Amizade com benefícios

Por confiança, jovens procuram nos amigos relacionamentos sem compromisso

Tatiana Castro

Um amigo para chamar de seu. Não, um amigo para chamar quando precisar de sexo. Pode parecer estranho, mas a conhecida amizade colorida é mais normal do que se imagina. É o que afirma a pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Boise (EUA), em 2015, na qual a pesquisadora norte-americana Heidi Reeder ouviu 300 homens e mulheres sobre o assunto. Quando questionados se já “fizeram sexo com um amigo”, 20% dos participantes disseram que “sim” e 76% deles contaram que a amizade melhorou depois do envolvimento sexual. Os padrões de relacionamento têm mudado e o sexo casual tem se tornado cada vez mais comum, principalmente entre os jovens.

Para a equatoriana Alessandra González, de 23 anos que mora na Argentina há seis, manter relações sexuais com amigos é uma das melhores experiências que ela já viveu. “Tenho um touch and go [expressão que caracteriza uma situação passageira] há 7 anos. Além de ser uma das minhas amizades mais antigas e duradouras, é um dos meus melhores amigos até hoje”, confidenciou a estudante de Direito. Segundo ela, o sexo casual a faz ver os amigos como amantes respeitosos. Ela não se espanta que a amizade tenha perdurado naturalmente.

A estudante conta que não só apoia a amizade com benefícios, como esse foi um dos maiores motivos que a encorajou a perder a virgindade. Na época com 15 anos, Alessandra disse ter sentido mais segurança por ser com um amigo. “A primeira experiência me influenciou positivamente. Ao longo dos anos, desenvolvi relações parecida. Nunca falamos em namoro e isso não me assustava. Muitas vezes o bom de ser amigo é que você pode ser autêntico sem dramas”, destacou.

Preferência

Para alguns jovens, a questão da confiança no amigo pesa muito ao escolher esse tipo de prática. A estudante de Comunicação Social Gabrielle Barros, de 21 anos, afirma que o envolvimento com amigos virou preferência. “Tive meu primeiro relacionamento amoroso com meu melhor amigo. Depois que terminamos, eu continuei ficando e transando com outros amigos. Até hoje mantenho a maioria das amizades”, disse.

A psicóloga especializada em jovens e saúde Lyris Meruvia Pinto reafirma o ponto de vista de Gabrielle. “O fato de escolher amigos pode estar relacionado com a necessidade de uma confiança e um conhecimento prévio que não estão presentes em encontros casuais com desconhecidos”, pontuou.

Sexo antes, amor depois

A letra que compõe a canção “Amor e Sexo”, de Rita Lee, traz um dos questionamentos que alguns se fazem quando começam a se envolver com um amigo: sexo é escolha, amor é sorte? Para as pessoas que transformaram sexo casual em relacionamento sério, pode ser que a escolha e a sorte tenham caminhado juntas. Segundo a pesquisa da Universidade Estadual de Boise, metade dos entrevistados afirmou ter engatado relacionamentos sérios após a experiência com amigos.

O gastrônomo Rômulo Fontani, de 22 anos, conta que se envolveu com um amigo por curiosidade, mas que a relação evoluiu. “Começamos na faculdade, tínhamos uma amizade forte e as brincadeiras viraram coisa séria”, afirmou ele, que manteve a relação por dois anos. Questionado se há barreiras que impeçam o envolvimento entre amigos, Rômulo é sucinto: “Essa barreira é socialmente construída. Sexo deveria ser levado menos a sério”.

Antiguidade

Engana-se quem acredita que a prática é nova e só tem a ver com jovens. Se há uma figura que explique bem a “amizade colorida” é Alexandre – O Grande, imperador da Grécia Antiga, que viveu em meados dos anos 300 a.C. O macedônio manteve um relacionamento de décadas com seu melhor amigo, Heféstion, regado de batalhas, guerras e sexo – muito sexo.

Para a psicóloga Lyris Meruvia, apesar da sociedade esperar certas condutas dos outros, não existe um padrão a ser seguido. “As configurações das relações humanas na modernidade causam certo estranhamento entre as pessoas. Mais importante é observar se essa forma de se relacionar ou vivenciar a sexualidade, traz algum sofrimento para o indivíduo ou para as pessoas com as quais ele se relaciona”, alertou.

Apesar de ainda ser um tabu, fazer sexo com amigos pode ser a porta de entrada para experiências de autoconhecimento. O que importa é ser consciente e não ultrapassar os limites de ninguém. E que no fim todos tenham a mesma intenção: relaxar e gozar.

“Precisamos estar abertos a essas formas de relação, uma vez que elas refletem não só as necessidades e desejos de um grupo de pessoas, mas o momento histórico, político e social onde estes indivíduos estão inseridos”, completou Lyris.

Foto de Capa: Emanuelly Fernandes