Meninas que se tornam mães

Só em 2015, 5.589 jovens com menos de 19 anos tiveram bebês no DF

Giovanna Ferreira

Um dia antes de completar 17 anos, Letícia Cortês descobriu que estava grávida do namorado Ronaldo Rodrigues, de 24. Ela está com oito meses de gestação de Valentina, não largou os estudos e segue firme no Ensino Médio. “Achei melhor não me atrasar na escola, tive que me esforçar em dobro por causa das faltas e do mal-estar da gravidez. Mas minhas notas estão sendo boas, não tenho muito que reclamar, não está sendo tão difícil como imaginei”, disse a adolescente. Mas Letícia é uma exceção entre as jovens mães, pois a maioria muda radicalmente a rotina e abandona a sala de aula.

Ginecologista a 12 anos, João Serafim Neto, 35 anos, garante que há vários perigos em uma gravidez precoce “Durante a adolescência, o corpo da mulher ainda não está totalmente maduro, apesar de já estar apto a gestar. Oscilações hormonais típicas desse período aumentam riscos de complicações como pré-eclâmpsia e eclampsia (elevação da pressão arterial da gestante), alterações vasculares (varizes e trombose), além de complicações durante o trabalho de parto, parto e amamentação, devido ao desenvolvimento incompleto dos órgãos sexuais femininos (útero, musculatura do assoalho pélvico e glândulas mamárias). Apesar de ser também um risco isolado, a prematuridade também pode estar associada a um ou mais dos fatores acima.

Pelos dados da Secretária de Saúde, 5.589 jovens, com menos de 19 anos, foram mães no Distrito Federal em 2015. O Centro-Oeste é a terceira região com maior incidência de gestantes adolescentes no país, atrás apenas do Norte, que é o campeão e o Nordeste. Desde 2008, o Ministério da Saúde implantou o Projeto Saúde e Prevenção nas Escolas em parceria com várias organizações, secretarias estaduais e municipais para disponibilização de métodos contraceptivos. Há, ainda, programas governamentais que podem auxiliar no atendimento às mães e pais adolescentes, como o Primeira Infância Melhor (PIM), Programa Saúde na Escola (PSE) e a Rede Cegonha. Segundo o Doutor João, muitas vezes não é a falta de acesso aos métodos que culmina em uma gestação, mas sim a incapacidade de utilizá-los corretamente. “Acho que a disponibilização dos métodos contraceptivos precisa ser acompanhada de uma conscientização e educação sobre a sexualidade de nossos (as) adolescentes”.

Na adolescência, a gravidez é vivida por todos na família, como conta Letícia Cortês, de 17 anos. “Fiquei com muito medo da reação da minha família, foi o que mais me desesperou, mas me surpreendi muito e percebi o quanto tenho sorte de tê-los”, disse ela, que aconselha as meninas de sua idade a se prevenirem e se cuidarem. “Não que eu esteja arrependida, mas se eu pudesse adiaria esse momento da minha vida”.

Situação bem diferente viveu Drielly Evelim, de 16 anos, que engravidou aos 15. “Minha família até aceitou bem, mas meu pai ficou surpreso e então passou um mês sem falar comigo”, desabafou ela, que abandonou os estudos durante por um ano e não está mais com o pai do bebê, com quem namorou por dois anos. “Ele não quis assumir a gravidez e a família inteira ficou do lado dele. Ele não é tão presente como deveria ser”, disse a adolescente mãe de Laura Valentina, de um ano. “Minha vida mudou totalmente. Hoje vejo a vida de outra maneira e não penso só em mim. Mas sim em uma pessoa que depende de mim para tudo”.

Segundo a psicóloga Eliane Gomes, de 45 anos, as reações da família quando há uma adolescente grávida tendem a ser contraditórias, mas o comum é a sobreposição de sentimento de revolta, abandono e aceitação do “inevitável”. “Cada família terá sua dinâmica e resolverá a situação de acordo com seu entendimento”, disse a especialista. Se formos levar em consideração as crenças, os valores, a cultura familiar e o modo como age cada família perante esse tipo de situação, ou seja, considerando as potencialidades e os limites da família em relação a gravidez precoce, não é possível afirmar que há uma influência direta da família neste caso, mas também não se pode negar que possa haver situações que pareçam “positivas” ao entendimento da adolescente, inclusive o desejo de ser mãe.

Também aos 15 anos, Maria Eduarda Silva, de 16, descobriu a gravidez: “Levei um susto. Só minha irmã que não reagiu muito bem, mas não tive problemas com a minha família e a do meu ex-namorado, com quem fiquei durante dois anos. Apesar de tudo, ele é bastante presente na vida do meu filho”. Assim como Drielly, ela deixou os estudos. “Muitas coisas mudaram na minha vida, mas, prefiro assim. Afastei-me de várias pessoas e hábitos, hoje é tudo melhor”, afirmou a mãe de Kauê Felipe, de quatro meses.

Para a psicóloga Eliane Gomes, deve haver um esforço conjunto – da família, escola e profissionais de saúde – na tentativa de evitar a gravidez precoce.  De acordo com ela, a base é o estímulo aos diálogos, às reflexões e aos debates em busca do esclarecimento de causa e consequências referente a vida sexual ativa na adolescência.

A pedagoga Cacilene Alves acredita que a educação sexual poderia ser mais discutida nas escolas públicas e privadas. “Sei que não se pode generalizar, porém, não se pode também fazer de conta que é diferente porque não é, acredito que seja por isso que a maior idade está demorando um pouco mais a chegar, os adultos estão mais pertinentes com atitudes nada saudáveis”, afirmou a pedagoga, lembrando que as adolescentes grávidas abandonam a escola por falta de maturidade e instrução.


 

Número de nascimentos por ocorrência e idade da mãe segundo região. Período: *2011.*
Região Menor de 10 anos 10 a 14 anos 15 a 19 anos 20 a 49 anos

+ Idade ignorada

Total
TOTAL (Brasil) 1 27.785 (0,9%) 533.103 (18%) 2.352.271 2.913.160
Região Norte 1 5.115 (1,6%) 77.857 (25%) 230.057 313.029
Região Nordeste 10.819 (1,3%) 177.607 (21%) 662.754 851.181
Região Sudeste 7.090 (0,6%) 174.628 (15%) 962.495 1.144.213
Região Sul 2.682 (0,7%) 61.899 (16%) 313.419 378.000
Região Centro-Oeste 2.079 (0,9%) 41.112 (18%) 183.546 226.737
Fonte: Ministério da Saúde. DATASUS

 

 

 


Taxa de mortalidade infantil (por mil Nascidos Vivos) por idade da mãe, segundo região. Período *2011*
Região 10 a 14 anos 15 a 19 anos 20 a 24 anos 25 a 29 anos 30 a 39 anos 40 a 59 anos
TOTAL 20 14 11 10 11 16
Região Norte 23 15 13 12 13 21
Região Nordeste 19 14 12 11 12 18
Região Sudeste 19 13 10 9 10 14
Região Sul 21 14 11 9 10 17
Região Centro-Oeste 26 13 11 9 11 17
Fonte: MS/SVS/DASIS – Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM

 

Foto de Capa: PIXABAY