justiça. Quase cinco anos depois, as duas compartilharam o mesmo local de prova para o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Resultado: a mãe foi aprovada, já a filha…Não foi dessa vez que teve um final feliz.

Apesar do revés, as semelhanças entre mãe e filha continuam. As duas têm predileção pela área criminal. “É uma alegria muito grande ela ter a mesma percepção, o mesmo direcionamento, querer estudar, concluir o curso e atuar nesta área”, afirmou Adriana. Já a filha ainda estranha a situação como um todo: “É interessante dividir o mesmo sentimento de ir para a sala de aula, ter que encarar uma prova e um cartão de respostas com a minha mãe. De muitas coisas que temos em comum, o direito foi mais uma delas”, concluiu Anna.

Só no Brasil, são 224.835 alunos acima de 30 anos, segundo o  último Censo da Educação Superior realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). A maioria dos estudantes adultos vive em São Paulo. A pesquisa indicou, ainda, que o Brasil dispõe de 2.324 Instituições de Ensino Superior (IES) em mais de 33 mil cursos de Ensino Superior com uma oferta de cerca de 7 milhões de vagas todos os anos.

Determinada a não perder mais tempo, a recém-formada em medicina veterinária Raquel Florentino, 35 anos, tem uma história de luta e garra. Depois de consolidar-se como administradora em uma empresa de jogos, ela não quis virar refém da estabilidade e foi atrás de um sonho antigo. “Sempre tive vontade de fazer veterinária, mas como sempre trabalhei na área administrativa e tive oportunidade de emprego, acabei cursando Administração. Quando terminei a faculdade, vi que eu não queria trabalhar nessa área pelo resto da minha vida. Fiz o vestibular e acabei passando. Fui e fiz veterinária que era o que eu realmente queria”, disse.

No entanto, nem tudo foi tão fácil. Além do desafio de se voltar às aulas após anos fora de sala, a veterinária se submeteu a três vestibulares antes de ser aprovada. Dezesseis anos separaram o período em que concluiu o ensino médio até a conclusão do curso de medicina veterinária, mas nada é empecilho para Raquel, que já faz planos para montar o próprio consultório.

Foto de Capa: Guilherme Costa