Lixo embaixo do tapete

Movimentos sociais e moradores da região sofrem e reclamam do descaso público

Thiago Siqueira

Após mais de dois anos de atraso ao custo de quase R$ 45 milhões, a primeira etapa do Aterro Sanitário de Samambaia foi entregue sob críticas e polêmicas de moradores da região. Nos três primeiros meses de funcionamento, houve abaixo-assinado virtual e mobilizações contrários pelo fim do aterro.Antes da entrega da obra, o Ministério Público cobrou do Serviço de Limpeza Urbana (SLU) a finalização da obra. Pouco depois, precisou mediar o diálogo entre poder público e moradores da região.

Na primeira etapa, o Aterro de Samambaia receberá apenas o material que já passou pela triagem e não pode ser reciclado. Ao todo, serão 900 toneladas diariamente. Mas nas quadras 800 e 1000 da Samambaia, moradores reclamam do aumento de moscas e do mau cheiro no local. Morador da região, Douglas Borges, de 19 anos, desabafou:  “A situação está feia, agora tem muita mosca e barata, dizem que é o tempo, só que sempre teve esse tempo, mas nunca teve desse jeito aqui”.

Para Wesley Neyva, comerciante da região, a situação piora à noite, informando que o mau cheiro também chega ao seu comércio, dependendo da direção e da intensidade do vento. “Sinal de que tem alguma coisa errada porque quando mosca voa à noite, normalmente ela se fixa em algum lugar e ali fica, agora tem até que bater veneno a noite”, afirmou.

Para o Movimento Fora Lixão, formado por moradores e comerciantes da região contrários à construção do aterro em Samambaia, defende a adoção de uma série de medidas, como a revisão da localidade, a abertura dos estudos para a sociedade civil e discussão pública sobre o tema. Desde 2007, ofícios e notificações foram enviados para o governo, mas as respostas não chegaram.

“Vale lembrar que o aterro ainda não está operando com capacidade total; no Titanic havia uma frase que dizia o seguinte ‘nem deus me afunda’, não quero ser pessimista, contudo, havendo negligência por parte do GDF qualquer cidadão poderá processar o Estado pedindo reparação por danos sofridos e bastará imprimir os documentos do Fora Lixao e levá-los a qualquer defensor público”, arrematou o líder comunitário Edy Carlos.

Remendos

Outra discussão é sobre como compensar os moradores da região por eventuais perdas causadas com a instalação no aterro no local. Na Licença de Instalação o Serviço de Limpeza Urbana concorda em compensar o Instituto Brasília Ambiental com o repasse de R$ 771.310 reais no prazo de 60 dias, sem  prorrogação. O objetivo é utilizar o dinheiro para minimizar danos do aterro, reconstruir uma escola, que próxima à área e instalar placas de “Perigo – Não entre”.

O Ministério Público recomendou ainda ao Ibram o cumprimento de prazos na emissão do termo de referência, por exemplo, a elaboração de um plano de compensação ambiental ao parque Gatumé e também para os moradores, além de campanhas de conscientização. Mas os moradores se queixam que nada está explicado.

Moradora antiga da região, Edna Rocha de 28 anos, reclama da ausência de informações. “Ninguém sabe de nada, aqui na rua mesmo pode perguntar, nenhum [morador] vai saber te dizer o que é essa contrapartida, tem gente que nem sabe que vai ter isso”.

O desconhecimento é geral, mesmo o Sindicato dos Trabalhadores da Limpeza Urbana (Sindlurb-DF), o diretor de Comunicação do sindicato, Cloadoaldo Santos, queixa-se da falta de diálogo. “Tanto o sindicato quanto os moradores não sabemos o que são as contrapartidas. Quanto vai custar para o governo nem nada. Só sabemos que a qualidade de vida da região está em risco”, disse.

Apesar da insistência do Artefato, o Serviço de Limpeza Urbana não respondeu às questões relacionadas às queixas nem detalhou sobre as contrapartidas para a população.