Juventude workaholic

Sobrecarregados, jovens abrem mão do descanso e lazer pelos estudos e trabalho

Alan Rios e Danilo Queiroz

Acordar sem ânimo, passar o dia à espera do momento de dormir e quando chega a hora de deitar, nada de conseguir, porque as preocupações com o trabalho e os estudos não permitem. Essa é uma rotina frequente para muitos jovens, segundo a agência paulista de pesquisa TNS Serviços de Mercado Limitada. De acordo com o levantamento, as gerações Y e Z estão dispostas a trabalhar mais do que seus pais, mesmo à noite, fins de semana e feriados. Assim, os jovens se impõem a obrigação de somar experiências, acumulando a faculdade com vários cursos paralelos, estágios, trabalhos e atividades não remuneradas. A justificativa? Enfrentar a crise de emprego. Porém, ser um workaholic – aquele que é viciado em trabalho ou trabalhador compulsivo – ainda na juventude tem um preço caro.

Elias Júnior, 24 anos, disse ter amor pelo trabalho como professor de matemática, mas algo tão grande como essa paixão já o impediu de fazer o que gosta: ele foi diagnosticado com estresse e início de depressão. “Foi um momento bem difícil para mim, pensei até em largar a educação. Pelo acúmulo de trabalho, não consegui fazer nenhum esporte, nem tinha quaisquer distrações”, contou. O dia do educador do Centro Educacional Maria Auxiliadora é duro: começa às 5h da manhã, quando acorda, e vai até as 2h da madrugada, quando dorme. O trabalho é o foco, mesmo em casa, quando busca alternativas para aperfeiçoar a metodologia em sala de aula.

“Perdi convivências com família, amigos e relacionamentos por causa do trabalho. Agora vejo que tudo tem seu tempo, cada um tem de saber até onde pode ir. Mas se quero ter um tempo livre maior, preciso me aperfeiçoar cada vez mais”, afirmou Elias Júnior, que faz parte de um grupo, cada vez maior, de jovens que se dedicam de maneira frenética à carreira. “Tudo que faço é pensado. Estou caminhando para os 30 anos e não quero chegar com escolhas mal-planejadas”, disse.

No Brasil, de 12,3 milhões de desempregados, o esforço para o trabalho tem que ser cada vez maior, o que faz com que as gerações Y e Z não recusem propostas de crescimento profissional. A vaga na Agência Júnior é agarrada com força, assim como as oportunidades de atividades complementares da faculdade, o desconto no curso de línguas, a oportunidade de estágio, a flexibilidade de um workshop online e assim por diante.

Prazer

Levantamento realizado pela Associação Brasileira de Estágios (Abres), em 2016, com base no censo Inep/MEC 2015, mostra que o Brasil conta com cerca de 8 milhões de estudantes matriculados no ensino superior. Dos quais, 740 mil – ou 9,2% – fazem estágios remunerados formalmente. O jornalista recém-formado Elijonas Maia, de 23 anos, conciliou durante a graduação dois estágios e a faculdade. O ápice desse processo foi quando tinha um trabalho pela manhã, estágio à tarde, faculdade à noite e uma atividade de freelancer nos fins de semana.

“Não me arrependo de nada. Se não tivesse feito os estágios eu não estaria empregado hoje”, contou Elijonas, que após se formar, voltou a trabalhar na Record e em outra empresa de assessoria. “É um ciclo de esforço e dedicação que fiz durante a faculdade e que foi recompensado”, disse o jornalista, informando que entre redações e assessorias de imprensa, sempre fez tudo “com prazer”. “Realmente gosto muito de trabalhar, eu não consigo ficar sem fazer nada. Sempre tive dois estágios para poder pagar a faculdade e porque gostava muito de trabalhar”, afirmou. “Vamos ver como vai ser até meus 26 anos. Caso eu me canse, fico só em um.”

Saúde mental

De acordo com a psicóloga Isabela Parente, esse comportamento workaholic, que faz com que jovens gostem de estar constantemente sobre a pressão do trabalho, é explicado pela liberação de neurotransmissores que os mobilizam para a execução dessas atividades: “Em psicologia, nós chamamos de operação estabelecedora, essa situação de estresse que gera condição para executarmos as coisas”. Porém, ela ressalta que é preciso manter uma harmonia entre assuntos profissionais e pessoais, pois “se o peso não está sendo equilibrado, a gente acaba perdendo saúde”.

Para a psicóloga, é fundamental monitorar esses desgastes: “É preciso tatear muito bem o nosso estado. Não estar conseguindo dormir, mas ter sono o dia inteiro, ter muitos pesadelos, isso sinaliza que o estresse não está saudável. A gente vai se arrastando e quando percebe o corpo desmaia, sofre uma gastrite, uma enxaqueca, dores na coluna, que são doenças muito comuns de estresse no trabalho”.

Assim, até mesmo os jovens que sentem prazer em dedicar horas ao trabalho podem acabar não conseguindo ter a qualidade que esperam nem alcançar o currículo de destaque. O difícil equilíbrio entre a vida pessoal e profissional deve ser buscado mesmo com atitudes pequenas, que podem ajudar nos dois âmbitos, como conclui a psicóloga. “É importante colocar um horário de almoço, fazer um lanche por 15 minutos, ainda no trabalho, e em algum momento à noite parar para uma meditação. Tomar um banho demorado, navegar na internet, somente por lazer. Isso é para  despressurizar a cabeça que ficou o tempo todo sob pressão”, ensinou Isabela Parente.

Foto de Capa: Poliana Fontenele