Com criatividade, sertanejos fogem da crise

Com número reduzido de shows, artistas criam composições e vendem para famosos

Gustavo Mamede

A crise econômica estimulou a criatividade dos cantores e compositores sertanejos do Distrito Federal. Com cachês que giram em torno de R$ 1.000,00, eles passaram a apelar para a venda de letras musicais. A mudança gera lucro, pois, em média, a letra de uma canção pode custar R$ 2.000, 00. Quem compra? Artistas que buscam composições originais e interessantes na tentativa de conquistar cada vez mais o público.

Cantor e compositor há 11 anos, Ícaro Gabriel, de 26, uniu-se aos artistas Rafael di Souza, Túlio Donatti, Jordana Félix e Fellipe Salles. Juntos, eles compõem letras com temas bem diversificados. Já conseguiram vender composições para nomes reconhecidos nacionalmente, como o grupo Villa Baggage – que gravou a música “Proposta Indecente” – e Gabriel Gava – que gravou “Será que você quer”.

“Eu encontro com esses artistas pelo menos uma ou duas vezes na semana para compor. Sempre sai uma moda que é boa, fora as que cada um escreve sozinho”, contou Rafael di Souza.

Para Ícaro Gabriel, vender composições é bem mais lucrativo. Segundo ele, além do lucro com a venda da letra, há a arrecadação do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) – órgão que fiscaliza e arrecada as execuções da música em rádios e repassa aos autores.

“O gasto que eu tenho com uma composição é quase zero, só preciso registrá-la em cartório, o que custa cerca de R$ 40,00. Se ela for para frente, pode render o valor de dois shows que eu faria, por exemplo, sem ter que pagar ninguém por mão de obra”, contou Ícaro Gabriel

Antes da crise, a vida de Ícaro Gabriel era fazer shows na região de Sobradinho, no Flamingo Shopping e em bares e restaurantes: em média dez espetáculos por mês. Porém, há um ano e meio, os convites despencaram e, os valores dos cachês também. Segundo ele, grupos ou duplas sertanejas, em início de carreira, recebem de R$ 1.000 a R$ 1.500 – a exigência que predomina nos contratos é de banda completa com cinco músicos.

“Hoje em dia não é um valor que compense, pois, o cachê dos músicos gira em torno de R$ 100 a R$ 150 por pessoa. Fora que geralmente tem de ser contratados técnicos de luz e som, que também recebem essa média de cachê por noite. Esse custo todo, fora o deslocamento com os equipamentos, não é interessante”, lamentou o artista.