O ‘filé mignon’ das cervejas

Cervejas artesanais conquistam cada vez mais espaço no paladar do brasiliense

Ello Romanin

Rafael Procópio

Lagos artificiais, prédios políticos de estrutura modernista, umidade abaixo de 20%. Brasília é impar. Tão impar que, às vezes, seus fins de semana começam muitas vezes às quartas-feiras.  Na tentativa de apaziguar o ar desértico da capital, o brasiliense se rende à cerveja. Nas horas de lazer de muitos, a cervejinha é como aperitivo para as conversas e para os estreitamentos de laços. E se, essa cervejinha for artesanal, trazendo no  rótulo e composição todo o apreço e cuidado que esse líquido merece, o papo muda e o aperitivo vira prato principal.

Brasília não é uma produtora expressiva no cenário das cervejas artesanais. Aliás, o centro-oeste fica de fora dessa efervescência:  91% das cervejarias artesanais do Brasil se concentram nas regiões sul e sudeste, sendo São Paulo a que contém rótulos mais expressivos nacionalmente. Porém, o cerrado se destacando consumo. Numa cidade repleta de bares informais a cada esquina, há 13 lojas catalogadas no mapa das cervejas gourmet se dedicam ao consumo e à cultura das artesanais. Só a Asa Norte reúne sete lojas.

Matheus Costa, universitário de 21 anos, alia a vida corrida ao proveito hobby – degustação de cervejas. “Procuro conhecer uma cerveja por mês”, disse ele. “Meu tipo preferido é Stout: gosto do sabor amargo com um pouco de torrado”, ensinou o estudante com ares de quem conhece o que consome.

Jairo Lima, de 60 anos, leva o hobby a sério. “Tomo cervejas artesanais quatro vezes por semana”, disse o engenheiro. Fã do tipo Weiss (Trigo) clara, ele fala da sua preferência: “As prefiro por serem mais saborosas. E também por que fabrico, ocasionalmente”.

Ao que tudo indica essa moda não é passageira. Em 2005, foi realizado o primeiro levantamento feito sobre o “mundo das cervejas artesanais”. De lá para cá, o Brasil saltou de modestas 46 cervejarias artesanais espalhadas por todo o território nacional para impactantes 372 ainda em 2015.

A taxa de crescimento anual, em média, foi de 50 cervejarias, ou seja uma cervejaria artesanal é inaugurada por semana, segundo o Instituto Cerveja Brasil. Somado a isso, temos só no ano passado, uma movimentação de R$ 74 bilhões – o equivalente a 1,6% do PIB nacional – no setor cervejeiro, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas.

O sonho

Vitor Gonçalves é um apaixonado por cerveja. Consome, pesquisa, vende e produz. Dono do Macunaíma’s Pub, na Asa Norte, ele disse que as microcervejarias e importadoras ocupam cada vez mais espaço no mercado nacional. “Tive a ideia de negócio para dar oportunidade aos brasilienses para conhecerem cervejas locais harmonizadas com pratos regionais”, contou ele.

Bem longe da distante e privilegiada meca (santuário) da cerveja artesanal candanga, quem corre atrás do sonho de produzir sua própria cerveja é o pós-graduando em Química Forense, Higor de Lima e Silva, de 23 anos. Ainda na faculdade, ele conta que conheceu duas paixões: a namorada e a cerveja.

“Acho que todo mundo tem ou já teve aquele sonho de um dia juntar uns amigos e abrir um bar”, reagiu Higor, informando que os planos são de se unir na produção e venda de cerveja com a namorada e os amigos. “Era um sonho entrar nessa cena de cervejeira e também de microeconomia local. Tem muita coisa bacana surgindo e a gente tem de tentar fugir só das grandes marcas internacionais.”

“Beba menos, beba melhor” é o slogan repetido pelos apreciadores dessas cervejas. A sugestão  de carpe diem – do latim, “aproveite o momento” –  promove um convite aos interessados para diversos rótulos e tipos. Eu não sei você, mas nós não conseguimos recusar. Cheers!

Foto de Capa: Brenda Santos