Só por hoje

Narcóticos Anônimos, uma porta aberta para quem não vê saída

Karine Santos

“Funciona”, disse Tadeu Soares*, estudante de 20 anos, que há quase três frequenta o grupo Narcóticos Anônimos. “Limpo”, ou seja, sem envolvimento com drogas ilícitas durante esse tempo. Ele conta que, por curiosidade, embrenhou-se por esse mundo aos 12 anos. “Eu comecei a usar droga por curiosidade. Achei que ia ter novos amigos, que ia me envolver num ciclo de pessoas diferentes, achei que eu dominava as drogas. Usava de vez em quando, comecei com o álcool, evoluí. Fui usando outras até que chegou um momento que eu não tinha nenhum controle e as drogas que me controlavam. Queria usar todo dia e toda hora”, resumiu ele.

Depois de passar quatro meses em uma clínica e tentar a “fuga geográfica”, quando a dependente muda de cidade ou estado e até tentar parar sozinho, Tadeu acabou em uma reunião do Narcóticos Anônimos e fez o que é aconselhado a quem chega: frequentar 90 dias e 90 sessões. Atualmente está na manutenção diária da sua recuperação com a ajuda de amigos e companheiros que conheceu nesse período.

Pesquisa, realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em 2013, apontou que ao menos 28 milhões de pessoas têm alguém na família com problemas relacionados à dependência química. A estimativa é que apenas no Brasil há cerca de 8 milhões de dependentes químicos – 5,7% da população. O trabalho realizado por 1.500 grupos de Narcóticos Anônimos em atuação no país está entre as alternativas para reverter esse quadro.

Similar ao Alcoólicos Anônimos, fundado por volta de 1950, a Sociedade Narcóticos Anônimos (NA) também atua com base em 12 passos e 12 tradições. O NA está presente em 131 países e promove 58 mil reuniões por ano.             No Distrito Federal, há mais de 30 grupos do NA em atuação. No Narcóticos Anônimos, não há cobrança de taxas, a organização não tem ligação com nenhuma instituição política ou religiosa nem fins lucrativos e preserva o anonimato.

É um programa que auxilia dependentes químicos no esforço diário de se livrar da adicção ativa – dependência crônica de drogas, tabaco ou álcool que é incurável e exige tratamento -, sem julgamentos nem prognósticos. Nas reuniões, a mesma mensagem é transmitida: a dependência é uma doença e um adicto nunca estará curado, mas pode aprender a conviver com seu problema.

Psicóloga especialista em Saúde Mental Álcool e Drogas Yara Barbosa explica que a dependência química é uma doença de comportamento ainda muito condenada. “É um problema comportamental com um forte estigma sobre ela. Ela já está incluída nos manuais de classificação como uma doença. Mas a sociedade ainda a vê como falta de caráter e/ou fraqueza da pessoa que faz uso do álcool e outras drogas”, ressaltou.

Para Yara Barbosa, o Narcóticos Anônimos é um programa estruturado, que indica alguns caminhos e que funciona para algumas pessoas, pois conta com o suporte grupal, além de proporcionar inserção social e comunitária, a inclusão da família no tratamento e o suporte social durante o processo. A psicóloga destaca ainda que há uma equipe multidisciplinar que atua no trabalho de colaborar com o adicto – há situações que envolvem psicólogo e psiquiatra e numa perspectiva psicossocial inclui ainda outros profissionais como assistente social, enfermeiro, terapeuta ocupacional e pedagogo.

A psicóloga Alessandra Araújo afirma que a recuperação de um dependente químico não pode ser padrão, pois cada sujeito é único e sua história também. Medicação, terapia e atividade física podem auxiliar no processo de desintoxicação, além do apoio familiar ser fundamental.

NA

É padrão. Uma sala comum, cadeiras em sua volta. Na ponta uma mesa com a literatura do Narcóticos Anônimos (NA). Ao lado dela, há um coordenador, que inicia apresentando-se, informado há quanto tempo está limpo e, em seguida, os outros integrantes fazem o mesmo. Em pé e abraçados, é feita a oração da serenidade, o que dá início a mais uma reunião. Todos se tratam como companheiros, há as partilhas – quando cada um conta como está sua vida e o que passou antes de chegar ali.

Espontaneamente uma mulher (qual idade mais ou menos, descreva a aparência também), contou ter feito programas para manter seu consumo de drogas. Um homem, de aproximadamente 30 anos, confidenciou ter ficado preso, por roubo e assassinato, porque “fazia de tudo” para manter o vício. As histórias são muitas e é impossível não se emocionar: um homem visivelmente alegre contou que, pela primeira vez, comprou um presente para a sua mulher e que nunca tinha feito isso antes.

“Só por hoje” é uma expressão repetida por todos a cada momento porque para os que estão ali, o esforço é constante e o amanhã ninguém sabe. Nas paredes, cartazes com os 12 passos, as 12 tradições e os 12 conceitos de NA e também com o que o que o adicto deve evitar e procurar fazer para se manter em recuperação. Há, ainda, o papel do padrinho – uma pessoa que está “limpo” e que oferece suporte para o adicto em recuperação em momentos com risco de uma recaída.

*Nome fictício a pedido do entrevistado.

 

Foto de Capa: Sarah Abilleira Ponte |  Ponte en mi Piel